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Correio da Manhã

Portugal
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Sardinha atirada ao mar

Vinte e sete toneladas de sardinha, cerca de um terço da captura efectuada este ano por traineiras de Portimão, foram atiradas ao mar. Só ontem verificou-se a retirada de venda de mais de quatro das cinco toneladas que deram entrada na lota local.
20 de Janeiro de 2007 às 00:00
Pescadores consideram que a situação é insustentável, estando em causa 200 postos de trabalho
Pescadores consideram que a situação é insustentável, estando em causa 200 postos de trabalho FOTO: José Carlos Campos
Os armadores dizem que os preços são tão baixos que não vale a pena pescar, pelo que já há barcos parados. E, no próximo mês, todas as traineiras do porto de Portimão – que conta com metade do número de embarcações da pesca da sardinha no Algarve – deverão acostar a terra.
Segundo dados da Barlapescas, Cooperativa dos Armadores da Pesca do Barlavento, há dias em que o valor por quilo de sardinha na lota de Portimão não ultrapassa os 16 cêntimos – embora o consumidor final desembolse, frequentemente, dez vezes mais.
De forma a garantir um rendimento mínimo aos homens da pesca da sardinha, o Estado garante o pagamento de 36 cêntimos por cada quilo retirado de venda em lota, mas os armadores queixam-se de que o dinheiro demora muito tempo a ser entregue -–“cerca de um ano”. Muitos optam, por isso, por vender a preços irrisórios com o objectivo de receberem logo.
“O preço tem caído muito”, diz o presidente da Barlapescas, Mário Galhardo, adiantando que o ano passado foram retiradas “umas seis toneladas de sardinha”, enquanto este ano já contabilizam 27, num total de 92 toneladas de captura. No dia de ontem foram colocadas na lota de Portimão cinco toneladas, mas 4,3 acabaram por ser devolvidas ao mar, após retirada de lota. E ainda faltam os meses de Fevereiro e Março, considerados “os piores na pesca da sardinha”.
“Os compradores dizem que os preços são baixos porque o peixe não tem escoamento no mercado. Boa parte da sardinha devia seguir para fábricas de conserva, mas só uma ou duas das que existem no País compram sardinha nacional. As restantes importam o peixe já descabeçado de outros países, designadamente Marrocos”, afirma Mário Galhardo.
A situação é considera “insustentável” pelo dirigente associativo, que salienta que o valor obtido pela “venda quase não cobre os custos. Há pescadores que levam para casa 120 a 150 por mês e ainda têm de pagar impostos”.
Neste momento, quatro embarcações de Portimão já pararam e as restantes 12 deverão deixar de ir ao mar em breve. “Estivemos reunidos esta semana e em princípio iremos parar no início de Fevereiro”, adianta Mário Galhardo.
Segundo o responsável da Barlapescas, “o Governo devia intervir. É um crime matar sardinha para atirar fora, até porque estamos na altura da desova. Devia haver um período de defeso para preservação dos recurso, com a atribuição de ajudas a armadores e pescadores”.
CONTENÇÃO NAS CAPTURAS
António da Branca, presidente da OlhãoPesca – Organização de Produtores de Pesca do Algarve, defende como alternativa à paragem da frota “um acordo entre os armadores no sentido de estabelecer limites ao volume de capturas de cada embarcação”. Segundo o dirigente associativo, “é necessário reduzir a oferta de forma a que os preços possam subir”.
Outra medida que António da Branca considera viável “é o estabelecimento de um defeso biológico, subsidiado pelo Estado”, que poderia usar o dinheiro pago actualmente para efeitos da retirada de sardinha de venda em lota. Hélder Rita, da Associação de Pescadores e Armadores de Quarteira (Quarpesca), lamenta entretanto “a falta de fábricas para receber o peixe”.
PORMENORES
CARAPAU
O baixo preço não se verifica apenas com a sardinha. Mário Galhardo diz que o carapau negrão chega a ser vendido a menos de quatro cêntimos e não tem apoio à retirada.
ORDENADO
A pesca da sardinha dá emprego a duas centenas de pessoas, em Portimão. Os pescadores recebem 2,5% sobre as vendas após terem sido descontados os custos com o barco.
RETIRADA
O peixe retirado de venda em lota acaba por ser lançado ao mar a cerca de nove ou dez milhas da costa. Em Portimão foi este o destino de 27 toneladas de sardinha este ano.
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