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Correio da Manhã

Portugal
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PRESO POR TRÁFICO DE URÂNIO

José Leonel Ferreira, empresário e pastor evangélico, foi detido cerca da 1h da madrugada de ontem pela PJ, sob a suspeita de estar envolvido numa rede internacional de tráfico de substâncias nucleares, entre as quais o urânio enriquecido, um produto usado no fabrico de armas nucleares.
12 de Julho de 2002 às 00:07
Tribunal determinou a prisão preventiva ao empresário, que, segundo as investigações, “tinha uma acção preponderante na rede”.

A operação - conduzida pela Secção Regional de Combate ao Banditismo da Directoria do Porto da PJ - inseriu-se no desenvolvimento de "uma investigação autonomizada", após cumprimento de uma carta rogatória internacional emitida pelas autoridades francesas, no quadro da desarticulação daquela rede.

Os indícios sobre o envolvimento do líder da Igreja Karisma - sediada em Vila Nova de Gaia - remontam a diligências encetadas no início deste ano. Em acção coordenada com sua congénere francesa, a PJ procedeu a uma busca em casa de José Leonel Ferreira, na área do Porto.

Foi apreendida correspondência trocada com indivíduos de nacionalidade russa e de outros países de Leste. No rol do material recolhido incluía-se o original de um fax, dactilografado em inglês, com a data de 28 de Agosto de 2001, destinado ao milionário egípcio Mohamed Al-Fayed.

O pivot das pistas seguidas nas investigações foi um cidadão camaronês, Raymond Lové, suspeito de pertencer a uma rede de tráfico de urânio, na posse do qual foram encontradas passagens de avião com destino a Portugal.

Mão francesa

A polícia francesa descobriu essa rede quando vigiava Serge Salfati, pouco depois deste deixar a prisão, porque suspeitava que ele se preparava para participar num processo de burla. Mas, em vez disso, deparou com uma garrafa contendo a substância radioactiva. As autoridades detiveram então Salfati, Lové e Yves Ekwalla, outro camaronês.

As investigações terão finalmente relacionado José Leonel Ferreira, 46 anos, com a rede. Leonel Ferreira esteve em contacto com o trio em Paris, em Agosto do ano passado, a propósito de uma amostra de cinco gramas de urânio 235, procedente da indústria militar russa.

No fax dirigido a Al-Fayed, Leonel Ferreira aludia a explicações pedidas por contactos na Rússia e problemas encontrados em Paris. Em reportagem sobre o caso, publicada em 28 de Abril passado, o jornal francês "Journal du Dimanche" afirmava que os investigadores não descartavam a possibilidade de o documento ter sido manipulado e ser uma manobra de diversão. Al-Fayed foi há alguns anos o braço-direito do comerciante de armas Adnan Kashoggi, seu cunhado.

Inocência

Nas anteriores audições com a equipa de investigação, José Leonel Ferreira negou com veemência qualquer envolvimento na rede de traficantes. Embora confirmando ter tido contactos com Raymond Lové, adiantou todavia que essas conversações visavam a constituição de uma empresa ("trading").

Quanto ao fax enviado a Al-Fayed, Leonel Ferreira declarou que a sua difusão foi feita a partir de um número seu, mas garantiu não ser autor do conteúdo ou sequer responsável pelo seu envio. Sobre Al-Fayed afirmou nunca ter tido contactos com ele, além de desconhecer que alguma vez este egípcio tivesse estado ligado ao comércio de armas.

Apesar desses protestos de inocência, a PJ reuniu e recolheu indícios bastantes sobre o envolvimento do empresário-pastor na rede, a ponto de admitir a sua preponderância no seu seio.
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