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Correio da Manhã

Portugal
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SAUDADE PARA O IRAQUE

O jovem militar de farda azul-escuro embala o bebé de meses. O seu filho. Ao seu lado, a mulher tem uma tristeza no olhar. No hangar do aeródromo militar do Figo Maduro, em Lisboa, a saudade futura é enganada com centenas de conversas, que enchem o espaço num bruá-bruá enorme. Ontem, o segundo contigente de 80 militares da GNR partiu para Nassíria, no Iraque, para substituir os nossos homens do Subagrupamento Alfa, que estão naquele país desde 12 de Novembro.
9 de Março de 2004 às 01:13
Na bagagem, entre outras coisas, numa redoma foi um capacete de gala do Regimento de Cavalaria da GNR, oferecido pelo comandante daquela unidade, tenente-coronel Potier, para relembrar o espírito daquele corpo da Guarda.
Depois da entrega do símbolo, o grito da Cavalaria ecoou forte no hangar, iniciado pela soldado Sebastião: “Ao galope! Ao galope! Ao galope!” “À carga!”, o grito de resposta, entoado por dezenas de gargantas em uníssono, mostrando o estado de espírito forte com que a GNR partiu para esta missão.
O contingente partiu com cerca de uma hora e meia de atraso ao incialmente previsto, num avião C-130 da Força Aérea Portuguesa, após as despedidas do ministro da Administração Interna, Figueiredo Lopes. O voo fez escala esta madrugada na ilha de Creta, esperando-se a sua chegada ao Iraque ao princípio da manhã.
“O pessoal está bem, embora naturalmente apreensivo”, disse ao CM o tenente Martinho, que comanda o pelotão de Cavalaria, responsável pelas viaturas e pelos apontadores de metralhadora ligeira.
Para a soldado Sebastião, que vai com a tarefa de revista e busca, bem como o apoio ao auxílio médico, as preocupações são outras: “Tenho algum receio de como a minha presença possa ser encarada por uma população que discrimina as mulheres, mas acima de tudo, tenho de pensar no desempenho profissional, que é o mais importante”.
António Conveniente, militar da GNR reformado, viu o filho partir para a sua segunda missão, depois de uma antes em Timor. “Já estamos um pouco habituados. Agora talvez com mais precaução, mas a gente nunca vai pensar nisto. Olhe, em 1976, quando fui para a GNR, a situação aqui em Portugal também foi complicada com o PREC, as ocupações, as bombas nas ruas.”
“Em 1968, já passei por isto com a despedida do meu namorado, que embarcou no ‘Vera Cruz’ para Moçambique, na Guerra do Ultramar. Então era mais difícil. Agora é mais fácil: menos tempo e vai-se voluntário”. Rute Silva recorda assim um quadro já visto. Desta feita para se despedir do cunhado do filho.
Finalmente, a chamada para o avião, o momento mais tenso da tarde. Um último abraço mais apertado, um último beijo mais longo, na namorada, na mulher, na mãe, nos filhos. As lágrimas são em silêncio. As mais sentidas.
APOIOS
'E-MAILS'
Mais de mil ‘e-mails’ de apoio, através do sítio da GNR, foram enviados por cidadãos comuns nos primeiros quatro meses de missão no Iraque.
FAMÍLIAS
A Comissão de Acompanhamento e Apoio à Família tem apoiado os familiares dos militares destacados no Iraque. Apoio psicológico, mas também pessoal.
DIFICULDADE
Uma das maiores dificuldades da GNR em Nassíria deve-se ao facto de as forças italianas não respeitarem o acordo do idioma inglês nas relações interforças militares e apenas se expressarem na sua língua natal.
CM SEGUE MISSÃO PORTUGUESA
A viagem e instalação do segundo contingente da GNR no Subagrupamento Alfa em Nassíria vai ser acompanhada pelo Correio da Manhã, através do jornalista Francisco J. Gonçalves. O nosso enviado especial vai permanecer naquela cidade iraquiana durante os próximos 25 dias. Nesse período, irá relatar a par e passo o dia-a-dia das nossas forças, o seu trabalho e a disposição dos homens e mulheres que vestem a farda da GNR – força policial portuguesa que coopera na democratização e estabilização da sociedade iraquiana pós-Saddam Hussein.
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