Júlio Manuel Magalhães Costa, conhecido por ‘capitão roby à moda do Minho’, acusado de ter burlado uma socióloga em 37 250 euros (um carro mais 9400 euros em dinheiro), foi ontem condenado pela Vara Mista do Tribunal de Braga a dois anos de prisão, suspensa por três anos.
A decisão foi do inteiro agrado da defesa, que até a considerou “uma vitória”, mas foi recebida com “enorme revolta” por parte da ofendida (ver caixa), cuja advogada pondera apresentar recurso da sentença.
Os factos remontam a 2003, quando Júlio Costa, 24 anos, “de boa aparência e bem falante” travou conhecimento com a socióloga Maria José, funcionária de uma companhia de seguros, e se apresentou como cardiologista e descendente de uma abastada família residente na Suíça.
Usando identidade falsa (dr. Pedro Muller) e apresentando documentos de identidade falsos, conseguidos no Consulado de Portugal na Suíça, quando por lá passou, em 2000, como estudante do Projecto Erasmus, Júlio Costa, residente em Valença, simulou uma forte paixão pela socióloga e ela acreditou “piamente” na ‘cantiga do bandido’.
“De mentira em mentira”, como ontem sublinhou o juiz, Júlio Costa foi urdindo um plano com o objectivo de extorquir dinheiro à ofendida.
DINHEIRO E UM CARRO
A par de um constante jogo de sedução, o ‘novo Capitão Roby’ foi pedindo à ofendida pequenas somas de dinheiro, alegando atrasos nas transferências de supostas contas da sua fictícia família suíça, que totalizaram 9400 euros.
Para além disso, conseguiu convencer a socióloga a avalizar-lhe um empréstimo bancário para a compra de um Renault Mégane, no valor de 27 850 euros.
Com as chaves do carro na mão, o jovem galante desapareceu, ficando a rapariga sem dinheiro e com o empréstimo de um carro para pagar. Ela apresentou queixa às autoridades policiais e tempos depois o carro foi detectado pela GNR de Valença, que o apreendeu e devolveu à dona.
Devido a este facto, o Tribunal entendeu que a indemnização civil, que a acusação tinha cifrado em 40 mil euros, devia ficar-se pelos 16 261 euros: 14 261 por danos materiais e 2 mil por danos morais.
No final da leitura do acórdão, o juiz recomendou ao arguido que arrepiasse caminho e que não quisesse “transformar-se numa celebridade”, numa alusão ao ‘Capitão Roby’.
'ISTO É UMA GRANDE INJUSTIÇA'
A jovem socióloga Maria José era ontem uma mulher desiludida e revoltada com a decisão proferida pelo Tribunal de Braga. Evitando sempre falar sobre o caso, a ofendida não conseguia esconder a mágoa que lhe afogava a alma, por ver que o homem que a “enganou” saiu em liberdade. “A gente farta-se de ler nos jornais sentenças de oito, nove e dez anos, pela prática de crimes de roubo e num caso destes o destino é a liberdade?”, questionou, com a voz embargada e as lágrimas a banhar-lhe o rosto, acrescentando que “isto é uma grande injustiça”. Apesar de a advogada admitir a apresentação de recurso, Maria José mostrava-se muito desgostosa e questionava se valeria a pena.
DEFESA ESPERAVA PENA MAIS PESADA
PENA LEVE
O advogado de defesa, João Magalhães, estava “muito satisfeito” com a decisão do Tribunal, tendo mesmo afirmado que se tratou de “uma vitória da defesa”. No final, o causídico até admitiu que a condenação foi suave e que estava à espera de uma pena bem mais pesada.
DESIGUALDADE
João Magalhães, ao comentar a decisão do tribunal, disse que, neste tipo de casos “há uma clara desigualdade” entre homens e mulheres: “Se fosse uma mulher a extorquir dinheiro a um homem, não haveria problema nenhum para a mulher”, disse o advogado
CADASTRO
Júlio Costa tem cadastro neste tipo de crimes. Já foi condenado a multa por abuso de confiança, é contumaz e tem mais seis processos por extorsão a mulheres – e, em todos os casos, utilizou a arma da sedução, como o velho ‘Capitão Roby’.
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