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Correio da Manhã

Portugal
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Rei do sexo na cadeia

Os mais importantes foram os últimos a chegar, ontem, ao Tribunal de Leiria para serem interrogados pelo juiz de Instrução Criminal. Primeiro, entraram as 16 mulheres detidas por permanência ilegal no País. Depois, foram chegando, a conta-gotas, os oito suspeitos de integrarem “uma poderosa rede de tráfico de mulheres e auxílio à imigração ilegal”, desmantelada na madrugada de domingo, pela Polícia Judiciária.
10 de Janeiro de 2006 às 00:00
Devido à complexidade do processo, os empresários ligados a clubes de ‘striptease’ – entre eles o dono da rede de clubes nocturnos Passerelle, Vítor Trindade, e o seu sócio, Alfredo Morais, ex-subchefe da PSP, – foram apenas identificados, recolheram à cadeia e só hoje começam a ser ouvidos.
Durante a manhã, e uma parte da tarde, os três juízos criminais do Tribunal de Leiria estiveram envolvidos na audição das 16 mulheres detidas sem documentos. A maioria recebeu ordem de expulsão do País.
Em simultâneo, esteve a ser interrogada durante todo o dia a única mulher pertencente ao núcleo duro da rede, que é apontada como o braço-direito de Vítor Trindade, o denominado ‘rei do sexo’.
Segundo informações da PJ, este grupo actuava “de forma organizada e concertada”, para angariar mulheres na América do Sul e países do Leste Europeu, com vista a colocá-las em Portugal na indústria do sexo. O recrutamento era feito com o auxílio de angariadores, que recebiam comissão. Quando chegavam a Portugal, eram colocadas nos clubes controlados pela rede, ou desviadas para outras casas, a quem eram cobradas percentagens.
A PJ acredita que o grupo introduziu “um elevado número de mulheres” no nosso país, porque o mercado do sexo exige rotação de mulheres.
Fonte ligada ao processo, prevê mais detenções. Nas cerca de 30 buscas em domicílios, estabelecimentos, escritórios e agências de viagens, em Lisboa, Porto, Leiria e Santiago do Cacém, foi apreendida “importante documentação”.
TRABALHO EXTRA NA PJ
As declarações prestadas por algumas imigrantes ilegais, há cerca de seis meses, estiveram na origem deste processo cuja investigação foi dirigida no maior dos secretismos pelo Ministério Público de Leiria. O caso era do conhecimento de um núcleo restrito de funcionários e investigadores, tendo obrigado a que se fizesse muito trabalho fora de horas.
Na madrugada de domingo, sob orientação da Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) da PJ, foram efectuadas acções de fiscalização em Leiria, Coimbra, Lisboa, Porto, Faro, Santiago do Cacém e Açores, que culminaram com a detenção de 26 imigrantes ilegais e dos oito suspeitos de pertencerem à rede de angariação de mulheres para alimentar a indústria do sexo. De acordo com fonte judicial, houve dois objectivos distintos na operação: “Fazer uma acção preventiva no mercado da prostituição a nível nacional e desmantelar um grupo que se dedicava ao tráfico de mulheres”.
ARMAS E CARROS TOPO DE GAMA
A ‘operação Yankee’ levou à identificação de meia centena de mulheres em situação ilegal, 26 das quais foram detidas – 23 no Continente e três nos Açores. As estrangeiras foram ouvidas ontem para memória futura e pelo menos 20 receberam ordem de expulsão. As restantes, foram notificadas para abandonar o território nacional de forma voluntária.
No âmbito das várias acções de fiscalização, que contaram com a colaboração do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), as autoridades apreenderam 12 viaturas topo de gama, um colete à prova de bala e quatro armas de fogo (três revólveres e uma ‘shotgun’). O empresário de uma das casas de ‘striptease’ fiscalizada, na zona de Leiria, lamentou que as autoridades façam estas operações, mas descurem o controlo de entrada de estrangeiros em Portugal.
PORMENORES
CRIMES
Os oito elementos do grupo desmantelado pela PJ estão indiciados por vários crimes. Tráfico de pessoas, auxílio à imigração ilegal, lenocínio, evasão fiscal e branqueamento de capitais. Podem ainda vir a responder por falsificação de documentos.
PRISÕES
Os sete homens detidos, suspeitos de serem os cabecilhas da rede agora desmantelada de tráfico de mulheres, foram ontem à noite dispersos por várias cadeias – a fim de não falarem uns com os outros antes de, hoje, serem interrogados em Tribunal. Vítor Trindade, o patrão dos clubes Passerelle, ficou na Prisão Escola de Leiria.
LEGALIZAÇÃO
O proprietário da boïte Galáxia 2000, Manuel Santos, defende a legalização da prostituição, como forma de evitar que este mercado cresça à margem da Lei.
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