A t-shirt azul-bebé que veste tem escrito nas costas a mensagem que Dalila Gomes, de 60 anos, revela com um sorriso rasgado: “Venci o cancro.”
Logo depois, a expressão de vencedora de Dalila Gomes fica mais séria e faz críticas: “Venci o cancro da mama, mas tive sorte. Pude ser operada numa clínica privada uma semana depois de o médico me fazer o diagnóstico. Senão, teria de esperar entre seis meses e um ano por uma cirurgia no IPO (Instituto Português de Oncologia) de Lisboa. Podia ter morrido como outras mulheres morrem ao esperar tanto tempo pela operação.”
Dalila Gomes, residente em Lisboa, faz estas declarações ao CM num momento de pausa dos 3,5 quilómetros da Caminhada Rosa, uma iniciativa que juntou ontem de manhã cerca de três mil pessoas no Parque de Monsanto.
O objectivo da marcha foi alertar as mulheres para a importância do diagnóstico precoce do cancro da mama e recolher fundos que permitam à Liga Portuguesa Contra o Cancro proceder a uma mudança técnica dos aparelhos que fazem as mamografias – uma adaptação à tecnologia digital que permite, segundo a presidente, Manuela Rilvas, fazer mais exames de mamografia (ecografias à mama).
Dalila Gomes passa a mão pelo bonito cabelo grisalho, que cresceu mais forte depois da quimioterapia que o fez cair, e a sua memória regressa ao período da doença. “Salvei-me porque tinha o subsistema de saúde do SAMS, por parte do meu marido. Aliás, a minha irmã, a quem também foi diagnosticado cancro da mama, também se salvou porque foi operada no sector privado, pois ouviu o mesmo dos médicos do IPO: tinha de esperar entre seis meses e um ano pela cirurgia. Como é possível uma lista de espera para um caso de cancro?”, interroga.
Esta doente, que diz estar curada mas com o receio de que o mal regresse novamente, lamenta ainda não poder ter acompanhamento clínico pós-operatório no hospital especializado, o IPO, tendo sido remetida para “o médico de família”.
A força para lutar contra a doença foi-lhe dada pelas filhas, que “foram umas heroínas aos 15 e 18 anos, tiveram muita coragem para me dar o apoio de que eu precisava para enfrentar a doença. Eu nem sequer conseguia chamá-la pelo nome, não conseguia dizer a palavra ‘cancro’, dizia carcinoma, doença cancerígena”.
O marido, conta, “não me deu apoio, apesar de já estarmos em processo de divórcio. Quando fui fazer a primeira sessão de quimioterapia disse-me para ir apanhar um táxi”.
DOENTES QUEIXAM-SE À LIGA
A presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, Manuela Rilvas, confirma ao CM as queixas das doentes pela demora por uma cirurgia no Instituto Português de Oncologia de Lisboa. “Tenho ouvido doentes a queixarem-se da demora, mas não sei quanto tempo esperam para serem operadas”, disse a responsável da Liga.
Confrontado com a lista de espera, João Oliveira, ex-director clínico do IPO de Lisboa, disse ao CM estar incrédulo com a situação: “Todos os hospitais têm lista de espera, mas é impossível um período tão grande no IPO.”
O médico especialista em oncologia lembra o facto de não ser cirurgião para não conseguir explicar as razões da lista de espera nesta especialidade clínica. “Nas consultas não temos essa demora.”
O CM tentou obter esclarecimentos junto da direcção do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, mas tal não foi possível por ontem ser feriado e os serviços da direcção estarem encerrados.
'ESTADO NÃO AJUDA A PAGAR AS PRÓTESES'
A gestora Ana Baptista, de 41 anos, é outra vencedora na luta contra o cancro da mama. Esta mulher de Vila Franca quis poupar a família – marido e filhos, de 21, 20 e 16 anos – ao sofrimento por que passou há sete anos, quando a doença lhe foi diagnosticada. Hoje pensa de outra forma: “Não devemos esconder a verdade da família, como eu fiz. Não quis dizer em casa que estava doente e o meu marido e filhos só souberam quando era impossível disfarçar a queda do cabelo, por causa da quimioterapia e da alergia à cabeleira.”
Diz que soube “quase por acaso. Senti uma dor na mama esquerda, fui ao ginecologista, fiz exames e o diagnóstico foi feito em Março de 2000. Esperei uns meses e fui operada, no IPO, apenas em Julho”. Para salvar a vida de Ana Baptista, os cirurgiões tiveram de lhe fazer a ablação total (remoção da mama). “As próteses são muito caras e o Estado não comparticipa, não recebi nada e paguei 250 euros. Pela cabeleira paguei 225 euros e recebi 65 euros. Os soutiens e fatos de banho também são muito caros.”
A alegria de viver que Dalila Gomes manifesta não deixa transparecer os 60 anos que contam no bilhete de identidade. Vive em Lisboa e durante muitos anos foi gerente de uma empresa. A doença ajudou-a a meter os papéis para a reforma antecipada, encontrando-se actualmente aposentada. Fala das duas filhas com grande admiração. “Demonstraram muita coragem, apesar de terem apenas 15 e 18 anos. Deram-me muita força.”
DIREITO DE RESPOSTA
Na sequência da notícia intitulada “Salvei-me por ir ao privado” publicamos o seguinte direito de resposta: “Vem o Instituto Português de Oncologia de Lisboa solicitar a correcção da notícia publicada na página 14 da vossa edição de sexta-feira, dia 6 de Outubro, por a mesma não corresponder à verdade, sendo, por isso atentatória do bom-nome e reputação desta instituição para além de, infundadamente, lançar a preocupação sobre os cidadãos em geral e sobre os utentes deste instituto em particular.
Assim, se o Correio da Manhã tivesse oportunamente contactado os órgãos de administração do IPOL, o que inexplicavelmente não fez em devido tempo, ter-lhe-ia sido comunicado que o tempo médio de espera de cirurgias relativas ao cancro da mama é de 2,5 meses, número que, longe de ser ideal, constitui uma melhoria significativa relativamente aos tempos de espera observados em anos anteriores nesta instituição.
O conselho de administração espera que as medidas internas que têm sido tomadas venham a melhorar significativamente o tempo médio de espera global para o que contribuirá um aumento interno da produção cirúrgica, aumento que se cifra já, neste momento, em 8,8%.
Mais informamos que este conselho de administração sempre se mostrou e mostrará disponível, quando contactado para o efeito, para esclarecer os meios de comunicação social, bem como o público em geral quanto às matérias relacionadas com a patologia que trata.”
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