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Correio da Manhã

Portugal
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Roubo milionário deixa seis feridos

O roubo milionário a duas ourivesarias no centro de Viana do Castelo lançou o pânico e o terror na cidade. Seis feridos – dois polícias, três populares e um dos assaltantes –, é o balanço do violento e aparatoso assalto, ocorrido pelas 10h00. Um popular ficou paraplégico (foi baleado na coluna) e um dos quatro ladrões corre risco de vida – levou um tiro que lhe atravessou a cabeça e está internado em estado crítico no Hospital de São João, no Porto. Dois assaltantes já foram detidos pela GNR, na Trofa, e entregues à PJ. O quarto ladrão, embora identificado, está a monte.
7 de Setembro de 2007 às 00:00
A ourivesaria ficou destruída e os assaltantes incendiaram um dos dois carros
A ourivesaria ficou destruída e os assaltantes incendiaram um dos dois carros FOTO: Sérgio Freitas
Tudo, numa cidade que tinha reforçado o policiamento para acolher, hoje, a cimeira dos ministros dos Negócios Estrangeiros. O caso vem reforçar a onda de insegurança que se tem vivido por todo o País.
Com a ajuda de populares, a PSP ainda perseguiu a quadrilha, mas apenas capturou de imediato o ferido, porque foi entregue pelos comparsas no Hospital da Trofa, que alertou as autoridades para a entrada de um homem baleado nas Urgências. Mais tarde, cerca das 15h00, a GNR da Trofa, que investigava o bando há vários meses, obteve a informação de que os assaltantes se encontravam numa casa daquela cidade e, em colaboração com a PJ, efectuou as detenções, não tendo existido qualquer reacção violenta por parte dos dois indivíduos caçados. Os quatro têm idades compreendidas entre os 20 e os 25 anos.
Na sequência do assalto, um dos transeuntes, emigrante, foi baleado na coluna e ficou paraplégico.
Os quatro ladrões estavam encapuzados, armados de revólveres e caçadeiras de canos serrados, e entraram de rompante nas ourivesarias gritando: “Pessoal, isto é um assalto, não se mexam para que tudo corra bem.” Levaram cerca de um milhão de euros em ouro da ourivesaria e do Museu do Ouro, ambos de Manuel Freitas.
“Eu estava a atender um cliente quando comecei a ouvir gente a gritar. Dirigi-me à porta e vi, então, um indivíduo com uma cabeleira a apontar a arma para todo o lado, enquanto outro atirava coisas para dentro de um carro”, conta Célia Ferreira, funcionária de uma loja de decoração. “Foi horrível ver várias pessoas estendidas no chão e feridas”, relata.
EX-DIRECTOR DA PJ DIZ-SE "PREOCUPADO"
António Martins, antigo director da PJ e actual presidente da Associação Sindical dos Juízes, considerou ontem “preocupantes” os recentes fenómenos de criminalidade grave relacionados com assaltos a bancos e a ourivesarias e com tiroteios na noite do Porto e de Lisboa.
“Fica-me a ideia que estamos a viver momentos complicados a nível da criminalidade violenta e grave. É preciso fazer aqui um trabalho, de perceber as causas disto”, disse, lembrando que a PJ tinha conhecimento profundo nessa área. “Não sei o que está a acontecer, se é falta de meios, se é outra coisa”, comentou.
Quanto à violência na noite do Porto e de Lisboa, António Martins mostrou-se mais “preocupado”, por se tratar de “um problema estrutural” em que “começa a haver falta de respeito” pela Polícia.
O ministro da Administração Interna, Rui Pereira, depositou ontem “confiança absoluta” nas polícias, garantindo que a situação no País está “dominada”. “A criminalidade desceu no primeiro semestre deste ano”, declarou.
Segundo os dados do MAI, registou-se um decréscimo de 16,2% na criminalidade violenta participada à PSP e à GNR no primeiro semestre de 2007. Face a estes números, o secretário-geral-adjunto do Gabinete Coordenador de Segurança, Paulo Gomes, classificou como “conjuntural” a onda de assaltos violentos registada nas últimas semanas.
BANDO ESTAVA REFERENCIADO PELAS AUTORIDADES POLICIAIS HÁ VÁRIOS MESES
O bando que ontem protagonizou o aparatoso assalto em Viana do Castelo já estava, segundo o CM apurou, referenciado há vários meses pelas autoridades policiais (GNR, PSP e PJ). Era suspeito de vários assaltos à mão armada, quer a pessoas que circulavam na via pública, quer a proprietários de estabelecimentos comerciais na Região Norte, sobretudo no Minho e Grande Porto. Os quatro indivíduos que fizeram os assaltos residem na Trofa e em Vizela. Uma das técnicas do bando era o ‘carjacking’, usando as viaturas que roubavam, sempre de grande cilindrada, para efectuar assaltos. Após cometerem os crimes, e tal como ontem aconteceu, pegavam-lhes fogo.
Entretanto, o presidente da Câmara de Viana do Castelo, Defensor Moura, considerou que a Polícia deu uma boa resposta ao crime de ontem. “A Polícia reagiu bastante bem, e a prova é que foi atrás deles e dois já foram apanhados”, disse o autarca.
