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Correio da Manhã

Portugal

Queimadas vivas presas à cama (COM VÍDEO)

Amarradas à cama por estarem doentes, duas irmãs idosas morreram queimadas num aparatoso incêndio que terá deflagrado, ontem de manhã, numa garrafa de oxigénio, que estava no terceiro andar de um apartamento da rua Cabo Borges, em Santa Marinha, Gaia. Emelina e Lucília Cabral, 92 e 94 anos, que já viviam com os donos da casa há vários anos, não se conseguiram libertar e morreram de imediato.
21 de Setembro de 2012 às 01:00
Corpos das duas irmãs foram retirados pelos sapadores de Gaia e transportados para o Instituto de Medicina Legal do Porto
Corpos das duas irmãs foram retirados pelos sapadores de Gaia e transportados para o Instituto de Medicina Legal do Porto FOTO: Eduardo Martins

As vítimas sofriam de Alzheimer e, por isso, era necessário serem presas às camas durante a noite. "Todas as noites a minha mulher prendia-as à cama pois são duas pessoas muito doentes e podiam cair e morrer. São apenas regras de segurança as que cumprimos", disse ao CM Rui Ribeiro, dono da casa e que ainda tentou salvar as duas irmãs.

"Ouvi um estrondo e fui ao quarto delas e só já vi as chamas. Ainda as tentei salvar e abrir a janela, mas não consegui. Depois fui gritar para a varanda", acrescentou.

Lucília já vivia com o casal há mais de sete anos. No ano passado, a filha da vítima acabou por também levar a tia, Emelina, para a casa de Rui e Amélia. "Eles eram muito responsáveis. Como eram irmãs eu trouxe a minha tia para aqui. Eram muito bem tratadas. Não acredito nesta tragédia", referiu, entre lágrimas, Amália, filha de Lucília.

De acordo com Rui Ribeiro, Amélia - que inalou fumo e teve de passar o dia de ontem a soro no Hospital de Gaia -, era enfermeira e tinha o curso de Geriatria. "Não tínhamos licença, nem precisamos pois temos todas as condições. Elas aqui eram muito bem tratadas. Melhor do que na Segurança Social", frisou, desvalorizando o facto de os vizinhos os acusarem de sobreviverem às custas das idosas. "Estamos desempregados mas fazemos isto por gosto".

CORPO AMARRADO ATRASA SOCORRO DAS IDOSAS

Assim que entraram no quarto das vítimas, já tomado pelas chamas, os bombeiros aperceberam-se de que as idosas tinham o corpo preso à cama. De acordo com Rui Cardoso, vereador da Protecção Civil da Câmara de Gaia, foi isso que atrasou o salvamento. "Se não fosse isso o desfecho poderia ser outro", frisou.

O vereador explicou também que o fogo deflagrou no hall da entrada do apartamento, onde as garrafas de oxigénio começaram a libertar gás. Depois bastou "ligar um interruptor para dar início ao incêndio", referiu.

Os bombeiros ainda conseguiram resgatar as nonagenárias do quarto, mas já sem vida. Os corpos ficaram prostrados no hall do prédio e depois levados para o IML do Porto.

"COMEÇARAM A GRITAR POR SOCORRO"

"Ouvi-os a gritar socorro na varanda. Vim ver o que se passava e estava a sair fumo da casa", disse Dulce Lucena, vizinha das vítimas. De acordo com os moradores, o pânico instalou-se na rua em poucos minutos. "As pessoas começaram a gritar que queriam entrar. Mas os bombeiros chegaram muito rápido", observou.

Ontem, também acorreu ao local a irmã do dono da casa. "Que tragédia. Perdi o meu pai há oito dias e hoje morrem estas pobres senhoras que não se conseguiram defender. É injusto", disse a chorar Júlia Ribeiro.

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