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Correio da Manhã

Portugal
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Responsáveis vão pagar

"Valerá a pena produzir para grupos de vândalos destruírem?”, José Menezes interrogava-se, desanimado, três dias depois de ter visto arrasado por activistas ecológicos um hectare da sua plantação de milho transgénico no Morgado da Lameira, concelho de Silves.
21 de Agosto de 2007 às 00:00
Jaime Silva foi dar apoio ao agricultor lesado numa plantação transgénica legal no Algarve
Jaime Silva foi dar apoio ao agricultor lesado numa plantação transgénica legal no Algarve FOTO: Paulo Marcelino
O ministro da Agricultura, Jaime Silva, visitou ontem a propriedade para oferecer apoio jurídico ao agricultor e deixar uma certeza: “Os responsáveis vão pagar, não tenha dúvidas.”
Com uma maçaroca transgénica nas mãos, o ministro garantiu que o País tem uma das legislações comunitárias mais rigorosas para o cultivo de milho geneticamente modificado. “Se não causa problemas para a saúde pública, se tem mais rendimento e é um milho amigo do ambiente – por não precisar de pesticidas – por que razão não o havemos de cultivar?”
Jaime Silva desmentiu a sugestão do líder do PSD de que o Governo poderia ter “acarinhado” o encontro Ecotopia, em Aljezur, de onde terão saído os activistas que destruíram o milho transgénico. “Temos de ter paciência com o dr. Marques Mendes”, disse o ministro, garantindo que “não houve qualquer financiamento pelo Instituto da Juventude a essa organização”, mas apenas “publicidade num site sobre a realização de um acampamento”.
Considerando que o ataque da passada sexta-feira é uma “acção de vandalismo”, o ministro desafiou o Bloco de Esquerda “a dizer se respeita as leis do Estado de Direito ou se anda a fingir que é amigo da democracia e depois, por trás, anda a incentivar estes jovens”. E concluiu: “Em Portugal, não podemos permitir que se faça política com base na ignorância, com base no irracional e no medo.”
O Posto da GNR de Armação de Pêra fez chegar um auto de notícia ao Ministério Público de Silves, pelas 14h30 de ontem, antes de José Menezes apresentar queixa formal, cerca das 17h00. Esta queixa é hoje entregue ao Ministério Público.
A GNR de Silves tem identificados três portugueses como estando ligados à organização Verde Eufémia, os condutores dos dois autocarros que levaram os manifestantes até à plantação, o homem que contratou e pagou esse transporte (mas não estava presente) e anotaram ainda as matrículas de automóveis portugueses, que também transportaram activistas. A queixa apresentada por José Menezes é contra os indivíduos identificados pelos militares e pelo agricultor e, segundo prometeu o ministro, vai contar com o apoio de juristas do Ministério da Agricultura.
Em Poço Barreto, perto do Morgado da Lameira, José Menezes encontra apoio dos amigos e talvez retome a esperança na terra que já era do seu trisavô. Talvez deixe de pensar em mudar de país, como chegou ontem a afirmar ao CM. “Antes do 25 de Abril já vendia milho a 53 escudos o quilo. Toda a vida fui uma pessoa pacífica e o único modo de subsistência que tenho é o milho.”
CAVACO SILVA QUER LEI CUMPRIDA
O Presidente da República apelou ontem às autoridades competentes para que investiguem a invasão da exploração de milho transgénico em Silves. “Não pode restar quaisquer dúvidas de que a lei em Portugal é para ser cumprida e quem tem o poder para a fazer cumprir não pode deixar de utilizá-lo”, disse Cavaco Silva em Albufeira, onde se deslocou para participar numa cerimónia de homenagem a 200 autarcas algarvios. Por seu lado, Marques Mendes desafiou ontem o primeiro-ministro e o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, a deslocarem-se ao Parlamento para explicarem e assumirem responsabilidades no mesmo caso. “Ficava bem ao primeiro-ministro dar a cara”, disse o líder social-democrata em declarações à margem de uma acção de campanha para as eleições directas do PSD.
PREJUÍZO É DE 4.140 EUROS
A avaliação dos estragos foi ontem entregue a José Menezes por um técnico da Direcção Regional de Agricultura do Algarve. Segundo o documento, a que o CM teve acesso, a área vandalizada é de 10 062 m2 e o prejuízo de 4140 euros, calculado com base numa produção de 18 toneladas e num valor de mercado de 23 cêntimos ao quilo. José Menezes não tem seguro. Jaime Silva garante que são os responsáveis pelo acto de vandalismo a indemnizar o agricultor.
O Morgado da Lameira tem 73 hectares, dos quais 50,7 estão plantados com milho transgénico e 19,36 com milho convencional. É a chamada área de refúgio, para evitar o surgimento de pragas resistentes, e, neste caso, tem o dobro da percentagem (10%) exigida por lei. O milho foi plantado em finais de Abril e inspeccionado pela DRAAG nos dias 16 de Maio e 29 de Junho. Está prevista uma nova inspecção por altura da colheita, em Setembro. Estas plantações são sujeitas a um controlo rigoroso pelas entidades competentes.
SAIBA MAIS
- 4500 hectares é o total de terra cultivada em Portugal com milho transgénico. Aumentou três mil hectares num ano. A maioria das plantações está no Alentejo e Ribatejo. Existem 51 variedades de sementes transgénicas autorizadas.
- 65 euros por hectare é o custo de um tratamento com pesticidas. É o que o agricultor de transgénicos poupa no seu investimento.
PRAGAS
O milho está sujeito a duas pragas, Pirale e Sesamia, duas lagartas conhecidas como brocas do milho. O milho transgénico sintetiza uma proteína que as mata.
PESTICIDAS
O milho convencional precisa de tratamento com o bacillus turingiensis, o transgénico não. Nos 73 hectares do Morgado da Lameira poupa-se 420 litros de pesticida por colheita.
AVISO
A lei obriga o agricultor de transgénicos a informar os vizinhos. Também obriga a ter formação.
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