Opinião que não é compartilhada por Manuel Freitas, o dono dos dois estabelecimentos ontem atacados pelo bando.
PSP BALEADO TEVE ALTA ONTEM À NOITE
Filipe Manuel Pereira Alves, natural de Paredes de Coura, de 33 anos, foi admitido na PSP a 31 de Agosto de 1998. É casado e tem dois filhos. Foi baleado durante o assalto na zona do tórax. Segundo informações hospitalares, apesar da gravidade dos ferimentos não correu nunca risco de vida e teve alta ontem pelas 21h30. O polícia fez parte dos quadros do Corpo de Intervenção em Lisboa e desempenhou funções na mesma unidade no Porto. Em 2005 foi transferido, a seu pedido, para a PSP de Viana do Castelo. Fez parte das Brigadas de Investigação Criminal e presentemente integrava o efectivo daquela esquadra. Filipe Alves é também delegado da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP/PSP).
"AUMENTOU O CRIME VIOLENTO
Paulo Rodrigues, presidente da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia, diz que “contrariamente ao que dizem as estatísticas do Governo, o crime violento aumentou”. “Há deficiências no equipamento das polícias, e há uma falta de efectivos. A PSP de Viana do Castelo duplicou a área, e quase triplicou a população vigiada. Começa a entender-se que é necessária uma intervenção para combater o crime violento.”
"EU NUNCA MAIS QUERO TER UM MUSEU DE OURO"
Manuel Freitas, espoliado de ouro avaliado em cerca de um milhão de euros, não se conforma com o assalto: “Isto foi uma desgraça. São 50 anos de trabalho que desapareceram. O museu era tão importante como um filho. Está ali muito trabalho e dedicação”, desabafou o proprietário de ambos os estabelecimentos assaltados. “Eu nunca mais quero ter um museu do ouro”, acrescentou, pesaroso, Manuel Freitas.
“Num dia que para mim começou, como sempre, às 06h00, não pude deixar de ficar admirado com tanto reforço policial na cidade. Repare que nem barcos podiam entrar no cais, estava tudo interdito [devido à cimeira dos ministros de Negócios Estrangeiros da União Europeia, que hoje decorre em Viana]. Foi logo agora, com todo este dispositivo e com uma barreira policial a apenas 200 metros daqui, que tudo aconteceu? Nas barbas da PSP!”, desabafou o comerciante.
TESTEMUNHA PERSEGEGUIU OS LADRÕES
Rui Gonçalves (na foto) foi testemunha do assalto, tendo contado ao CM que depois de presenciar o roubo ajudou a perseguir os assaltantes. “Eu estava na loja aqui ao lado, também uma ourivesaria do mesmo proprietário, quando me apercebi de que qualquer coisa estranha estava a acontecer. Dirigi-me à ourivesaria e, quando vou a entrar, sou recebido por um indivíduo encapuzado que me apontou uma arma à cabeça. ‘Entra’, disse-me, e eu obedeci. Já no interior da loja, vi mais dois bandidos, que ordenaram à funcionária que se deitasse, ela não obedeceu, e eles ameaçaram-na com as armas. Ofereci o meu automóvel à PSP, fomos atrás deles, mas voltámos por um dos polícias estar ferido.”
OS PORMENORES
CARRO FOI INCENDIADO
Os quatro assaltantes deixaram o carro do roubo em S. Romão do Neiva, na Rua da Gandara, uma travessa de sentido único, incendiando o veículo. Roubaram ainda mais dois carros durante a fuga.
OURO RECUPERADO
Bruno Miguel Magalhães Moreira, um dos assaltantes, está em coma, corre perigo de vida. Os outros dois assaltantes detidos são hoje presentes a tribunal. Parte do ouro foi já recuperado, porque os ladrões o largaram durante a fuga.
NOTAS
RUI RIO PEDE MAIS EFICIÊNCIA
O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, denunciou ontem “a pouca eficiência” das forças policiais, defendendo que “o Governo faça uma reforma profunda”.
PSD CRITICA PASSIVIDADE
O vice-presidente da bancada do PSD, Montalvão Machado, criticou ontem os sinais de “profunda passividade” do Executivo face à recente onda de criminalidade.
OPOSIÇÃO QUER 'ATENÇÃO'
PSD, PCP e CDS defenderam ontem que é preciso dar uma “atenção especial” e “tratamento mais cuidado” às questões de segurança.
O PERCURSO DOS ASSALTANTES
1. Quatro ou cinco indivíduos irrompem pela Ourivesaria Freitas e no Museu do Ouro e roubam cerca de 1,5 milhões de euros em peças de ouro e relojoaria
2. Dá-se um primeiro tiroteio. Cinco pessoas ficam feridas incluindo dois agentes da PSP
3. A polícia cria uma barreira na Avenida Marginal, mas os bandidos passam por ela. Segundo tiroteio onde um dos ladrões fica gravemente ferido
4. Os ladrões dirigem-se para Trofa onde deixam à porta do hospital um cúmplice, em estado muito grave
5. Perto de Esposende incendeiam o BMW, que os transportava, e entram num Audi
6. Em Darque incendeiam o Audi e roubam outro carro
7. Os assaltantes voltaram para Trofa e esconderam-se numa casa, onde dois deles foram apanhados. O quarto ladrão estava ontem à noite a monte
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