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Correio da Manhã

Portugal
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Remédios suspeitos de mortes

A nova geração de medicamentos antipsicóticos para adultos que sofrem de esquizofrenia e doença bipolar está de novo sob suspeita nos Estados Unidos. Um estudo da autoridade norte-americana do medicamento FDA (Food and Drug Administration) realizado entre 2000 e 2004 revela que, em pelo menos 45 mortes de crianças, estes antipsicóticos aparecem como os “principais suspeitos”. Há também relatos de 1328 casos com consequências negativas para a saúde.
4 de Maio de 2006 às 00:00
Os medicamentos em causa são o Clozaril, Risperdal, Zyprexa, Seroquel, Abilify e Geodon, segundo revelou o jornal ‘Usa Today’. Em Portugal, estão à venda o Risperdal, Zyprexa e Seroquel. Está também autorizada a venda do Abilify.
Nos Estados Unidos, a venda destes medicamentos não está autorizada a crianças, contudo os médicos prescrevem-nos, sobretudo no tratamento da doença bipolar. No estudo na posse do FDA, um dos principais efeitos secundários detectado em menores é a diabetes. Esta doença esteve na origem de seis das mortes. Outras causas de morte tiveram origem em problemas de coração e pulmões.
Embora estes medicamentos só possam ser administrados a adultos, a prescrição a crianças cresce de uma forma dramática”, disse Robert Epstein, dirigente médico da norte-americana Medco Health Solutions. O especialista observou que a prescrição a menores cresceu 80 por cento, entre 2001 e 2005. “Sabemos que são medicamentos muito fortes”, sublinhou Robert Epstein, pelo que referiu: “Precisamos de estar seguros de que as crianças precisam disto.”
Em Portugal, o Risperdal (cuja substância activa é a risperidona) é vendido para o tratamento de mernores. O folheto informativo da embalagem de solução oral revela que “está indicado para o tratamento de crianças e adolescentes com autismo”. O seu preço é de 22 euros.
A bipolaridade é uma doença psiquiátrica caracterizada por acentuadas variações de humor, cujos sintomas podem colocar em risco a própria vida do paciente. O CM tentou, sem êxito, junto da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, saber se os seus associados têm informação dos perigos associados a estes antipsicóticos.
A exemplo da FDA, nos Estados Unidos, também a autoridade do medicamento em Portugal, o Infarmed, confirma que não está prevista a retirada destes antipsicóticos do mercado.
A polémica em torno do consumo por menores surge três anos depois de ser divulgado um estudo em que foram relatadas 23 mortes entre adultos pelo consumo do Zyprexa.
SÉRIOS RISCOS PARA IDOSOS
O Infarmed alerta para os ensaios clínicos que demonstraram um aumento do risco de acidentes cerebrovasculares em doentes idosos com demência medicados com risperidona (substância activa do Risperdal) e também de mortalidade em doentes idosos medicados com olanzapina (substância activa do Zyprexa).
Sobre esta última substância, o Infarmed adverte que não está aprovada para ser utilizada em doentes com demência. No caso da risperidona, o Infarmed recomenda aos médicos para que esta seja administrada com precaução em doentes com antecedentes de acidentes cerebrovasculares ou que apresentem um risco aumentado da ocorrência (diabetes, hipertensão ou fumadores).
SILÊNCIO SOBRE MEDICAMENTOS POLÉMICAS
ZYPREXA
O médico Calvin Summer do fabricante Eli Lilly Research Laboratories apenas sublinhou ao jornal ‘Usa Today’ que “o medicamento não está aprovado para uso das crianças”.
RISPERDAL
Ramy Mahmoud da Janssen, fabricante do Risperdal, disse que não está provado que o medicamento provoque diabetes. Em Portugal, não foi possível obter uma resposta da empresa.
MÉDICOS
A polémica de os antipsicóticos poderem causar a morte de crianças levou a que, contactados pelo CM, vários psiquiatras e pediatras preferissem não comentar o assunto.
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