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Correio da Manhã

Portugal
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Rede da Portela acusada

Puxou da agenda e pôs os contactos a mexer. Fornecedores e investidores no Brasil, já em Lisboa os compradores. Pelo meio as cobaias no transporte e, cá e lá, faltava quem fechasse os olhos à droga. E se em S. Paulo é garantido, Vidal Abubacar até tinha Raul Martins na Portela, o amigo de infância que “durante décadas teve o controlo alfandegário de bagagens e bens dos passageiros” no aeroporto, segundo o Ministério Público. A Judiciária apanhou-os com 33 quilos de cocaína – e, um ano depois, vão 12 traficantes a tribunal.
9 de Novembro de 2007 às 00:00
A rede de tráfico chefiada por Vidal Abubacar contava com gente nos aeroportos de S. Paulo e Lisboa
A rede de tráfico chefiada por Vidal Abubacar contava com gente nos aeroportos de S. Paulo e Lisboa FOTO: Ramiro de Jesus
Raul Martins estava já reformado dos serviços alfandegários, mas continuava a gozar de estatuto e acesso a áreas restritas do aeroporto, conforme o CM avançou em Julho. E por isso Vidal, funcionário público, lhe propôs, no Verão de 2006, assegurar a passagem de correios e bagagens com droga.
Combinou com Vidal marcarem os dias de transporte “tendo em conta a escala de serviço dos seus ex-colegas mais próximos – aos quais bastaria vê-lo a receber e a acompanhar passageiros para não os sujeitarem a qualquer controlo alfandegário”, segundo a acusação do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, a que o CM teve acesso.
Ou seja, apesar de não ter reunido provas suficientes para conseguir acusar funcionários ainda no activo, o Ministério Público está convicto de que há mais corruptos na alfândega da Portela.
Vidal Abubacar nada tinha além dos contactos e montou a rede sem um tostão. No Brasil, Johnson e Emanuel vendiam, Luís Jacinto investia. E Vidal, o cérebro do crime, que retiraria a sua parte pelos serviços prestados, já contava com 2500 euros para ‘ajudantes’ no aeroporto brasileiro. “Eram garantia de passagem em São Paulo sem a intervenção das autoridades”. Os correios de droga não seriam incomodados com malas e as que fossem despachadas no porão levariam etiqueta com nome de outros passageiros – em caso de problemas só os inocentes eram presos.
“Mas para que os planos pudessem ser executados, era fundamental assegurar a passagem no aeroporto de Lisboa, sem controlo alfandegário”, de correios e respectivas malas carregadas de droga – “mediante um pagamento de quatro mil euros a um funcionário aduaneiro que ali exercesse funções”. Ninguém melhor do que Raul Martins, 58 anos, amigo de Vidal, 55, desde os tempos da infância em Moçambique.
Em Outubro do ano passado, Vidal, o investidor Luís Jacinto e José Corte Real, transportador, viajaram para S. Paulo. Emanuel trocou 34 mil euros por 33 quilos de cocaína e a 4 de Novembro já as malas com etiquetas de inocentes rolavam nos tapetes da Portela. Passaram pela alfândega com a ajuda de Raul Martins – em zona proibida – mas a PJ já estava à porta do aeroporto. Foram presos, além dos compradores – apanhados em escutas telefónicas numa investigação com meses. No total, vão 12 a julgamento por tráfico.
TROCAVAM SMS CODIFICADAS
Quando partiu para o Brasil em Outubro de 2006, Vidal Abubacar não contava com a falta de liquidez de Luís Jacinto, principal investidor, em comprar um mínimo de 20 quilos. E com o regresso adiado a Lisboa, o cabecilha da rede enviou uma mensagem codificada a Raul Martins, que geria os turnos mais oportunos na alfândega: “Houve problemas de comunicação com os bombeiros”. Enquanto isso, Vidal e o seu braço-direito, José Corte Real, convenceram então outros compradores a investir directamente num total de 33 quilos – foi preparada uma mala com 16 quilos e outra com 17. A PJ já tinha vários telefones sob escuta e acompanhou toda a operação de perto – quem chegou do Brasil, quem os esperava e os que contavam vir a comprar parte da cocaína.
ABANDONADA EM SÃO PAULO
Antes de controlar as alfândegas dos aeroportos de São Paulo e Lisboa, nos primeiros seis meses do ano passado, Vidal Abubacar teve uma experiência falhada. Garantiu 24 500 euros do investidor habitual, Luís Jacinto, e enviou ao Brasil José Corte Real e a namorada Liliana para o transporte. Na manhã de 31 de Maio o fornecedor Johnson entregou-lhes dois quilos de cocaína – mas, apesar ter sido combinado repartirem a cocaína pelo corpo dos dois, Corte Real convenceu a namorada a arcar sozinha com a droga toda. E assim tentaram embarcar para Lisboa a 2 de Junho do ano passado, equipando a rapariga com uma cinta especial. Mas quando se encontrava no embarque, Liliana foi revistada e presa pela polícia brasileira. Corte Real deixou a namorada para trás e voltou ao negócio em Lisboa. Vidal passou a pagar para não ser incomodado nos aeroportos e justificou-se com Luís Jacinto, que lamentou mas quis voltar a investir. E Liliana foi condenada a quatro anos em São Paulo, numa das piores cadeias do Mundo.
PORMENORES
O DESMENTIDO AO CM
Quando o CM avançou a detenção de Raul Martins, já em Julho deste ano, foi desmentida em comunicado da Direcção-Geral das Alfândegas e da PJ: “Em momento algum ocorreu a detenção de um chefe da alfândega”. Agora, o Departamento Central de Investigação e Acção Penal confirma: Raul Martins “durante décadas teve o controlo alfandegário de bagagens e bens de passageiros”. Mais: já estava reformado mas a receber droga em zona proibida. Pior: o Ministério Público desconfia de outros corruptos na alfândega do Aeroporto da Portela.
OUTROS CORRUPTOS
Nas dez vezes em que foi interrogado na PJ, Raul Martins denunciou outras pessoas que, segundo ele, também teriam facilitado a entrada de droga em Portugal. Mas “avançou e recuou”, segundo o Ministério Público, “dando conta de medos e angústias”– o que obrigou ao arquivamento dos autos.
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