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Correio da Manhã

Portugal
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SESTA NÃO É VÍCIO PREGUIÇOSO

"A sesta não é um vício preguiçoso, mas uma pausa de saudar", afirmou ontem o advogado e escritor Prates Miguel, à saída do Cartório Notarial de Ansião, onde foi assinada a escritura de constituição da Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta (APAS).
3 de Junho de 2003 às 00:00
O descanso depois do almoço é considerado como um tónico para a produtividade e bem-estar
O descanso depois do almoço é considerado como um tónico para a produtividade e bem-estar FOTO: Pedro Catarino
E no dia em que foi formalizada a associação, a Adega Cooperativa de Vila Nova de Foz Côa foi a primeira a dar o exemplo ao permitir, desde ontem, que os seus funcionários durmam a sesta, passando a hora do almoço a durar 3 horas.
Constituída com o propósito de promover e divulgar os benefícios da sesta "enquanto repouso intercalar na actividade laboral", a nova associação começou a despertar reacções mesmo antes da sua formalização.
E, a julgar pela quantidade de telefonemas recebidos na manhã de ontem no escritório de Prates Miguel (sede provisória da APAS), as pessoas interessadas em aderir ao movimento ultrapassam já as melhores expectativas.
O ex-presidente da República, Mário Soares, foi o primeiro a ser convidado para sócio honorário, mas "ainda não se pronunciou", disse José Miguel Medeiros, deputado à Assembleia da República eleito pelo PS, e um dos 15 sócios fundadores da nova associação.
Para fundamentarem o resgate de um costume que já esteve enraizado em Portugal, em particular nas zonas rurais, os fundadores da APAS, referem como exemplo a China ou o Japão. No primeiro caso, o direito ao descanso (Xiu-Xi) está consagrado na Constituição. No Japão, são muitas as empresas que impõem um período de repouso aos trabalhadores.
José Miguel Medeiros, ressalva, no entanto, que o objectivo da associação "não é fazer uma Lei da Sesta", mas apenas promover a reflexão em torno do tema. O deputado considera que "a sesta não é uma provocação ao trabalho", mas um elemento da nossa cultura que pode contribuir para melhorar a qualidade de vida. Neste contexto, defende "a criação de espaços nas estradas e auto-estradas", onde as pessoas possam praticar uma sesta em tranquilidade.
O deputado diz que a APAS é "um pontapé no pessimismo" que grassa no País e espera que a ideia da sesta venha a ser adoptada no meio laboral, de forma consensual. "Se as empresas têm cantinas, porque não terem espaços para as pessoas descansarem", interroga.
ESTUDOS CIENTÍFICOS INSUFICIENTES
Os vários estudos científicos efectuados até agora referem que a prática da sesta contribui para reduzir o risco dos acidentes de trabalho e aumentar o rendimento dos trabalhadores.
O presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral, Luís Pisco, reconhece que "se uma pessoa puder descansar, não faz mal nenhum". Porém, ressalva a necessidade de mais evidências científicas para encarar a sesta como um remédio a prescrever.
Para João Proença, secretário-geral da UGT, a pausa após o almoço é "uma questão em aberto" que "deve ser ponderada no quadro da negociação colectiva". Mas após melhor clarificação médica.
Confessando-se "não praticante" da sesta, o bispo D. Januário Torgal Ferreira, admite esta prática como "algo que faz bem e é necessária" a algumas pessoas.
Todavia, teme que "num País habituado a preguiçar, esta questão seja mais um mote para ironias e piadas académicas". A Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) optou por não comentar o assunto.
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