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Correio da Manhã

Portugal
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SENTIMOS UMA DOR PROFUNDA

“Sentimos que não somos nada; que não valemos nada”. É assim que Lino Gonçalves, pai do bebé que morreu no Hospital Amadora-Sintra, se sente depois de a Ordem dos Médicos ter ontem posto em causa os peritos da Inspecção-Geral da Saúde que investigaram o caso do seu filho e concluíram tratar-se de um erro médico, nomeadamente a má utilização do fórceps.
6 de Janeiro de 2003 às 00:00
“O bastonário pensa que eles é que mandam mas não mandam nada. A Inspecção-Geral de Saúde é o único meio que as pessoas têm para se queixar e nós vamos fazer tudo para que seja feita justiça”, avisa Lino Gonçalves.

O pai do bebé falecido recusa porém imputar todas as culpas ao médico obstetra: “estão a tentar empurrar as responsabilidade para ele, mas não é o único culpado. O hospital tem de ser responsabilizado”.

Lino e Ana Gonçalves atribuem ao Amadora-Sintra a culpa de destruir um sonho que garantem ter conseguido tornar realidade: “íamos ter um filho 100 por cento saudável”. Seria o Jonhthon. Mas, no dia 2 de Março, o final feliz que Lino e Ana esperavam transformou-se numa história de dor, frustração, medo, desespero e revolta. Nesse dia, segundo revelou a Lusa, o filho de Ana Gonçalves, depois de 13 horas de trabalho de parto, nasceu com o crânio esmagado. Ana, recorda o seu marido, apercebeu-se: “Estava aflita, virou-se para mim e disse: a culpa é deles”. Desde então a família Gonçalves convive todos os dias com a dor e frustração “Temos uma filha de dois anos e meio, a Nikita, que é deficiente, não anda nem fala. E há quatro anos e meio tínhamos perdido outro filho. Por isso fizemos todos os testes e com este estava tudo bem”, diz Lino.

Em casa da família Gonçalves estava tudo preparado para receber o Jonhthon. Aliás, o pai confessa que ainda hoje lá está “a cama e as roupas que iriam dar ao filho”. “Sentimos uma dor profunda. Uma coisa que ninguém consegue perceber. É inexplicável”.

MEDO E DESESPERO

À dor junta-se o medo e o desespero diário. O medo de terem um novo filho e passar pelo mesmo. O desespero de não saberem a quem pedir ajuda. “Onde é que podemos recorrer para ter apoio psicológico?”, pergunta, para a afirmar de imediato: “Desde que tudo aconteceu nunca ninguém do hospital falou connosco”. E, lembra o pai, durante sete meses nem sequer tinham conhecimento do paradeiro do corpo do bebé, que tinha sido enviado para o Instituto de Medicina Legal a nove de Julho.

Lino tentou ainda falar com o médico obstetra, a quem a Inspecção-Geral imputa responsabilidade e aconselha o afastamento do Hospital Amadora-Sintra, mas não conseguiu. Ao Correio da Manha o médico recusou-se também a prestar quaisquer declarações.
O caso está agora no Ministério Público. “Se o caso não for resolvido em Portugal vamos para o Tribunal Europeu”, garante.

Lino e Ana têm apenas uma única certeza: “nada nos vai trazer o nosso filho de volta” .

ORDEM CRITICA INSPECÇÃO-GERAL

O bastonário da Ordem dos Médicos, Germano de Sousa, acusou ontem a Inspecção-Geral da Saúde (IGS) de "não recorrer aos melhores peritos" para investigar casos de alegada negligência medica e de colocar o caso nas mãos de um jurista e não de um médico".

Mas segundo a Lusa, o parecer que aponta para erro médico foi feito por perito altamente credenciado de Maternidade Alfredo da Costa. O caso está, agora a ser investigado também pelo conselho disciplinar da Ordem.

Da parte do Hospital, Salvador de Melo confirmou ter conhecimento do resultado da investigação da IGS e diz aguardar a "apreciação e parecer do conselho de especialidade da Ordem dos Médicos", não referindo se irá afastar o clínico, como é aconselhado pela IGS.

CIRURGIAS COM POUCOS MÉDICOS PARA POUPAR

A ausência de um segundo médico na sala de fórceps, como mandam as regras, terá, contribuído, segundo a Inspecção-geral de Saúde, para o desfecho fatal do caso do bebé que nasceu com o crânio esmagado a 2 de Março no Hospital Amadora – Sintra.

Mas, segundo António Bento, presidente do Sindicato Independente dos Médicos, a ausência do número de médicos consoante as boas normas é uma situação que se verifica em muitos hospitais do País, porque as administrações querem poupar e por existir falta de profissionais.

“Isso não se passa só no Amadora-Sintra, mas em muitos hospitais. Por um lado há falta de médicos, por outro as administrações ao escalarem dois médicos têm de pagar o dobro e não o fazem”, explica António Bento.

O responsável defende, por isso, que os médicos não podem ser responsabilizados pela falta de condições e avisa que com este caso, muitos profissionais vão recusar-se a fazer fórceps, e outras intervenções, sem outro profissional. “Os médicos fazem as intervenções sem todas as condições porque é a única possibilidade de, muitas vezes, as pessoas serem tratadas. Este teve azar e agora nenhum médico vai aceitar trabalhar sozinho”.

António Bento recorda que tanto o sindicato como a Ordem diz Médicos já alertaram para o facto de “muitos Serviços de Atendimento Permanente, assim como urgências, funcionarem apenas com um médico”. “Quando aparecem mais doentes o médico está ali sozinho”.

As críticas vão por isso para a forma como o Ministério da Saúde resolve estes casos de alegados erros e negligência médica. “A Inspecção-Geral de Saúde não devia ir investigar só depois de acontecerem os problemas. A Inspecção-Geral devia era, antes, ir aos hospitais verificar e investigar a falta de condições com que os médicos trabalham”, acusa o dirigente sindical.

António Bento aproveita ainda para referir que esta falta de condições pode ser agravada com os novos hospitais empresa: “Com a fúria de contenção e por serem geridos com pessoas nada sensíveis à saúde são capazes de surgir, em breve, alguns problemas”.
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