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Correio da Manhã

Portugal
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Que o meu caso sirva de exemplo

Dois anos passaram desde os primeiros incidentes ocorridos em plena sala de aulas, em que Carlos Cupeto, professor da Universidade de Évora (UE), foi injuriado e ameaçado por um aluno. Desde então, sucederam-se episódios semelhantes até que, no passado dia 16 de Outubro, culminaram, segundo acusa, numa agressão a soco e pontapé que lhe deixou marcas físicas e psicológicas.
20 de Novembro de 2006 às 00:00
“Tal como o stress pós-traumático, agora quando ando na rua, sinto sempre que estou a ser perseguido”, diz Carlos Cupeto ao CM. O professor de Geociências entende que este caso deve servir de exemplo para acções judiciais em muitos outros que possam neste momento estar a acontecer em diferentes estabelecimentos de Ensino Superior.
“Existem com certeza muitos casos de coacção a professores por todo o País, tal como no início de tudo isto que me aconteceu. O aluno queria uma nota que não merecia”, lembra. Conta que, em Junho de 2004, em plena avaliação oral de cerca de 20 estudantes, o alegado agressor começou a insultá-lo quando Carlos Cupeto declarou que o trabalho que estava a ser apresentado nada tinha a ver com o tema proposto e que era claramente plagiado.
“Desde então as ameaças e ofensas sucederam-se, com mais frequência nos períodos de avaliação, sempre a reclamar um dez na pauta”, diz o professor, que até agora já apresentou quatro queixas-crime contra o mesmo aluno.
O processo referente à primeira queixa já foi julgado, tendo o estudante sido condenado a pagar uma multa. Dois processos estão pendentes e o quarto, referente à agressão física de 16 de Outubro, está em fase de inquérito.
O reitor da UE, Jorge Araújo, em comunicado à academia, além de manifestar solidariedade ao professor, declarou que a instituição é impotente perante este caso.
“A lei não nos oferece aparentemente qualquer via de actuação: nem permite que a Universidade se constitua, ela própria, como queixosa; nem que actue disciplinarmente, visto não ter sido legislado ainda o Estatuto Disciplinar do Estudante para o Ensino Superior”, refere. Em relação à agressão mais recente, fonte universitária disse que foi aberto um inquérito interno no passado dia 13 e que o aluno acusado comunicou “nada ter a ver com a situação”.~
"APANHOU-ME PELAS COSTAS E SOVOU-ME
Carlos Cupeto contou ao CM que, no dia 16 de Outubro, cerca das 15h00, estacionou o carro no parque do Colégio Luís António Verney, um dos pólos da Universidade de Évora. Como só tinha uma aula para dar às 16h00, decidiu ir resolver assuntos pessoais no centro da cidade.
“Não andei mais do que 20 ou 30 metros até ser surpreendido pelas costas, junto ao marco do correio perto da entrada do Colégio”. O professor segurava um guarda-chuva e levava livros debaixo do braço. “Fui logo ao chão e levei socos e pontapés na cara”, conta. Depois da agressão, voltou ao interior do edifício, onde fica o seu gabinete, para se lavar. “Fui a pingar sangue da boca até à casa de banho, tendo depois sido assistido na urgência do hospital. No dia seguinte, apresentei a quarta queixa-crime”, disse.
"NÃO SEI SE VOLTO ÀS AULAS
Correio da Manhã – Um dos processos de ameaças e injúrias foi resolvido em Tribunal. Recebeu a indemnização?
Carlos Cupeto – Recebi à volta de 600 euros, a ser pagos em prestações ao advogado, mas isso não é o mais importante, aliás, nem quero saber do dinheiro.
– Já está de baixa há cerca de um mês. Sabe quando vai voltar a dar aulas?
– Voltei à Universidade depois do que aconteceu e não me senti muito confortável nem seguro. Não sei o que me pode acontecer. Ainda não pensei quando volto, nem se volto às aulas.
– Depois do incidente, qual foi a reacção dos seus colegas e dos seus alunos?
– Recebi dezenas de ‘e-mails’ e chamadas de solidariedade, tanto de colegas como dos meus alunos. Eles são o mais importante da função de professor. Se lá voltar é por eles.
PERFIL
Carlos Cupeto tem 46 anos e é professor há 20 no Departamento de Geociências da Universidade de Évora. Formou-se em Geologia em Lisboa, obtendo posteriormente um mestrado e um doutoramento em Hidrogeologia. É fundador da empresa de consultoria ambiental TTerra e director da revista ‘Indústria e Ambiente’.
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