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Correio da Manhã

Portugal
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Revolta pela morte de jovem acólito

Muitos dos residentes da cidade de Santiago do Cacém, no Litoral alentejano, nunca mais irão esquecer a madrugada de domingo. Nessa noite, um jovem acólito – Luís Silva, de 23 anos – bastante estimado pela população foi apunhalado até à morte quando tentava escapar a uma rixa entre populares e grupos de etnia cigana e raça negra no recinto onde decorria a Feira do Monte.
6 de Setembro de 2005 às 00:00
Luís pulou o gradeamento para fugir da rixa mas um grupo acabou por o apanhar (no local que a foto mostra) e dar-lhe a facada fatal
Luís pulou o gradeamento para fugir da rixa mas um grupo acabou por o apanhar (no local que a foto mostra) e dar-lhe a facada fatal FOTO: Alexandre M. Silva
Um outro rapaz, que tentava na altura socorrer o falecido, levou também uma facada num ombro. Minutos depois, um grupo de dois rapazes e três raparigas foram vítimas de um acidente de carro quando se deslocavam para o hospital local para saber do falecido.
O despiste provocou a morte de uma jovem de 18 anos, ferimentos graves a uma outra e ao condutor, que fracturou as pernas.
Mas, segundo o CM apurou, os confrontos ocorridos na feira provocaram ainda ferimentos a muitas pessoas que tentavam fugir por um dos portões do recinto.
“Até se atropelavam para sair do recinto e para fugir às agressões. Vi pessoas a cair e outras a torcerem os pés. Foi uma coisa nunca vista por aqui e que está a gerar revolta entre a população, porque as vítimas não tinham nada a ver com a rixa e algumas acabaram por morrer”, frisou ao nosso jornal uma testemunha que solicitou o anonimato.
Tudo começou ao início da madrugada de domingo quando vários grupos rivais iniciaram uma discussão no recinto da feira. Os ânimos, que na altura estavam bem quentes, foram no entanto serenados pela GNR. Mais tarde, segundo a mesma fonte, iniciou-se um nova discussão entre populares junto à tasquinhas e, nessa altura, três ciganos e um negro começaram a roubar as pessoas que estavam presentes.
“Ficámos revoltados e fomos atrás deles, só que quando chegámos à outra parte do recinto estavam mais de duas dezenas de ciganos e rapazes de raça negra armados com paus e ferros. Iniciou-se uma batalha campal e toda a gente começou a fugir”, lembrou a testemunha.
Na altura, a vítima mortal, Luís Silva, de 23 anos, pulou a rede do recinto para escapar aos desacatos, mas quando abalava em direcção a casa foi rodeado e apunhalado na barriga por um grupo, que se presume ser de etnia cigana.
A GNR procedeu nessa madrugada à identificação de vários indivíduos, mas muitos dos que estiveram envolvidos na rixa desapareceram sem deixar rasto. O caso foi entregue à PJ.
ECONOMISTA QUE QUERIA SER PADRE
A trágica morte de Luís Silva deixou em estado de choque a população de Santiago do Cacém. “A notícia caiu que nem uma bomba, pois ele era muito estimado e querido na nossa terra. Era filho único, estava ligado à igreja (onde ajudava à missa como acólito), participava em muitas actividades, tinha terminado a licenciatura e estava agora a trabalhar. O que lhe fizeram é uma grande injustiça porque ele não se metia em confusões nem gostava de barafundas”, frisou Vítor Nunes, residente na localidade.
Presidente da Juventude Mariana Vicentina, Luís Silva tinha confessado que gostava de ser padre, mas acabou por formar-se em economia. “Participava nas celebrações das missas e tinha estado no encontro com o Papa na Alemanha. Era um rapaz muito dedicado à igreja e dava-se com todo o tipo de pessoas”, disse o padre local, Manuel Magalhães, que participou na noite de anteontem numa vigília em homenagem ao falecido.
PORMENORES
MILÍCIAS
Durante o dia de ontem corria uma informação na cidade que dava conta da criação de uma milícia popular com o objectivo de vingar as vítimas. Contudo, tudo não passou de um boato.
ROUBO
Fonte das autoridades garantiu ao nosso jornal que alguns dos indivíduos que participaram na rixa terão fugido numa viatura roubada. Ontem, o veículo foi encontrado em Aljustrel.
REFORÇO
O presidente da autarquia local, Vítor Proença, manifestou-se ontem preocupado com os níveis de criminalidade na região e aumento de conflitos entre grupos de jovens e pediu ao Governo um reforço do efectivo policial.
LAPSO
Na edição de ontem, o CM noticiou erradamente, com base numa informação prestada pelas autoridades, que a vítima da rixa tinha sido um indivíduo de etnia cigana. À família da vítima e aos leitores as nossas desculpas.
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