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Correio da Manhã

Portugal
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QUANDO CONSEGUIMOS COMUNICAR É UM ALÍVIO

Janeiro de 2001. Quatro dias passados desde o início do ano, Manuel Subtil entra na estação da RTP. Dois milhões de contos levam-no a trancar-se na casa de banho com as duas companheiras e as duas filhas. O emigrante está desesperado. Se a RTP não pagar aquilo que lhe deve ameaça fazer detonar uma mala com explosivos que diz ter consigo. Horas depois, um negociador da PSP consegue demovê-lo.
4 de Dezembro de 2004 às 00:00
Apresenta-se como subcomissário Moisés, coordena a Unidade Central de Negociação (UCN) da PSP e tem orgulho em dizer que este não foi o único caso que salvou de um final infeliz.
“Quando conseguimos comunicar é um alívio. Pouco a pouco vamos conseguindo que a pessoa fale”, explicou Luís Moisés ao Correio da Manhã. Mas a tarefa a que se propõe, ele e os restantes dez negociadores da PSP, não é fácil.
Violência doméstica, suicídios, motins e sequestros constam das principais ocorrências a que os negociadores são chamados. Desde o ano passado já contaram 20. O número pode parecer reduzido, mas as horas de empenho em cada situação apontam para o contrário. “Já estive 27 horas a negociar um suicídio”, confidencia.
Mas como é que a PSP sabe que existe alguém que corre o risco de pôr termo à própria vida? “Sempre que alguém opta por uma decisão extrema como o suicídio deixa um sinal. A decisão é sempre pensada”, explica o coordenador da UCN.
E da teoria passa à prática. “Uma vez uma senhora fez um desfalque numa empresa e foi descoberta. De tanta vergonha, a opção que encontrou foi suicidar-se. Mas deu sinal a uma amiga, que contactou a PSP”. De imediato os agentes acorreram à residência da mulher, que vivia sozinha. “A vítima não abriu a porta e só conseguimos começar a comunicar com ela ao fim de três horas”, contou ao nosso jornal.
Numa situação destas surgem sempre dificuldades. Era noite, a luz do prédio estava constantemente a acender e a apagar e a situação não passou despercebida aos restantes moradores. Os curiosos que assistem de perto à negociação podem tornar-se uma ajuda ou um empecilho.
Apesar deste caso se juntar à lista de sucessos dos negociadores, o subcomissário Moisés admite que em dez casos resolvidos, oito acabam por se suicidar mais tarde.
HISTÓRIA COMEÇA EM 1983
A história dos negociadores da PSP remonta a 1983, quando um agente, que integrava o Grupo de Operações Especiais da PSP, viaja até Londres para frequentar uma formação na Metropolitan Police Service. Entretanto, outros elementos desempenhavam o papel de negociadores, mas por seu próprio mérito. O facto dos negociadores não estarem integrados numa Unidade impedia-os de receber formação técnica e concentrar informação e também dificultava o intercâmbio com entidades semelhantes no estrangeiro.
Com o aumento dos sequestros, a PSP e a sua congénere espanhola chegaram a um acordo de cooperação que permitiu a uma equipa do Grupo de Operações Especiais viajar até Espanha para receber formação No ano passado foi criada a Unidade Central de Negociação para garantir a coordenação das equipas de negociadores a nível nacional.
FRACASSOU NEGOCIAÇÃO NA EMBAIXADA
A Unidade Central de Negociação já foi chamada a 20 ocorrências e em apenas quatro casos foi necessário recorrer a uma intervenção surpresa. Só uma vez esta estratégia foi utilizada logo de início. Opção que resultou em sete mortes. Aconteceu na Embaixada da Turquia, em 1983, quando duas viaturas suspeitas chegaram à Avenida das Descobertas, em Lisboa. Um dos condutores embateu nas grades da embaixada e, de imediato, foi morto a tiro pelo segurança. Os outros quatro homens fugiram e refugiaram-se numa residência oficial ao lado da embaixada. Depois fizeram reféns a mulher e o filho do encarregado de negócios. Um polícia entrou na casa para negociar, mas os homens – terroristas de um comando arménio – fizeram detonar por descuido as bombas que tinham colocado. Acabaram por morrer todos.
PERFIL DE UM NEGOCIADOR
Para integrar a Unidade Central de Negociação um polícia tem de ser oficial de patente intermédia. Depois é sujeito a testes à sua comunicação e capacidade de argumentação. Um negociador deve ter voz nítida e boa dicção, assim como conhecer a linguagem gestual e falar com as pessoas olhos nos olhos. Quem obedecer a estes critérios tem ainda de passar por testes à memória, cultura geral e, até, à sua própria auto-estima.
DOS PÁRAS PARA A POLÍCIA
Quando, há 21 anos, Luís Moisés informou a família de que ia abandonar os pára-quedistas, estacionados em Tancos, a família respirou de alívio. Por pouco tempo. Logo de seguida, o agora subcomissário anunciou que ia ingressar na PSP. Em 1984 foi colocado no Grupo de Operações Especiais. Nove anos depois coordenou em Angola a equipa de segurança do embaixador português. Passou ainda por Macau e Argélia. Hoje é coordenador da Unidade Central de Negociação.
MOMENTOS DE TENSÃO
BARRICADOS
Três jovens barricaram-se no interior de uma casa em Guimarães. Os suspeitos de furto e tráfico de droga receberam a PSP a tiro no dia 12 de Agosto. A polícia teve de ter em atenção que no interior da casa estavam crianças.
EMPOLEIRADO NA GRUA
Joaquim Moreira esteve 25 horas empoleirado numa grua, na cidade de Coimbra, em protesto por não ter recebido um mês de salário. O construtor civil superou chuva, fome e sede, até que negociadores da PSP o convenceram a descer.
NO TELHADO COM AS FILHAS
Jorge Dalas foi proibido de ver as filhas na sequência de actos de violência doméstica, na sua casa em Sintra. Jorge esteve dez horas em cima do telhado com as duas filhas, de 4 e 6 anos.
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