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Rap faz estalar o verniz

O ministro do Ambiente e Ordenamento do Território, Nunes Correia, e a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, acompanhados por vários secretários de Estado, membros de organismos públicos e autarcas – estava composto o ramalhete para uma iniciativa que se queria com pompa e circunstância: a apresentação do projecto de reconversão da Cova da Moura, considerado um dos bairros mais críticos do País. Não fosse a composição rap de Celso Lopes, da Associação Cultural Moinho da Juventude, e tudo teria corrido na perfeição.

07 de novembro de 2006 às 00:00

Depois dos discursos do ministro Nunes Correia e do presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, em que foram delineadas as expectativas dos governantes, Celso fez da inspiração música para lançar críticas. “Não tive tempo para decorar o som, mas vou cantar como puder”, avisou logo. A primeira fila do Cine-Teatro D. João V, onde foi apresentado o projecto da Iniciativa Bairros Críticos, batia o pé aos primeiros acordes, mas o refrão da música fez mudar feições.

“Reconversão da Cova da Moura/ Em vez da sua total destruição/ Inúmeras entidades como a Câmara da Amadora/ Não querem falar sobre a requalificação”, repetia com ritmo o jovem. À saída, a explicação foi simples: “A Câmara só se interessa com o que pode lucrar com a destruição do bairro, que é um sítio muito bem localizado”, afirmou.

Celso Lopes está preocupado com a “tendência de destruição destas zonas para construção de condomínios de luxo”. “O projecto não passa de uma fachada”, diz.

Visivelmente incomodado, o presidente da Câmara justificou as críticas da associação dizendo tratar-se da “opinião de uma entidade que não está totalmente disponível para encarar o processo a sério”. E acrescentou que “a entidade apenas pretendia lavar a cara ao bairro”. “Podem fazer os raps que quiserem, mas a Câmara não abdica da competência que tem nem por nenhum rap”, disse Joaquim Raposo.

O SONHO DE NUNES CORREIA

Com a Iniciativa Bairros Críticos, o Governo compromete-se a transformar três bairros degradados – Cova da Moura, Vale da Amoreira (Margem Sul do Tejo) e Lagarteiro (Porto) em áreas ‘exemplares’. O plano de reconversão da Cova da Moura, executado entre 2007 e 2011, prevê intervenções profundas na construção e recuperação de habitações e infra-estruturas, criação de um tecido urbano constituído por pequenas microempresas locais e dinamização da cultura étnica do bairro.

Tal como Martin Luther King idealizava um futuro risonho para os negros dos Estados Unidos, também Nunes Correia tem um sonho para a Cova da Moura. Questionado sobre o que gostava de ver edificado no bairro após a conclusão do programa, o ministro foi quase poético: “Gostava de ver um bairro onde as pessoas de Lisboa pudessem passear, vir a restaurantes especializados em comida cabo-verdiana comer uma cachupa, onde pudessem assistir a exposições de artistas locais, onde pudesse haver espectáculos, enfim, um abairro aberto ao exterior.”

Para concretizar a ideia, deu o exemplo norte-americano: “A primeira vez que fui a Nova Iorque, entrar no Harlem era um perigo. Hoje, qualquer pessoa sabe que encontra no Harlem salas de espectáculos e uma população com relativa prosperidade.” Em poucas palavras, Nunes Correia quer transformar a Cova da Moura num “bairro aberto à população, criativo e orgulhoso da sua identidade”.

NÚMEROS CRIAM DIVERGÊNCIAS

A apresentação do programa de intervenção na Cova da Moura foi recheado de episódios contraditórios. Números e datas causaram contradições sucessivas. O presidente da Câmara da Amadora considerou o prazo de conclusão do programa “muito ambicioso”. “Estou certo de que não teremos tudo feito até 2011”, afirmou Joaquim Raposo, ao mesmo tempo que se congratulou com as acções que podem vir a ser feitas até àquele período. Interrogado sobre eventuais atrasos, Nunes Correia apenas disse que “o importante é a dinâmica deste tipo de projectos”. Sobre os custos da reconversão, ministro e autarca também desafinaram nas palavras. “É cedo para falar em custos”, disse Nunes Correia. “É claro que há um orçamento”, afirmou Joaquim Raposo, acrescentando: “Foi-nos dado um orçamento de 101 milhões euros, mas precisamos de 110 milhões.”

HABITAÇÃO

Será feito o levantamento de construções e população. Na calha está ainda a construção de equipamentos e nova habitação.

PEQUENAS MELHORIAS

Será melhorada a circulação, com a colocação sinalização e pavimentação. Alguns equipamentos serão melhorados.

SEGURANÇA

Construir a marca ‘Nova Cova da Moura’ é acção central, combatendo a criminalidade e o tráfico.

AMBIENTE E SAÚDE

O plano passa por alertar para o risco da sida e da gravidez na adolescência. No ambiente, o Governo quer criar uma hora pedagógica comunitária.

ECONOMIA E CULTURA

Usando o potencial do microcrédito, o Governo quer criar uma dinâmica de comércio local. Aproveitando a multiculturalidade, quer fazer da Cova da Moura espaço de difusão da arte étnica.

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