Pedro Zagacho Gonçalves
JornalistaDébora Carvalho
Jornalistacomeça
Decorre esta quinta-feira a sétima sessão do julgamento de Rui Pinto e continuará a ser ouvido o inspetor da PJ José Amador.
inspetor
O inspetor irá explicar como Rui Pinto procedeu no alegado ataque aos sistemas da Procuradoria-Geral da República, através do qual o ‘hacker’ terá tido acesso às caixas de e-mail de vários magistrados e até mesmo a processos protegidos por segredo de justiça.
PGR
Ao que tudo indica, e à semelhança do que foi feito nos alegados ataques à Doyen ou à PLMJ, o ‘hacker’ terá usado credenciais roubadas através de um esquema de ‘phishing’, neste caso a Amadeu Guerra, ex-diretor do DCIAP.
Com essas credenciais tinha acesso privilegiado aos sistemas da PGR.
débora
Rui Pinto terá acedido ao protocolo da Polícia Judiciária e Europol, ou seja, à forma como comunicam por canal interno, secreto e encriptado.
Já no ataque informático à PGR o hacker terá espiado o próprio processo, andando assim à frente da investigação.
O inspetor revela que nos discos rígidos apreendidos ao pirata informático constavam digitalizações do seu processo agora em julgamento.
A caixa de email de Amadeu Guerra, ex-diretor do DCIAP, foi uma das primeiras a ser acedida alegadamente por Rui Pinto no ataque à PGR.
rui pitno
Durante a manhã, o inspetor da PJ explicou que Rui Pinto terá alegadamente acedido também aos sistema interno do Ministério Público SIMP, uma rede interna onde estão vários guias, manuais de procedimentos e outros documentos relacionados, alguns feitos pela PJ, por exemplo, sobre como fazer pedidos de IPs, colaboração internacional e revelação de identidade de clientes a prestadores de serviços de internet, entre outros.
Nesta rede, Rui Pinto pesquisaria diretamente com nomes de intervenientes no processo (o seu próprio processo) e com o número de identificação deste.
A procuradora e os juizes do coletivo fizeram várias perguntas sobre o SIENA, o canal de comunicação fechado e interno da Europol, e sobre o qual Rui Pinto tinha vários documentos sobre o funcionamento.
Chegou ao ponto de, relativamente ao caso Football Leaks, a equipa de PJ que José Amador liderava ter marcado uma reunião com as polícias espanholas e húngaras em Haia
Numa das pastas referidas que foram encontradas nos discos havia precisamente informação, alegadamente retirada do canal SIENA, sobre essa reunião. O objetivo seria agilizar os procedimentos e diligências pedidos pelas autoridades portuguesas e espanholas a realizar em solo húngaro. O pedido foi, no entanto, negado, apesar da realização de ter realizado.
A juíza questionou que esta ‘violação’ do canal de comunicação, descrito pela PJ como "tendo muito elevado grau de segurança", só teria duas hipóteses e origem: "ou foram polícias ou foi alguém que deu a terceiros".
"Não sei responder", disse o inspetor, reforçando que foi averiguado se a PJ ou Europol serial os "pontos de entrada" e tal não aconteceu. Deixou no ar, no entanto as suspeitas de uma eventual ‘toupeira’ no caso. Explicou que as pastas tinham o nome de William e William1, e que eram "uma rapsódia do melhor de vários casos e investigações", que davam a ideia "de serem um acervo reunido por alguém e depois enviado".
O inspetor da PJ lamentou que não fosse diferido o pedido de especial complexidade do processo para dar maior prazo para investigações, e referiu que Rui Pinto negou inicialmente qualquer colaboração. Só quando foi extraditado e chegou a Portugal admitiu a possibilidade.
pass
Rui Pinto decidiu termos da colaboração com PJ para abrir discos. Foi o hacker quem introduziu as passwords e até hoje não as revelou à polícia.
As autoridades francesas pediram as credenciais à PJ para fazer cópias dos discos mas não poderá ser a judiciária a ajudar. Rui Pinto continua a ter todo o poder nas suas mãos.
pj levava investigação como trabalho
O inspetor da PJ explica à juíza que, segundo a investigação, Rui Pinto levava a atividade como hacker "como se fosse trabalho".
O advogado da FPF questionou e a juíza reforçou se haveria possibilidade de Rui Pinto contar com um colaborador a ajudá-lo. "Trabalhava até de madrugada e em atividade contínua", referiu o inspetor, recordando os alegados acessos a caixas de email e sistemas de informação que aconteciam sem interrupções.
Adiantou também que muitas entidades que não constam do processo, mas cujos ficheiros e possíveis provas de supostos ataques informáticos existem nos discos de Rui Pinto, não fizeram queixa sequer com medo dos danos reputacionais
"Cheguei a consultar pessoas e tudo e negavam que se passasse qualquer coisa de estranho. O dano reputacional é sempre enorme", disse José Amador.
Já foi também questionado o inspetor da PJ pelo advogado do Sporting e pelo advogado de Rui Costa Pereira, à data dos factos advogado na PLMJ e assistente neste processo (tendo sido já anteriormente ouvido por ter sido um dos alvos de alegada ‘espionagem’ e roubo de documentos).
