A PSP de Viseu tem em curso uma investigação ao bairro da Quinta do Grilo, conhecido como zona de prostituição, mas o seu comandante admite que é "difícil recolher prova" porque a atividade se pratica dentro de apartamentos.
"Não há ali prostituição a céu aberto, nas ruas. É uma prostituição encapotada, o que em termos de investigação se torna muito mais complicado", disse hoje à agência Lusa o comandante Victor Rodrigues, na sequência de novas queixas de moradores daquele bairro.
Há vários anos que moradores daquele bairro residencial, situado junto ao Hospital de S. Teotónio, se queixam do mau ambiente gerado depois de várias prostitutas terem ido morar para lá, tendo feito abaixo-assinados e apresentado queixas na PSP.
Victor Rodrigues, que tomou posse como comandante da PSP de Viseu em outubro, contou que, cerca de um mês depois, recebeu uma carta de um morador indignado a descrever essa situação e que, de imediato, procurou saber o que se estava a passar.
"Em termos de investigação criminal, temos um processo aberto. Mas é difícil recolher prova, porque os homens que são abordados, embora se desloquem claramente para junto daquelas senhoras, não dizem ao que vão. E elas, quando são abordadas, também não dizem que se dedicam a isso", contou.
O comandante explicou que deu "instruções ao pessoal fardado para policiar com muita frequência aquela zona e, inclusive, abordar as pessoas" que se deslocam lá.
"Se sentirem que a polícia controla, que quando ali vão podem estar sujeitos a ser mandados parar e a identificar-se, pode ser que evitem ir lá", explicou.
Victor Rodrigues contou que a insistência na vigilância daquele bairro já vinha do tempo do seu antecessor. Só de fevereiro até ao início de dezembro houve 45 dias em que elementos da esquadra de intervenção e fiscalização receberam "ordem de missão específica escrita" para irem para aquela zona.
"E há ainda as patrulhas feitas sem essa ordem específica", acrescentou, esperançado de que "as pessoas sintam que a polícia está em vigilância naquela zona e saiam de lá, para ver se se consegue libertar um pouco o bairro daquele mau ambiente".
Para Carlos Vieira, do núcleo de Viseu da associação de defesa de direitos humanos Olho Vivo, a solução é a legalização da prostituição, porque "quando se estigmatiza e discrimina as pessoas, os fenómenos têm tendência a adquirir uma dimensão muito maior".
Carlos Vieira disse compreender a indignação demonstrada por alguns moradores, mas lembrou que também as prostitutas são moradoras no bairro, pagam renda e "têm necessidade de ganhar a vida, até porque muitas são compelidas para a prostituição" por dificuldades financeiras.
"Parece-nos que a única solução será a dignificação das trabalhadoras do sexo, reconhecendo-lhes direitos laborais e fazendo com que a hipocrisia deixe de reinar", frisou.
Na sua opinião, "se deixar de haver essa hipocrisia e a prostituição passar a ser uma atividade legal, passando as prostitutas a pagar impostos e a ter direitos laborais, tudo adquire um caráter muito mais normal".
Desta forma, "os locais onde elas moram e têm a sua atividade deixariam de ser encarados como bairros vermelhos, como locais de pecado", e elas poderiam até "estar mais disseminadas", ao invés de se concentrarem em determinadas zonas da cidade, acrescentou.
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