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Correio da Manhã

Portugal
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Sem-abrigo acusam gestor de represálias

Os utentes do Centro de Acolhimento de Xabregas (CAX), em Lisboa, gerido pelo Exército da Salvação, denunciaram a morte de uma mulher sem-abrigo, de 63 anos, e acusam o gestor do centro, João de Barros, de represálias.
18 de Janeiro de 2011 às 00:30
Centro está sob a administração do Exército de Salvação. Osvaldo Moleirinho queixa-se do gestor
Centro está sob a administração do Exército de Salvação. Osvaldo Moleirinho queixa-se do gestor FOTO: Sérgio Lemos

Em declarações ao CM, Osvaldo Moleirinho, de 53 anos, utente do CAX há mais de dez, conta que a mulher que morreu à porta do centro, em Fevereiro do ano passado, foi impedida de entrar para dormir porque, simplesmente, se esqueceu de entregar a chave do cacifo na noite anterior. "Desde que aqui chegou, em 2007, que João de Barros impôs regras e até a comida piorou", explica, sublinhando que "os utentes são obrigados a pagar um euro se querem comer". Segundo Osvaldo, já foram muitos os sem-abrigo que foram dormir sem a única refeição que têm por dia.

Osvaldo acusa ainda João de Barros de ter proibido o fornecimento de produtos de higiene e de ter retido o correio dos utentes como castigo por terem protestado contra uma festa no centro. "Fizeram uma festa, em Junho de 2010, e só nos deixaram ir para os quartos quando acabou", conta, acrescentando que ficaram na rua à espera.

"Somos sem-abrigo, mas não somos animais", lamenta, acrescentando que a câmara municipal, que financia os encargos do centro em 50%, lhes garantiu há três semanas que ia resolver o problema.

Após várias tentativas, por telefone e e-mail, não foi possível obter qualquer comentário da parte da Câmara Municipal de Lisboa, nem confrontar o gestor do centro com as acusações dos utentes do Centro de Xabregas.

AUTARQUIA CONTRIBUI COM 50%

Os utentes decidiram apresentar queixa à Câmara Municipal de Lisboa (CML), presidida por António Costa, porque esta entidade financia 50% dos encargos do Centro de Acolhimento de Xabregas (CAX), além de emprestar o apoio técnico. Segundo Osvaldo Moleirinho, o caso foi denunciado à autarquia em Junho. Já terão ocorrido três reuniões, a última há três semanas. O caso foi remetido por António Costa para a Acção Social da autarquia, tutelada pelo vereador Manuel Brito. O utente sublinha que na queixa que fizeram contaram tudo, incluindo o facto de saberem que para um jantar de despedida de um major do Exército da Salvação, que foi para o Brasil, foi levada carne do CAX. "Não creio que falte dinheiro, porque o CAX também recebe mais de 19 mil euros por mês do Instituto de Segurança Social", conta, sublinhando que João de Barros, quando chegou à direcção, fez muitos cortes na despesa, mas não "poupou em secretários".

DCIAP ABRIU INQUÉRITO À MORTE DA IDOSA

A investigação da morte da sem--abrigo de 63 anos à porta do Centro de Acolhimento de Xabregas (CAX) está a cargo do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, chefiado por Cândida Almeida, depois de os utentes terem feito queixa à Procuradoria-Geral da República. Segundo um dos utentes, que prefere manter o anonimato, a mulher foi encaminhada para o CAX pela linha de atendimento da Cruz Vermelha, numa sexta-feira. "Via-se que era uma mulher doente, física e psicologicamente", diz a mesma fonte, sublinhando que a idosa saiu na manhã de sábado sem entregar a chave do cacifo. Quando voltou à noite, foi impedida de entrar e ficou a dormir na rua. "Um funcionário ligou duas vezes para o senhor João, mas ele não deu autorização para a deixar entrar".

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