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Correio da Manhã

Portugal
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Prendia idosos na cave

Cristina Sena, a proprietária de uma moradia que funcionava como lar ilegal, em Campo, Valongo, indiciada por sequestro e maus tratos, saiu ontem em liberdade, tendo-lhe sido aplicada pelo tribunal uma caução de cinco mil euros.
9 de Novembro de 2007 às 00:00
Os 12 idosos saíram em carrinhas e em automóveis de familiares
Os 12 idosos saíram em carrinhas e em automóveis de familiares FOTO: António Rilo
Ao que o CM apurou, um dos idosos que anteontem deixou o lar – entretanto fechado pela GNR – disse que estava impedido pela proprietária de manter qualquer contacto com o exterior e queixou--se da falta de 80 mil euros na sua conta bancária.
Todos os utentes terão dado à empresária, como condição de admissão, plenos poderes para movimentar as contas pessoais. O idoso que agora apresentou queixa disse ainda que estava proibido de contactar os familiares, tendo também entregue a Cristina Sena vários cheques em branco.
A GNR desencadeou ontem uma operação de libertação dos idosos. E chamou as famílias, pelas 09h00, para acompanharem a situação. “Fomos avisados pela Segurança Social que nos disse haver razões graves para os tirarmos daqui”, referiu ao CM Luísa Moreira, momentos antes de se encontrar com o pai de 82 anos, Augusto Moreira, ali acolhido há três semanas.
“Deparámo-nos com um cenário de fragilidade psicológica total”, acrescentou ao CM fonte da Segurança Social.
A operação policial foi recebida com agrado pelos idosos, que esperavam encontrar outras condições numa casa onde pagaram, cada um, três mil euros de jóia e 800 euros de prestação mensal.
“A moradia é espectacular, melhor do que o hotel onde estive de férias no Algarve, mas eles ficavam todos na cave”, acrescentou Luísa, garantindo que recebia recibos dos pagamentos.
Pouco a pouco chegaram os restantes familiares e os 12 idosos que viviam e dormitavam todos juntos, homens e mulheres, foram transferidos para outras instituições de solidariedade em viaturas oficiais. Apenas três voltaram para casa de familiares e duas mulheres foram hospitalizadas.
A primeira denúncia à Segurança Social, surgiu em Setembro e partiu de uma enfermeira que verificou que no lar não existia registo de prestação de cuidados médicos e rejeitou a administração de injecções, o que viria a ser feito segundos depois por Cristina Sena.
Já em Outubro, o marido de uma idosa a quem o lar negara tratamento após uma queda grave e início de uma pneumonia, conseguiu contactar a polícia quando se apoderou do telemóvel de uma das funcionárias. Na sequência dessa queixa, a esposa conseguiu ser internada no Hospital S. João, Porto, onde entrou em coma, disse fonte policial.
O presidente do Instituto da Segurança Social, Edmundo Martinho, referiu ontem à SIC que a “situação era conhecida, mas que só agora foi possível agir” e que “não se tratava de um lar e por isso não estava sujeito a fiscalização.”
O CM apurou que a proprietária, que se iniciou no ramo há dez anos, só tinha licença para prestar apoio domiciliário. “Já não é a primeira vez que isto acontece, estão a persegui-la”, disse ao CM a irmã de Cristina Sena, agora suspensa também de funções e com termo de identidade e residência.
FECHOU A SUA PORTA À GNR
A GNR foi anteontem impedida de entrar na moradia, quando se dirigia para a habitação com um mandado do Ministério Público. O CM sabe que os militares, que se encontravam acompanhados por elementos da Segurança Social, tiveram de saltar o portão da residência e demoraram algum tempo a encontrar os idosos, que estavam todos na cave.
PORMENORES
JÓIA ELEVADA
Segundo apurou o CM, os utentes pagavam três mil euros de entrada no suposto lar e 800 euros de prestação mensal. “Queremos reaver o nosso dinheiro”, disse Luísa Moreira, familiar de Augusto Moreira, utente de 82 anos.
DOIS ADVOGADOS
Enquanto Cristina Sena estava no tribunal com um dos advogados, outro causídico permanecia atento a todos os passos da GNR e da Segurança Social dentro da moradia, juntamente com os familiares e utentes. Cá fora, na Rua do Borbulhão, esperavam os jornalistas.
LAR ELOGIADO
Apesar da intervenção das autoridades, quase todos os familiares teceram elogios à proprietária e às condições do lar, criticando o seu encerramento. Muitos deles estavam visivelmente irritados com a presença dos jornalistas.
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