Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
5

Serial killer faz crimes em nome da vítima

Arrenda armazém para carros roubados. Faz queixa para enganar seguro. Paga prestações. Vende carro. Tudo com a identidade de Ivo.
23 de Julho de 2010 às 00:30
Serial killer faz crimes em nome da vítima
Serial killer faz crimes em nome da vítima FOTO: Vasco Neves

No dia em que Tânia Ramos foi assassinada e o cadáver escondido, a 5 de Junho de 2008, Ivo Delgado já tinha o mesmo destino traçado. Francisco Leitão não lhe perdoou ter trocado a relação gay pelo namoro com a primeira vítima. Por isso esperou 16 dias, na Lourinhã, ajudando a mãe de Tânia a participar o desaparecimento à GNR, e matou o jovem de 22 anos a 21 de Junho. A Polícia Judiciária acredita que mais uma vez enterrou o corpo – e, neste caso, foi ainda mais perverso a iludir a família. Dois anos. Convenceu os pais de que Ivo fugira, forjando cartas, fotos e SMS; e passou aos crimes com a identidade da vítima. Em seu nome, arrendou por exemplo um armazém para esconder carros roubados. E voltou a matar este ano, Joana, por namorar com um rapaz que ele desejava.

Ao matar Ivo roubou-lhe o Audi A4, telemóvel, cartões multibanco, de crédito, de contribuinte e bilhete de identidade da vítima. Convenceu primeiro Manuel e Cecília Delgado de que o filho partira em fuga à polícia – e pediu dinheiro e comida para lhe levar. Além de um carregamento de telemóvel, através do qual enviou SMS à família em nome de Ivo a dizer que estava bem. Levou o pai da vítima de carro a Espanha, mas, à chegada, simulou um telefonema de Ivo para si a pedir que regressassem. Estariam a correr "perigo", recordaram ao CM familiares.

A seguir, Francisco escreveu cartas à irmã de Ivo, Marlene, em nome da vítima. E forjou fotografias do jovem desaparecido, com imagens de um país estrangeiro em fundo. Levantou dinheiro dos cartões da vítima – e conseguiu até pagar, com o dinheiro de Ivo, prestações do carro que lhe roubara.

Por fim, explorou a identidade do jovem morto para cometer crimes. Em nome de Ivo arrendou um armazém nas Caldas da Rainha para esconder carros roubados; foi apresentar uma queixa de roubo de uma câmara de vídeo e deu a identidade da vítima enquanto testemunha, só para receber o reembolso do seguro. E, mais recentemente, forjou uma declaração de venda de outro carro de Ivo, um Renault Clio, para ficar com o dinheiro.

Este ano, nova paixão gay por um rapaz, Luís; e nova desilusão. Tinha namorada. Por isso Joana Correia, aos 16 anos, foi o alvo seguinte. Morta a 3 de Março e corpo escondido. O serial killer, até ser agora caçado pela Unidade Contra-Terrorismo da PJ, iludiu os pais da vítima. Foi até Espanha com o telemóvel desta, para enviar SMS a partir dali, parecendo que a jovem estava no estrangeiro.

"ONDE ESTÃO OS CORPOS?"

Cecília Delgado, mãe de Ivo, foi uma das primeiras pessoas a chegar ontem de manhã ao Tribunal de Torres Vedras. Toda vestida de preto, a mulher ainda não se conforma com a morte do filho mais velho. E nem mesmo com a medida de coacção mais gravosa conhecida a meio da tarde. "Quero que ele diga onde estão os corpos", exigiu, desabafando que "a melhor decisão era fazer justiça com as minhas próprias mãos, porque ele é muito esperto e tem uma grande lábia". "Estando preso pelo menos não vai encobrir pistas", adiantou, levantando a hipótese de não ter actuado sozinho.

