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Correio da Manhã

Portugal
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Privado rouba médicos

O novo Hospital da Luz, do Grupo Espírito Santo Saúde, junto ao Centro Comercial Colombo, em Lisboa, contratou 200 médicos, 80 dos quais vão trabalhar em regime de exclusividade, tendo-se desvinculado do Serviço Nacional de Saúde (SNS), através da licença sem vencimento ou exoneração. Muitos doentes podem ir atrás dos seus médicos e, pelo menos, uma dezena de clínicos assumiam cargos de chefia nos hospitais públicos.
14 de Dezembro de 2006 às 00:00
O futuro Hospital da Luz contratou duas centenas de clínicos. muitos pediram licença sem vencimento
O futuro Hospital da Luz contratou duas centenas de clínicos. muitos pediram licença sem vencimento FOTO: d.r.
Alertado para a saída dos médicos, o ministro da Saúde, Correia de Campos, fez um despacho que determina a incompatibilidade com as funções de coordenação e direcção nas unidades de saúde privadas.
Isabel Vaz, presidente da comissão executiva do Hospital da Luz, aponta ao CM as razões da opção dos médicos: “Há um conjunto de motivos que leva os médicos a procurar melhores locais de trabalho, os quais passam por uma melhor remuneração, mas não só, também satisfação profissional, moderna tecnologia, melhor organização de trabalho, bom ambiente com os colegas e até reconhecimento profissional”.
Segundo aquela responsável, um grupo de 120 médicos não é residente e, por isso, pode conciliar o trabalho com o hospital, enquanto o grupo de 80 clínicos residentes (ou em regime de exclusividade) está impedido contratualmente de trabalhar noutras unidades de saúde privadas. Contudo, estes médicos “pontualmente podem fazer serviço públicos, por exemplo nos serviços de Urgência dos hospitais”. Um exemplo apontado é o caso dos médicos do INEM – Instituto Nacional de Emergência Médica –, que continuam a responder a chamadas de socorro.
O horário de trabalho é de 40 horas, mas os “médicos fazem sempre mais horas”, segundo Isabel Vaz.
Fonte do gabinete de Correia de Campos diz que “não há sinais de que haja sangria de médicos dos hospitais públicos” e, por consequência, não há indícios de que a qualidade da assistência esteja em causa.
Um despacho de Correia de Campos determinou como “incompatível” o exercício de funções de coordenação e direcção em instituições privadas prestadoras de cuidados de saúde por profissionais de instituições integradas no SNS.
Quem contesta esta medida é o bastonário da Ordem dos Médicos que acusou ontem o ministro de “matar o serviço de saúde” ao determinar “ilegalmente” a incompatibilidade de funções de direcção no privado e alertou para a “destabilização do sector”.
ORÇAMENTO DOS HOSPITAIS PODE BAIXAR
O presidente da Associação Nacional dos Administradores Hospitalares, Manuel Delgado, diz que a saída dos médicos dos hospitais públicos para os privados pode fazer com que os doentes saiam atrás deles, uma situação que pode provocar problemas éticos e financeiros ao estabelecimento de saúde: “Não tenho conhecimento de casos concretos, mas é natural que os médicos levem os seus doentes consigo. Ora, essa saída provoca não apenas uma sangria de médicos, mas também de doentes.”
Segundo aquele responsável hospitalar, a prazo, esta medida pode fazer baixar o financiamento aos hospitais públicos, uma vez que o orçamento anual é proporcional à produção. “Se perdermos doentes, essa situação vai debilitar o orçamento anual”, concluiu Manuel Delgado.
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