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Correio da Manhã

Portugal
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Químicos perigosos ao ar livre

Bidões de acido clorídrico, sacos de soda cáustica, medicamentos, entradas de esgoto abertas e óleos industriais são apenas algumas situações perigosas existentes no número 298 do Campo Grande, em Lisboa, onde, há cinco anos, funcionava o laboratório farmacêutico Sicla, entretanto encerrado pelo Infarmed.
15 de Janeiro de 2007 às 00:00
Apesar de o portão da entrada principal estar vedado, qualquer pessoa consegue entrar no terreno através de um muro que sucumbiu à falta de conservação. As traseiras deste terreno, com mais de quatro mil metros quadrados, dão para o Bairro das Murtas, antigo ponto de encontro para traficantes de droga. Mesmo com os realojamentos, algumas pessoas de etnia cigana procuram instalar-se na zona, aproveitando madeiras e outros objectos, que retiram do terreno do antigo laboratório, para construir barracas.
“Está ali uma situação muito perigosa. Qualquer pessoa pode lá ir. Se não conhecer aquilo, bem que lá fica. Existem bidões de acido clorídrico e medicamentos velhos, a céu aberto, que podem pôr em risco a vida de uma criança que venha para aqui brincar”, denunciou Adelino Sousa, ex-funcionário dos Laboratórios Sicla, mostrando o estado miserável de conservação das antigas instalações da farmacêutica.
Resultado de uma ligação de quase dez anos à empresa e ao local, enquanto funcionário, Adelino Sousa conhece bem os recantos da casa e mostra-se indignado com o actual estado de conservação do local. “Na altura do laboratório isto não estava assim.
Não se via este mato todo e, claro, não tínhamos isto vandalizado como está agora. Não sei quem é que explora isto, mas é um desperdício de terreno”, refere.
Uma das situações presenciadas pelo CM diz respeito à intenção de algumas pessoas quererem habitar naquele local.
O Infarmed encerrou os Laboratórios Sicla em Abril de 2001, por terem encontrado estupefacientes (codeína, fosfato de codeína e morfina) e pelas condições degradantes de higiene dos armazéns (ratos, veneno para ratos, urina junto a matérias--primas e produtos acabados). António Henriques, administrador dos Laboratórios Sicla em 2001, garante desconhecer a actual situação.
“O laboratório foi fechado em Abril, pelo Infarmed, que selou as instalações”, contou ao CM, acrescentando: “Depois, mais tarde, em 2002, foi feita uma limpeza a tudo o que lá estava. Foi tudo limpo. Basicamente só lá ficaram as paredes.”
Confrontado com a existência de bidões de ácido clorídrico no local, acessíveis a qualquer pessoa, António Henriques assegura que já não são pertença do laboratório: “Ao que sei, o espaço foi ou está a ser utilizado como depósito de mármores ou de pedra. Esses bidões devem ter sido colocados lá depois da limpeza feita em 2002, porque, na altura, não ficou nada.”
PERIGOS VÁRIOS
BIDÕES DE ÁCIDO CLORÍDRICO
– Altamente corrosivo, provoca irritações na garganta e nariz quando o nível de exposição é baixo, podendo levar à morte, pelo estreitamento dos bronquíolos e acumulação de líquidos nos pulmões. Pode provocar queimaduras graves na pele e olhos.
SODA CÁUSTICA
– Quando ingerida provoca danos graves e permanentes no sistema gastrointestinal. Em altas doses pode ser mortal, quando inalada, e provocar cegueira em contacto com os olhos. Existem vários sacos no terreno.
MEDICAMENTOS
– Um caixote, com vários tipos de remédios está exposto a todo o tipo de condições meteorológicas. Terminado o prazo de validade, estes medicamentos representam um risco para a saúde pública caso sejam consumidos.
‘ARMADILHAS’
– Ao longo de toda a extensão do terreno existem vários obstáculos como tampas de esgoto abertas, alçapões destapados e paredes vandalizadas. Apesar do edifício estar abandonado, num dos alçapões, a presença de óleo demonstra utilização recente.
PROPRIETÁRIO DO TERRENO RESPONSÁVEL
Confrontado com esta situação, fonte do Infarmed, autoridade que regula o medicamento e a farmácia em Portugal, coloca a responsabilidade de armazenar ou remover os produtos químicos para o actual proprietário ou responsável pelo terreno.
“A responsabilidade cabe ao proprietário. Tem, no entanto, a prerrogativa de solicitar ao Infarmed a abertura das instalações, sempre que o considere necessário, para limpeza ou remoção de objectos”, referiu a mesma fonte, acrescentando que, “no momento do encerramento, as instalações ficam à guarda do seu proprietário constituído no processo como fiel depositário nos termos da lei”.
Questionado sobre que tipo de materiais são apreendidos pelo Infarmed durante o encerramento de um laboratório, a autoridade esclarece que “são recolhidos materiais ou objectos apenas em duas situações: quando constituem prova e quando se apresentam necessários para a realização de testes de comprovação laboratorial”.
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