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Correio da Manhã

Portugal
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Sei que fui um monstro

O operador de máquinas detido a 30 de Agosto pela PJ de Aveiro por suspeita de ter abusado sexualmente da filha e de duas amigas, todas com 11 anos de idade, confessou ontem, integralmente, ao CM todos os crimes, definindo-se como “um monstro” que agora pede “perdão às vítimas e aos seus familiares”.
21 de Outubro de 2007 às 00:00
O homem levava as menores para o quarto para verem filmes pornográficos
O homem levava as menores para o quarto para verem filmes pornográficos FOTO: d.r.
As menores vão ser ouvidas para memória futura, para que não tenham de enfrentar o arguido. O homem aguarda o julgamento em liberdade, cumprindo, no entanto, algumas determinações impostas pelo tribunal.
“Tudo começou por uma brincadeira, com umas carícias nas pernas da minha filha, mas aos poucos as coisas descontrolaram-se e eu não consegui parar”, confessou o pedófilo a quem chamamos ‘António’ (nome fictício) para evitar a identificação das vítimas.
As meninas iam para o quarto do homem, com o pretexto de verem o Disney Channel, mas, na realidade, assistiam a filmes para adultos. Foi aí que, confessa, consumou os “actos sexuais, mas sem cópula”.
“Não sei o que me passou pela cabeça, e, agora tenho nojo de mim mesmo”, diz, ao mesmo tempo que afirma que os abusos pararam quatro meses antes da detenção, e depois de “pedir perdão” à filha.
“Fui um monstro, e não tenho perdão porque foi muito grave o que fiz”, acrescenta, resignado com a pena que lhe vier a ser aplicada.
“Já estou a pagar pelo que fiz. Não me posso sequer aproximar da minha filha nem de outras meninas menores de 18 anos, mas estou disposto a pagar muito mais na justiça”, explica o homem que foi obrigado pelo tribunal a deixar o apartamento no Bairro de Santiago onde vivia com a família. “Sei que tenho que pagar de qualquer maneira, não me posso queixar, porque foi um erro muito grave”, reafirma.
Afirmando que esta entrevista foi “a confissão de um pedófilo”, o homem diz compreender o facto de ser alvo de discriminação.
“No trabalho, há colegas que me viram a cara, mas não lhes levo a mal porque têm razão e vêem que fui um pedófilo”, diz.
Apesar de se ter mudado para outro ponto da cidade de Aveiro, também já há quem tenha medo dele, mas, garante, “não há razão para isso”. A sua preocupação é reabilitar o seu nome, “pagar pelos crimes e seguir em frente”. Sabe, no entanto, que muita gente o quer ver morto. “Eu próprio estou a acabar com a minha vida e o meu maior tormento é ter de viver com isto. E, neste momento, já me estou a ir abaixo”.
Apesar de toda a recriminação social, ‘António’ manteve o emprego, aguardando, agora a condenação dos tribunais. Está também a ser seguido por um psiquiatra, cumprindo assim outra das determinações do tribunal.
ABUSOU DA SOBRINHA
Foi a irmã de ‘António’ que descobriu tudo quando começou a notar alguns sinais dos abusos na sobrinha. Bastou uma confidência da tia à menina, confessando-lhe que também ela foi abusada pelo próprio pai, avô da menor, para que esta se desfizesse em lágrimas e contasse tudo. A descoberta destes crimes, levou outra sobrinha do homem, já adulta, a ganhar coragem e a revelar à PJ de Aveiro que também ela já tinha sido vítima do apetite sexual deste indivíduo, quando era ainda uma criança. ‘António’ também confirma estes abusos, mas, é incapaz de explicar porque os cometeu. Este caso, embora não tenha já qualquer relevância jurídica, uma vez que os crimes já prescreveram, serve, segundo a PJ, para avaliar o perfil psicológico do suspeito.
O CM sabe que as crianças já foram notificadas para serem ouvidas para memória futura no Tribunal de Aveiro. Com isso, o tribunal quer poupá-las ao choque de reverem o abusador, evitando que tenham de relatar todos os abusos durante o julgamento.
"PEDÓFILO SABE QUE É INCORRECTO" (Santinho Martins, médico de sexualidade)
Correio da Manhã – O pedófilo entende que o abuso é incorrecto?
Santinho Martins – O pedófilo age por impulso não consegue evitar. Fica ansioso e só acalma quando pratica o acto. Depois cai em si e sabe que não está correcto o que fez.
– É frequente o pedófilo confessar o crime?
– Quando percebe que não ganha nada em estar a negar confessa, com o objectivo de que a pena venha a ser diminuída na sentença.
– Não há, no entanto, uma grande disponibilidade do pedófilo para se tratar...
– É verdade. Mas também não há, por parte das autoridades, grande preocupação na criação de meios que incentivem ao tratamento. Surgem iniciativas de prevenção do género dos pedófilos serem identificados pelos vizinhos, mas também são necessários programas de tratamento.
SAIBA MAIS
6200 sites com imagens de pornografia que envolvem crianças e adolescentes foram contabilizados pelo Censura, um espaço na net para denúncia de casos de pedofilia. Os sites continham cerca de 900 fotos e 300 vídeos.
95 por cento dos consumidores de pornografia infantil sofreram eles próprios abusos sexuais na infância, revelam especialistas nesta área.
ORIGEM
A pedofilia é considerada uma desordem mental e como um desvio sexual pela Organização Mundial de Saúde. Resulta da atracção sexual de um indivíduo adulto por crianças. A palavra deriva do grego.
CASOS
Portugal começou a ficar mais desperto para o tema quando rebentou, na Bélgica, o escândalo de Marc Dutroux, o pedófilo acusado de matar duas adolescentes.
PERFIL
Segundo os especialistas, os pedófilos são solteiros, têm pouco mais de 40 anos de idade e costumam ser profissionais liberais.
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