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Correio da Manhã

Portugal
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Quatro armas roubadas têm silenciador

Metralhadoras e pistolas permitem execuções a tiro altamente discretas.
7 de Janeiro de 2011 às 00:30
350 militares estão retidos no quartel, sob suspeita, mas ninguém cede aos interrogatórios da PJ Militar
350 militares estão retidos no quartel, sob suspeita, mas ninguém cede aos interrogatórios da PJ Militar FOTO: Tiago Petinga/Lusa

Quatro pessoas têm códigos digitais de acesso ao arsenal de guerra da 3ª Companhia do Batalhão de Comandos, na Carregueira, Sintra. O sargento de materiais e três praças, os quarteleiros. Dizem não ter sido eles a desviar as duas metralhadoras, seis espingardas de assalto e duas pistolas – de duas arrecadações e um sótão, apurou o CM – e garantem não ter dado os códigos a ninguém. Mas alguém sabia os números dos botões a marcar nas três portas e roubou as dez armas, quatro das quais com silenciador.

O crime foi cometido entre 23 de Dezembro – quando as quatro espingardas Sig Sauer foram usadas em tiro de treino pela última vez – e a segunda-feira passada. O quartel não tem videovigilância e os interrogatórios da Judiciária Militar aos 350 tropas de elite retidos não estão a resultar. Os casos mais preocupantes para o Exército são quatro das dez armas roubadas: duas metralhadoras HK MP5 e duas pistolas HK USP, que têm um supressor de som. São "altamente perigosas" se caírem na rua em mãos erradas, pela forma discreta como permitem executar alguém, disse ao CM fonte da PJ civil.

A PJ-M corre contra o tempo para tentar recuperar estas armas, mas nenhum dos 350 militares sob suspeita verga nos interrogatórios. Todos alegam inocência. E fontes policiais não acreditam que as armas tenham entrado no mercado negro: "Não há receptadores que se arrisquem a este nível." O mais provável "é a venda directa" a gangs de rua, para a prática de crimes violentos. Ou já estavam encomendadas antes do roubo ou "estão escondidas, à espera de melhor oportunidade para a venda".

Ninguém tem dúvidas de que o crime foi cometido "por alguém de dentro" – e não foi a primeira vez, conta ao CM uma fonte militar. "Já no final de 2008 desapareceu uma MP5 [metralhadora], mais uma vez na 3ª Companhia, e nunca foi encontrada." O quartel só tem câmaras na porta de armas, apontadas para os automóveis no exterior, e "há várias coisas que desaparecem: telemóveis e até computadores no gabinete do comandante". Agora foram dez armas de guerra.

"INTERROGADOS DIARIAMENTE"

Os 350 militares retidos no quartel já foram informados por superiores de que não poderão sair "pelo menos até ao fim-de-semana". E, entretanto, continuam a ser interrogados, individualmente, ao ritmo de uma vez por dia. "Levam-nos para uma sala onde estão duas a três pessoas, oficiais e sargentos, e perguntam-nos se sabemos alguma coisa, se vimos algo de estranho", conta ao CM um praça do Exército.

Depois, os interrogatórios aquecem e "querem saber coisas do género: se quiséssemos matar alguém onde íamos buscar armas? E se quiséssemos esconder uma arma, onde a esconderíamos?"

Desde dia 23 de Dezembro que a 3ª Companhia do Batalhão de Comandos ficou a meio gás, apenas com 50 por cento dos militares de serviço, até à última segunda-feira, no período de festas. E, durante esse tempo, as armas da companhia não tiveram qualquer uso oficial – as duas arrecadações e o sótão estavam fechados. Alguém lá entrou, com os códigos a que só um sargento e três praças tinham acesso, e levou as dez armas de guerra.

Das armas roubadas, as quatro espingardas Sig Sauer tinham sido usadas dia 23. E as quatro pistolas USP, com silenciador, tinham chegado ao quartel em fase de testes.

"INTERPRETADO COMO DETENÇÃO"

O constitucionalista Bacelar Gouveia mostrou grandes reservas em comentar o facto de os militares estarem retidos no quartel, contra a sua vontade, adiantando que este é um caso "complexo" e do qual pouco sabe. No entanto, diz ser importante esclarecer um aspecto: "Isto quase pode ser interpretado como uma detenção. Uma coisa é um comandante ordenar aos militares que fiquem para efeitos de exercício programado, outra é deter para efeitos de uma investigação."

"FOI PRATICADO CRIME GRAVE"

O ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, admitiu ontem que foi cometido um crime "muito grave" no quartel da Carregueira e que não deve haver hesitações no "apuramento das responsabilidades criminais". "Há indícios de que foi praticado um crime muito grave nessa unidade. Há um incidente muito grave", disse Santos Silva, à margem de um encontro sobre indústrias do mar. O responsável pela pasta da Defesa diz que a investigação tem todo o seu apoio. 

"ESTE É UM ACTO CONDENÁVEL"

António Lima Coelho, presidente da Associação Nacional de Sargentos, diz que este episódio "não pode passar uma imagem de insegurança e fragilidade de quem garante a soberania nacional". Lima Coelho avança que é bastante preocupante o que aconteceu, mas que as Forças Armadas não podem ser postas em causa. "Há muitos anos que não se verificava nada desta dimensão", apenas alguns "casos pontuais". Mas seja qual for a dimensão, "é algo condenável".

DIÁRIO DE UM SOLDADO

Muitos dos militares retidos alegam, além de inocência, falta de condições no quartel. O CM recolheu testemunho

"NÃO HÁ CAMAS NEM HIGIENE"

Estamos aqui fechados sem condições. Não há camas para todos, uns dormem em colchões, outros em sacos-cama. Já estou sem produtos de higiene pessoal, a roupa interior está toda suja. E muitos de nós somos de fora de Lisboa, não temos quem nos traga nada. Também há falta de comida para todos.

DISCURSO DIRECTO

"ISTO É UMA GRANDE NÓDOA DE LAMA": Loureiro dos Santos, General, ex-CEME (r)

Correio da Manhã – Acha que este foi um acto premeditado?

Loureiros dos Santos – Isto foi tudo estudado ao pormenor, numa altura em que o quartel tinha serviços mínimos devido ao período festivo. Por alguma razão, houve quem quisesse tirar as armas. É provável que alguém tenha sido aliciado a fazê-lo.

– Qual terá sido o destino destas armas?

– Eu espero que não estejam no mercado negro, no qual não faltam pessoas interessadas em comprá-las. Seria péssimo que estas armas fossem parar às mãos de terroristas, membros de gangs e pessoas violentas.

– Até que ponto isto pode abalar o Exército?

– Isto é uma grande nódoa de lama, quase uma vergonha. Mas o Exército não pode ficar abalado, apesar de ser transmitida uma imagem negativa. Os próprios Comandos estão indignados com isto tudo e também querem ver apurada a verdade.

– A imagem fica afectada?

– Claro que sim, mas os Comandos são uma unidade de elite e todos os portugueses têm de se orgulhar neles.

COMANDOS SINTRA POLÍCIA JUDICÁRIA MILITAR ARMAS
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