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Correio da Manhã

Portugal
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Ruy de Albuquerque era de uma amizade doentia

Um homem enorme, com capacidades pessoais e profissionais únicas que deixou marcas profundas por onde passou. É desta forma que o discípulo e amigo Marcelo Rebelo de Sousa caracteriza Ruy Manuel Corte-Real de Albuquerque, professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa, falecido na passada sexta-feira, consequência de doença oncológica.
24 de Janeiro de 2007 às 00:00
Miguel Teixeira de Sousa, presidente do Conselho Directivo, da Faculdade de Direito, lembra Ruy de Albuquerque como um dos grandes mestres da Faculdade, “com serviço prestado em grande número de disciplinas, mas especialmente nas do Grupo de Ciências Histórico-Jurídicas, em que criou uma verdadeira escola”. Os elogios à pessoa e ao profissional surgem também através de Rogério Alves, bastonário da Ordem de Advogados, a quem chama “um excelente homem de direito”.
É Marcelo Rebelo de Sousa, porém, que melhor o define, até pela relação pessoal de amizade intensa que os uniu. “O que mais admirava nele, por um lado, era a força do seu carácter, a sua inteligência, o poder da sua argumentação, o sentido fino do seu humor, a lealdade da sua amizade. Por outro, a enorme dedicação à universidade como investigador e professor”, explicou ao CM Marcelo Rebelo de Sousa, dizendo que as melhores recordações da sua vida, “na universidade e fora dela”, foram passados na companhia de Ruy de Albuquerque: “Desde as conversas importantes que teve para me aconselhar na minha vida académica, aos Verões passados em conjunto, até o mesmo gosto pelos livros, as visitas às livrarias e idas a leilões”.
O sentimento amizade era, aliás, algo que Ruy de Albuquerque fazia questão de defender e estimular. Marcelo Rebelo de Sousa diz mesmo que “ele era de uma amizade doentia”. “Em relação aos amigos era capaz de tudo. Era feroz na sua defesa”, garante, explicando: “Tinha uma coisa muito rara. Ao mesmo tempo que era um investigador, um grande cientista, um homem de gabinete, era uma pessoa muito sociável. É quase contraditório. Eu perguntava-lhe muitas vezes: ‘Professor, onde consegue tanto tempo para, ao mesmo tempo, investigar, publicar, exercer advocacia – foi um advogado muito conhecido e prestigiado – e ainda manter os amigos, as suas tertúlias literárias?”.
Ao mesmo tempo que faz a pergunta, assim encontra a resposta. “Era uma pessoa que gostava muito de viver. Com uma alegria e boa disposição contagiante que emprestava aos outros a sua vontade de viver. Faz muita falta. Foi uma partida muito brusca, num período muito curto de tempo”, sublinha.
Profissionalmente, Ruy de Albuquerque era, segundo o discípulo, extraordinário, “com a qualidade excepcional de se adaptar às mais variadas cadeiras”. “Além de ser um historiador e de ter criado uma escola de História de Direito, deixou vários discípulos. Formou, doutorou e levou até catedráticos, assistindo, ainda durante a sua vida, vários alunos. Deu disciplinas de Direito Civil, Direito Público, Direito Económico. Isto porque tinha uma grande cultura e uma enorme versatilidade. Além disso era um homem que conhecia muito de literatura e de artes plásticas”.
PERFIL
Ruy de Albuquerque nasceu a 7 de Outubro de 1933, numa família brasonada, com uma tradição secular de juristas. Foi professor e bibliotecário da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Licenciou-se em Direito, em 1948, com 18 valores, nota com que concluiu o Curso Complementar em Ciências Histórico-Jurídicas. As obras ‘História do Direito Português’ e ‘Estudos de Direito Romano’ são de sua autoria.
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