O ministro do Ambiente e Ordenamento do Território, Nunes Correia, e a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, acompanhados por vários secretários de Estado, membros de organismos públicos e autarcas – estava composto o ramalhete para uma iniciativa que se queria com pompa e circunstância: a apresentação do projecto de reconversão da Cova da Moura, considerado um dos bairros mais críticos do País. Não fosse a composição rap de Celso Lopes, da Associação Cultural Moinho da Juventude, e tudo teria corrido na perfeição.
Depois dos discursos do ministro Nunes Correia e do presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, em que foram delineadas as expectativas dos governantes, Celso fez da inspiração música para lançar críticas. “Não tive tempo para decorar o som, mas vou cantar como puder”, avisou logo. A primeira fila do Cine-Teatro D. João V, onde foi apresentado o projecto da Iniciativa Bairros Críticos, batia o pé aos primeiros acordes, mas o refrão da música fez mudar feições.
“Reconversão da Cova da Moura/ Em vez da sua total destruição/ Inúmeras entidades como a Câmara da Amadora/ Não querem falar sobre a requalificação”, repetia com ritmo o jovem. À saída, a explicação foi simples: “A Câmara só se interessa com o que pode lucrar com a destruição do bairro, que é um sítio muito bem localizado”, afirmou.
Celso Lopes está preocupado com a “tendência de destruição destas zonas para construção de condomínios de luxo”. “O projecto não passa de uma fachada”, diz.
Visivelmente incomodado, o presidente da Câmara justificou as críticas da associação dizendo tratar-se da “opinião de uma entidade que não está totalmente disponível para encarar o processo a sério”. E acrescentou que “a entidade apenas pretendia lavar a cara ao bairro”. “Podem fazer os raps que quiserem, mas a Câmara não abdica da competência que tem nem por nenhum rap”, disse Joaquim Raposo.
O SONHO DE NUNES CORREIA
Com a Iniciativa Bairros Críticos, o Governo compromete-se a transformar três bairros degradados – Cova da Moura, Vale da Amoreira (Margem Sul do Tejo) e Lagarteiro (Porto) em áreas ‘exemplares’. O plano de reconversão da Cova da Moura, executado entre 2007 e 2011, prevê intervenções profundas na construção e recuperação de habitações e infra-estruturas, criação de um tecido urbano constituído por pequenas microempresas locais e dinamização da cultura étnica do bairro.
Tal como Martin Luther King idealizava um futuro risonho para os negros dos Estados Unidos, também Nunes Correia tem um sonho para a Cova da Moura. Questionado sobre o que gostava de ver edificado no bairro após a conclusão do programa, o ministro foi quase poético: “Gostava de ver um bairro onde as pessoas de Lisboa pudessem passear, vir a restaurantes especializados em comida cabo-verdiana comer uma cachupa, onde pudessem assistir a exposições de artistas locais, onde pudesse haver espectáculos, enfim, um abairro aberto ao exterior.”
Para concretizar a ideia, deu o exemplo norte-americano: “A primeira vez que fui a Nova Iorque, entrar no Harlem era um perigo. Hoje, qualquer pessoa sabe que encontra no Harlem salas de espectáculos e uma população com relativa prosperidade.” Em poucas palavras, Nunes Correia quer transformar a Cova da Moura num “bairro aberto à população, criativo e orgulhoso da sua identidade”.
NÚMEROS CRIAM DIVERGÊNCIAS
A apresentação do programa de intervenção na Cova da Moura foi recheado de episódios contraditórios. Números e datas causaram contradições sucessivas. O presidente da Câmara da Amadora considerou o prazo de conclusão do programa “muito ambicioso”. “Estou certo de que não teremos tudo feito até 2011”, afirmou Joaquim Raposo, ao mesmo tempo que se congratulou com as acções que podem vir a ser feitas até àquele período. Interrogado sobre eventuais atrasos, Nunes Correia apenas disse que “o importante é a dinâmica deste tipo de projectos”. Sobre os custos da reconversão, ministro e autarca também desafinaram nas palavras. “É cedo para falar em custos”, disse Nunes Correia. “É claro que há um orçamento”, afirmou Joaquim Raposo, acrescentando: “Foi-nos dado um orçamento de 101 milhões euros, mas precisamos de 110 milhões.”
HABITAÇÃO
Será feito o levantamento de construções e população. Na calha está ainda a construção de equipamentos e nova habitação.
PEQUENAS MELHORIAS
Será melhorada a circulação, com a colocação sinalização e pavimentação. Alguns equipamentos serão melhorados.
SEGURANÇA
Construir a marca ‘Nova Cova da Moura’ é acção central, combatendo a criminalidade e o tráfico.
AMBIENTE E SAÚDE
O plano passa por alertar para o risco da sida e da gravidez na adolescência. No ambiente, o Governo quer criar uma hora pedagógica comunitária.
ECONOMIA E CULTURA
Usando o potencial do microcrédito, o Governo quer criar uma dinâmica de comércio local. Aproveitando a multiculturalidade, quer fazer da Cova da Moura espaço de difusão da arte étnica.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.