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Correio da Manhã

Portugal
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SENHORA DO CABO SEMPRE EM RODA-VIVA

A paróquia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, sedeada na igreja com o mesmo nome naquela cidade, está a cumprir a sua parte na tradição religiosa do giro da Nossa Senhora do Cabo Espichel e procede hoje à entrega desta veneranda imagem à paróquia de São Martinho de Sintra.
18 de Setembro de 2004 às 00:00
Trata-se de uma tradição com raízes na Idade Média, conhecida por giro de Nossa Senhora do Cabo Espichel ou, também, por círio. Sempre envolveu o clero local e muito povo, sobretudo o da chamada região saloia, afamando-se por luzidos cortejos com anjos e guerreiros a cavalo e pelo cantar das loas em honra da Virgem. Nesse tempo, a realeza participava nas solenidades e festejos dedicados a uma imagem cercada por ecos de graças e milagres.
NÃO PÁRA DESDE 1431
Até onde a história permite descortinar, o início da longa – e praticamente nunca interrompida viagem de Nossa Senhora do Cabo Espichel – começou na paróquia de São Vicente de Alcabideche, no século XV. A pequenina imagem de madeira, que representa a Virgem com o Menino ao colo, saiu de Alcabideche em 1431, para ser entregue à guarda e veneração da vizinha paróquia de São Romão de Carnaxide, onde esteve exposta à adoração dos fiéis durante um ano. Daqui rumaria a São Julião do Tojalinho, onde parou mais um ano.
O resto do giro já se adivinha: como as paróquias visitadas pela imagem somam 26, Nossa Senhora de Cabo Espichel só voltará a Odivelas, de onde se despede hoje, dentro de 26 anos, isto é, em 2029. Este facto confere mais religiosidade à presença da Virgem em cada uma das terras envolvidas na sua recepção.
Disto dá exemplo Maria Beatriz Rolim, uma devota de Odivelas que ontem colaborava com outras paroquianas no arranjo da igreja matriz para que o templo podesse luzir hoje na cerimónia de entrega da imagem a Sintra: “Estou a judar a enfeitar os altares com muita alegria e fé, porque o meu pai foi, há 52 anos, o Juiz desta linda festa.”
UUM ESPÓLIO DE DEVOÇÃO
Maria Máxima Vaz, a presidente da comissão, diz que “há que engrandecer a força espiritual desta tradição, o seu profundo envolvimento popular e a intensidade com que atinge o coração de muitos milhares de pessoas nas 26 terras visitadas pela imagem”. Aliás, o espólio de Nossa Senhora do Cabo Espichel, acumulado ao longo de séculos, prova bem a devoção popular à imagem. Entre as muitas ofertas “está uma vara de prata – que é levada pelo Juiz do Círio cada terra durante as cerimónias de entrega da imagem –, bem como mais 188 peças em ouro e 40 mantos para vestir a imagem, todos eles ricamente bordados a fio de ouro e prata”.
A tradição do giro não toca apenas aos mais simples. Segundo acrescenta a presidente da comissão, “reis e rainhas foram devotos de Nossa Senhora de Cabo Espichel, tanto que D. Maria I, quando a Corte se viu obrigada a procurar asilo no Brasil, devido à ameaça das Invasões Francesas, levou consigo o manto que havia oferecido a esta imagem, ao qual confiou a protecção da Casa Real e do reino”.
PASSAGEM DE TESTEMUNHO
Para despedida da imagem de Nossa Senhora do Cabo Espichel, a paróquia de Odivelas realizou uma procissão das velas na noite de ontem. Hoje, pelas 11h00, na Igreja Matriz, celebra-se Missa solene. Cerca das 12h00, Nossa Senhora de Cabo Espichel será conduzido em procissão para o Mosteiro de São Dinis e São Bernardo.
Aqui tem lugar a cerimónia de entrega da imagem a São Martinho de Sintra, que para o efeito faz deslocar a Odivelas a sua representação. Esta cerimónia é a mesma que se repete em todas as 26 paróquias do giro, sendo acompanhada pela passagem da vara de prata do cessante Juíz do Círio de Odivelas ao novo Juíz do Círio de São Martinho de Sintra.
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