Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
2

PROFESSORES DE VOLTA A CASA

Os olhares cercam a porta das chegadas do aeroporto de Lisboa. Aguarda-se a aparição dos professores portugueses colocados em Timor-Leste, alguns de regresso a Portugal ao fim de dois anos de ausência. No átrio, as famílias esperam por eles com ansiedade, lágrimas e muitas saudades.
19 de Julho de 2004 às 00:00
Assim que os professores surgem, começa a corrida aos abraços e beijos. Dá-se a comoção de pisar a terra natal. O medo de ser ‘malai’ (’estrangeiro’ em tétum, língua oficial de Timor juntamente com o português) em terras desconhecidas acabou.
“Contávamos as horas de uma viagem muito longa e, quando avistámos Lisboa, a emoção aumentou”, conta Helena Justino, que deu aulas numa escola em Díli, já nos braços dos dois irmãos e da mãe.
Rute Simões, professora em Same, distrito de Manufahi, diz que há um desenvolvimento acentuado na educação em Timor em relação ao ano passado. “Notei uma grande evolução no modo como encaram a língua portuguesa. Hoje têm um empenho muito maior e o aproveitamento foi excelente”.
Os progressos, segundo esta docente, têm sido tantos que ela já perdeu o pessimismo. “Se me perguntassem, no ano passado, se havia futuro para a nossa língua em Timor, dizia que não. Até responderia que não sabia como é que escolheram o português para língua oficial do país. Mas agora sei que há futuro.”
O avião deveria ter chegado um dia antes, mas uma avaria técnica não permitiu que a aeronave saísse de Jacarta. Segundo Rute Simões, “a KLM não deu qualquer explicação para o sucedido”. Apenas conduziram os passageiros a um hotel em Singapura, onde eles pernoitaram, e daí saíram para novo embarque, quase um dia depois (a transportadora aérea, contactada pelo CM, disse tratar-se de um contratempo de origem comum, mas que os passageiros foram salvaguardados).
Os pouco mais de 100 professores com contrato até 31 de Agosto chegaram a Portugal, repartidos por dois dias: no dia 9, às 13h00; e a 13, às 9h00 – devido ao atraso – e às 13h00. Filipe Silva, assessor do adido para a Educação na Embaixada de Portugal em Díli, garante que “já não há professores portugueses em Timor”. Pelo menos até ao início do próximo ano lectivo.
DOCENTES SEM CONCURSO EM TIMOR
Este ano não vai haver concurso para professores que pretendam dar aulas de língua portuguesa em Timor-Leste. A solução deverá passar pela prorrogação dos contratos com os docentes que chegaram agora a Portugal (111 terminam o contrato a 31 de Agosto).
“Tudo se deve aos atrasos das colocações nos concursos nacionais”, disse uma das professoras regressadas. O assessor do adido para a Educação na Embaixada de Portugal em Díli, Filipe Silva, confirmou que, nos anos anteriores, o concurso decorreu em Maio e no início de Junho. “O Gabinete dos Assuntos Europeus e Relações Internacionais pondera ainda se será aberto concurso ou haverá lugar a uma ‘recondução’ dos professores”.
O Ministério da Educação informa que “a lei 13 de 2004 ainda não foi regulamentada e daí a prorrogação de contratos por mais um ano”, disse a assessora de Imprensa, Ivone Ferreira.
ESCASSEZ DE LIVROS EM PORTUGUÊS
As crianças em Timor têm falta de material escolar e livros em português. Ana Medeiros, professora da Pré-Secundária Cristal, em Díli, já pediu ajuda aos amigos, mas precisa de mais. “A escola, à semelhança de outras, não tem biblioteca. Só uma estante na sala dos professores, onde estão livros em inglês, oferecidos pela Austrália, entre os manuais usados nas aulas e gramáticas de português.”
Pede aos portugueses que lhe enviem livros infantis/juvenis, manuais escolares e revistas. “Os CTT têm um tarifário económico para Timor, que permite o envio de correspondência até dois quilos, pagando 2,70 euros”, informa Dulce Lopes, dos correios nacionais. O destino é: Embaixada de Portugal em Díli, A/c Professora Ana Medeiros, Edifício ACAIT, Av. Nicolau Lobato, Díli - Timor-Leste.
OS PRIMEIROS CASAMENTOS E BEBÉS
“Casámos em Timor, foi o primeiro casamento de dois professores portugueses”, conta Filipe Silva, que conheceu a mulher, Cândida, ainda em Portugal, na vacinação preparatória para a viagem.
Os dois chegaram a Díli em Setembro de 2002 e em Dezembro “tornou-se um relacionamento oficial”. “Quando fizemos a cerimónia na embaixada, os timorenses aceitaram com normalidade a relação, mas ainda vendo alguma clandestinidade”, disse o professor, por ter casado no civil e não na Igreja.
Os dois esperam um filho, que vai nascer em Portugal, em Outubro. Mas outro casal, Alexandre e Ana, foram pais há poucas semanas do primeiro bebé, filho de professores portugueses, a nascer em Timor. Aconteceu em Baucau, onde eles dão aulas.
DAR AULAS DE PORTUGUÊS EM TIMOR
POSITIVO
“Cumprimos o nosso dever de formação” Dulce Vidal, Same
“Se os nossos formandos continuarem com a força de vontade que têm demonstrado até agora, a educação em Timor fica-lhes muito bem entregue” Liliana Rodrigues, Same
“O contacto com os professores timorenses, tendo em conta o gosto que eles têm em ensinar” Rute Simões, Baucau
NEGATIVO
“A organização das escolas timorenses, onde os outros professores só falam bahase-indonésio ou tétum e nós só falamos português” Helena Justino, Díli
“As faltas de luz, água e alimentos” Liliana Rodrigues, Same
“Falta de organização por parte da missão portuguesa, em coordenação com o Ministério da Educação timorense” Rute Simões, Baucau
Ver comentários