O inspetor da PJ diz que os discos e material apreendido "têm a marca de Rui Pinto" mas não descarta absolutamente a hipótese de "poder funcionar como vertente empresarial/operacional e ter colaboração"
inspetor confrontado
Ainda, durante a manhã desta sétima sessão do julgamento, o inspetor da PJ foi confrontado com documentos que estavam nos discos de Rui Pinto relativos a uma mensagem de Nélio Lucas, CEO da Doyen, para Joana Marques Vidal, então Procuradora-Geral da República, relativa a um pedido para que o Football Leaks fosse bloqueado em Portugal. Sobre a origem, o inspetor esclareceu que "há muitas mais" que não constam no processo, referindo que neste caso teria vindo dos escritórios de advogados Vieira de Almeida, que há data representavam a Doyen e Nélio Lucas.
sabia desde 2016
Foi também revelado que, segundo a PJ, através do acesso que tinha conseguido à PGR, Rui Pinto saberia de todos os desenvolvimentos do seu processo "desde 2016".
intervalo para almoço
Intervalo para almoço
teixeira da mota
Teixeira da Mota, na saída agora para o período de almoco, foi questionado pelos jornalistas sobre se Rui Pinto já partilhou as passwords de acesso aos discos encriptados. "Boa pergunta", afirmou o advogado do hacker, sem adiantar a resposta.
começo segunda parte
A Polícia Judiciária confirma que Rui Pinto deu passwords dos discos encriptados a "pessoa de confiança". No entanto, o pirata,não revelou de quem se trata às autoridades.
A advogada da Doyen travou a cronologia dos vários acessos e ataques registados na auditoria forense feita aos sistemas e questionou as formas de recolha de documentos levadas a cabo alegadamente por Rui Pinto.
Pedro Henriques
A questão de Pedro Henriques que, quando a Doyen fez a segunda queixa não se apresentou como advogado ou representante legal de Nélio Lucas (CEO do fundo), ocultou a ser falada.
Foi confirmado pelo inspetor, que relatou que depois Pedro Henriques lhe reenviava os emails trocados com Artem Lubozov (pseudónimo de Rui Pinto) no âmbito da alegada tentativa de extorsão. "Existem dúvidas de que Artem é Rui Pinto", perguntou a advogada.
"A margem é muito curta", disse com certeza o inspetor José Amador. A advogada da Doyen traça ainda um paralelo: quer nos emails enviados para a Doyen, quer no Football Leaks, o hacker usava a expressão "doação generosa".
"Aparece-me como mãe", disse o inspetor da PJ, referindo que não estranhou o envolvimento de Nélio Lucas, comparando-o como se fosse familiar ou amigo próximo de quem apresentava a queixa, Nélio Lucas.
Segundo a PJ, Rui Pinto inseriu as passwords e começou a desencriptar os discos entre final de março e abril deste ano. Explicou que as cópias feitas e entregues às autoridades francesas, que geraram polémica esta semana em tribunal, aconteceram em março de 2019.
CAPACIDADES
"As capacidades dele até ultrapassam as minhas", admite inspetor da PJ quando questionado pela defesa de Rui Pinto.
A defesa questionou PJ sobre se foi possível chegar à conclusão que Rui Pinto seria responsável por perfil no Facebook (associado ao nome ‘João Green Vitória’) e página de Twitter ‘Parvo da Vida’, que divulgavam conteúdos do Football Leaks. Inspetor diz que não, a informação foi pedida mas a resposta chegou sempre incompleta ou fora de tempo. "Tivemos sempre esse problema durante a investigação", confessou José Amador.
Outro ponto que a defesa do arguido questionou foi o facto de o mandado de busca fazer referência a uma morada diferente de onde estava Rui Pinto. A PJ tinha seguido um IP que pertencia a um contrato de telefone e internet de Valid Bozov e ao mesmo tempo tinha encenado com as autoridades húngaras a ‘perseguição’ à família de Rui Pinto que o tinha visitado em Budapeste. Acabaram por ser feitas buscas nos dois locais, disse o inspetor, ressalvando que não esteve presente no momento exato da detenção e apreensão, como já tinha afirmado em tribunal.
O inspetor disse sempre que autorização para buscas e apreensões "não passou" por ele. Desvalorizou questões da defesa sobre o tempo em que os sacos de prova tiveram abertos em Portugal, enquanto eram feitas as cópias dos discos de Rui Pinto. "Podem demorar mais de oito horas e se forem interrompidas causa erros" e referiu sempre que, quer em Portugal, que pelo que lhe foi transmitido pelas autoridades húngaras foram sempre seguidos "os protocolos bastante rigorosos".
" O disco ao ar não oxida!", afirmou o inspetor José Amador.
Defesa
Defesa fez questões relacionadas com o alegado ataque ao Sporting, que resultou no colapso do sistema informático do clube. Foi perguntado ao inspetor se o ataque, DOS (Denial of Service), se o ‘crash’ do sistema foi objetivo é ou se poderia meramente ter acontecido mediante as fragilidades do sistema que a PJ tinha identificado.
"Quem lança aquele tipo de ataques sabe o que vai acontecer na máquina. O arguido já tinha estado dentro do sistema e conhecia-o", garantiu o inspetor.
"Quem usa estas ferramentas sabe que bem não faz, e por isso faz estes ataques", disse o inspetor, interrompido pela juíza que disse: "Não faz nada disto".
Terminou sessão
Terminou a sessão.
A sessão de quarta-feira foi anulada, sendo retomado o julgamento na quinta-feira.
José Amador continuará a ser ouvido e será também ouvido outro inspetor da Polícia Judiciária, José Luís São Bento.
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