Entretanto, na serra do Calvo, Lourinhã, Maria das Dores Delgado, a avó de 85 anos, desesperava com a morte do neto mais velho. "Ele foi iludido por aquele homem. Sempre gostou de carros e motas e com o Francisco ele tinha isso tudo", disse, em lágrimas, a idosa, que chegou mesmo a conhecer o homem que matou o neto. "Ele veio a minha casa uma vez e até me convidou a ir a casa dele", lamentou.

Os pais de Ivo nunca concordaram coma amizade com Francisco. "O pai avisou-o tantas vezes, e ele não quis ouvi-lo", lamenta a avó.

"O LUÍS ACORDA À NOITE E VOMITA COM OS NERVOS"

Luís Pinheiro, de 17 anos, teve a primeira consulta com um psicólogo ontem à tarde. O jovem que dormia em casa do assassino da própria namorada – a última vítima, Joana Correia – garante à família que não mantinha qualquer relação gay com o ‘rei dos gnomos’. "Ele garantiu à família que nunca se apercebeu de que o Francisco era homossexual e que nunca houve nenhuma relação entre eles. Eram apenas amigos", defendeu a avó, Maria Pinheiro, que se mostra preocupada com o neto. Luís tem-se mostrado agressivo. E recusou-se ontem a falar ao CM.

"Ele acorda várias vezes à noite e até vomita com os nervos. Está muito revoltado com a situação e gostava muito da namorada. Nunca pensou que ela estivesse morta. Quando ela desapareceu, pensava que tinha ido para Espanha e até reagiu bem. O pior foi agora. Ele até já falava dela aqui em casa. Um dia, até lhe pedi para me apresentar a namorada", acrescentou a mulher.

Luís Pinheiro passou para o 12º ano numa escola das Caldas da Rainha e, na maior parte das vezes, era Francisco Leitão quem o ia buscar à escola e o levava a casa. "Cheguei a vê-lo quando trazia o meu neto à noite, mas nunca falei com ele. Nem quero acreditar numa coisa destas. Ainda por cima o Luís ficou muito afectado, porque pensava que era amigo dele", disse avó.

Luís gosta de sair à noite com os amigos, mas ultimamente passava a maior parte do tempo entre Carqueja e Sobreiro Curvo, em A dos Cunhados, onde morava a namorada com os pais. Recorde-se que os vizinhos de Joana já tinham dito que viam a jovem de 16 anos com três homens. Tratava-se de Francisco Leitão, Luís Pinheiro e Daniel, um dos protagonistas de um vídeo que está no YouTube, no qual o jovem de 16 anos aparece de mãos dadas com o ‘rei dos gnomos’. Daniel é um dos melhores amigos de Luís e tem em comum o facto de o amigo também não ter uma boa relação com a família. Ontem, o rapaz estava em casa da avó Rosário, que disse ao CM não ter nada para comentar.

Segundo um vizinho, o jovem chorou no dia em que soube da detenção do serial killer pela PJ.

PAI PEDE PARA QUE O DEIXEM ESTAR EM PAZ

O pai de Francisco Leitão reside actualmente em Setúbal. Também ele tem uma relação algo conturbada com os vizinhos, estando envolvido numa disputa relacionada com a compra de um prédio na mesma cidade. De momento vive com uma companheira num apartamento que pertence à própria, no sexto andar de um prédio de habitação na capital do Sado. À chegada ao local, foram as próprias vizinhas que confirmaram ao CM qual o apartamento onde o casal reside.

A voz feminina que respondeu no intercomunicador parecia surpreendida e não respondeu a qualquer pergunta feita a partir do exterior do prédio. Já à porta do apartamento, ouvia-se algumas vozes no interior do mesmo e sombras que denunciavam estar alguém à espreita do outro lado.

Menos de dez minutos depois, a porta é aberta de rompante, com o pai de Francisco Leitão a mostrar--se visivelmente irritado com a presença de jornalistas. "Não posso estar em paz na minha própria casa?", gritou. Esta foi a única coisa que disse, de forma bastante agressiva. Fechou a porta com grande violência, ainda antes que qualquer outra palavra pudesse ser proferida.

 

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)