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Correio da Manhã

Portugal
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QUE FAZER DEPOIS DA LICENCIATURA?...

Excesso de licenciados, mercados laborais à beira da saturação completa e muitos profissionais mal distribuídos à luz das necessidades. Prestes a começar o ano lectivo nas universidades e politécnicos portugueses, ordens e sindicatos das diferentes profissões fazem as contas ao que o País precisa e à oferta que, todos os anos, chega ao mundo do trabalho nas áreas mais procuradas pelos estudantes. Em alguns casos, defendem os responsáveis, a qualidade e o tipo de ensino ministrado em determinadas áreas deve ser repensado ou orientado em novas e diferentes direcções. Para evitar o desemprego, o subemprego e as condições deficientes em que alguns já exercem a carreira que escolheram.
23 de Setembro de 2002 às 21:43
Professores

A mais de um lado, a menos do outro...

Tal como acontece noutras áreas, em relação ao número de professores licenciados todos os anos, o País apresenta assimetrias muito acentuadas. Embora haja algumas licenciaturas em excesso, verifica-se que, em outras áreas, o número de licenciados é escasso, remetendo Portugal para os últimos lugares da União Europeia. Isso acontece, essencialmente, nas áreas científicas, enquanto o excesso ocorre nas áreas de Humanidades e Letras. No entanto, não ’embarco’ no argumento de que há professores a mais.

Sobre a qualidade do ensino universitário dos professores, a Fenprof defende, há alguns anos, a necessidade de se reflectir profundamente sobre a formação inicial. uma vez que cada dia as exigências são maiores.

Paulo Sucena, Dirigente da Fenprof


Dentistas

Profissão vai duplicar dentro de oito anos

O número de licenciados que todos os anos saem das faculdades é suficiente e absolutamente excessivo. Existem em Portugal sete faculdades de Medicina Dentária, embora duas delas não tenham ainda fornecido os primeiros licenciados. As restantes cinco, três públicas e duas privadas, debatiam anualmente entre 350 e 400 licenciados em Mediciana Dentária por ano. Neste momento, a Ordem dos Médicos Dentistas tem cerca de 4200 associados. E esse número cresce cerca de 10 por cento todos os anos, ou seja, terá duplicado dentro de sete ou oito anos. O ensino da Medicina Dentária vive bastante do ensino teórico-prático e prático. O ideal é que exista um professor por cada 3/4 alunos para que exista um ensino de qualidade. E isso é algo que não pode ser posto em causa.

Monteiro da Silva, Bastonário


Médicos

Suficientes mas mal distribuídos

Em valor absoluto, o número de licenciados que existe actualmente é suficiente, ou seja, um médico para 342 portugueses. No entanto, em virtude de uma distribuição deficiente dos profissionais, verifica-se que há falta de médicos e que esse número torna-se insuficiente. Além de que é previsível uma falta de médicos dentro de 10 ou 15 anos.

O número de faculdades de Medicina também é suficiente, não são precisas mais faculdades. Acreditamos que com o aumento do 'numerus clausus' o problema pode ser resolvido.

Sobre a qualidade do ensino, o tipo de curso de Medicina ministrado nas universidades em Portugal é equivalente aos cursos do resto da Europa.

Germano de Sousa, Bastonário


Jornalistas

Licenciados em número excessivo

O número anual de diplomados é claramente excessivo para a actual dimensão do mercado de emprego no sector. Todos os anos deixam as universidades entre mil e 1500 diplomados, oriundos de três dezenas de cursos. Portugal é um país pequeno, com um mercado de trabalho reduzido e hábitos de leitura deficitários. Por isso, no momento actual, é impossível dar lugar a toda esta gente.

Em relação aos cursos, há aspectos que devem ser focados. Desde logo, existe apenas um curso cuja designação é Jornalismo. Todos os outros são Ciências da Comunicação ou Comunicação Social. Além disso, a formação é comum a áreas como as Relações Públicas e Marketing, criando nos licenciados alguma confusão acerca da natureza específica do trabalho.

Alfredo Maia, Pres. do Sindicato


Advogados

Encontrar diferentes saídas

Em relação ao número de licenciados em Direito, pode ser considerado excessivo no que diz respeito à profissão de Advogado, a principal escolha entre os licenciados. Se houver instituições, como a Polícia Judiciária, que integrem os licenciados em Direito, o número deixa de ser excessivo. A sensação que existe é que nem todos os cursos têm a mesma qualidade.

Coelho Ribeiro, Responsável da Ordem


Economistas

‘‘Podem surgir problemas’’

Não dispondo de dados objectivos sobre o número de licenciados que todos os anos saem das faculdades, algo que só o Ministério da Educação pode saber, e sem uma avaliação das necessidades existentes, posso apenas afirmar que tenho o sentimento que, com o crescimento registado nos últimos anos no número de cursos de Economia e Gestão, poderão vir a aparecer alguns problemas de colocação para os licenciados nessas áreas.

A qualidade dos cursos existentes, no caso das licenciaturas em Gestão, deverá ser conhecida dentro de um mês, em virtude de uma avaliação pedida pela Ordem.

Simões Lopes, Bastonário


Engenheiros

Informáticos e civis em falta

A Ordem dos Engenheiros tem hoje 36 mil membros (efectivos e estagiários) que representam uma importante força produtiva para o País. Verifica-se que o País carece de Engenheiros Informáticos. Atendendo aos programas de infra-estruturas, os Engenheiros Civis continuam a ser muito procurados. O País tem carências de bacharéis (Engenheiros Técnicos) visto que esta profissão é fundamental para melhorar a produtividade do País. Existem no País cerca de 300 cursos de Engenharia, sendo que apenas 88 estão acreditados pela Ordem dos Engenheiros. Nestes 88 estão incluídos cursos de universidades e politécnicos públicos e de uma universidade privada (Universidade Católica). E são estes cursos que nós, e o mercado, consideramos de melhor qualidade, visto terem sido submetidos a um processo de avaliação independente e reconhecido internacionalmente.

Francisco Sousa Soares, Bastonário


Enfermeiros

Qualidade de ensino é variável

O número de licenciados, que até há pouco tempo era reduzido, tem vindo a aumentar e dentro de alguns anos acreditamos que o número de enfermeiros será suficiente para as necessidades do País.

As escolas têm feito um grande esforço no sentido de admitirem mais alunos para os cursos.

Em relação à qualidade, a Ordem não tem informação sobre todos os cursos, e são bastantes os que existem.

Há vários cursos a funcionar em instituições privadas, alguns de boa qualidade, outros com menos qualidade. Como em tudo na vida.

No entanto, é sabido que a Ordem dos Enfermeiros defende uma maior intervenção a curto prazo no capítulo da qualidade do ensino.

Mariana Sousa, Bastonária


Veterinários

Mercado quase saturado

Actualmente existem cinco cursos a funcionar e prepara-se um sexto. No último ano saíram das faculdades 205 médicos veterinários. O mercado estará saturado ainda esta década e não podemos continuar a produzir técnicos sabendo que lhes vamos criar problemas no mercado de tabalho. E embora não haja desemprego, existe já subemprego.

Quanto à qualidade de ensino, as exigências da profissão não são as mesmas de há 40 ou 50 anos, embora se continue com a ideia do veterinário apenas como médico de animais.

Jaime Menezes, Bastonário
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