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Correio da Manhã

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Silêncio médico aumenta sofrimento do paciente

Os erros médicos em oncologia foram um dos temas em debate no segundo dia da 41.ª reunião da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o mais importante congresso mundial sobre o cancro, a decorrer em Orlando, Florida, nos EUA.
16 de Maio de 2005 às 00:00
Um conjunto de oradores, entre eles uma doente com cancro da mama, deram pistas para qual o melhor caminho a seguir quando o erro acontece. E todos foram unânimes em afirmar que o silêncio apenas aumenta o sofrimento.
Informar o doente é, de acordo com Katherine Rich – escritora e sobrevivente ao cancro da mama há 17 anos –, uma forma de estabelecer uma relação de confiança entre médico e doente. “E é fundamental para a cura. Se não conseguirmos confiar no médico, todo esse processo é interrompido”, explicou.
A vulnerabilidade inerente ao relacionamento entre médicos e doentes foi realçada nas palavras de Michael Rowe, sociólogo e autor de um livro que relata episódios vividos com o filho que morreu, aos 19 anos, na sequência de complicações depois de um transplante de fígado. “A história do meu filho revela os passos da construção de uma relação de confiança com o médico, da perda dessa confianca, de gratidão, raiva… São experiências que marcam e os médicos tem um papel nelas.”
O efeito do erro foi também avaliado numa sessão sobretudo educativa, onde a especialista em bioética Antonella Surborne deixou claro que “o objectivo dos médicos é tratar o doente que sofre. Seja qual for a razão, os erros apenas aumentam esse sofrimento”.
PREVENÇÃO SEMPRE PRESENTE
Já da parte da tarde, os trabalhos começam com novas palestras. São apresentados cerca de 20 temas diferentes ao mesmo tempo. De mapa em punho, um grupo de especialistas alemães procura a sala certa. Tudo é grande na Florida e o local escolhido para a maior reunião de oncologia não foge à regra.
Centenas de salas, espalhadas por corredores que se estendem até perder de vista, obrigam os médicos a um exercício acrescido. Encontrar o que se pretende não é, pois, tarefa fácil. Sozinhos ou em grupo, os especialistas consultam o programa, um livro com mais de mil páginas, vezes sem conta, e planeiam a melhor estratégia para fazer frente a tanta informação.
Na sala 311C, Robert Mayer, director do Centro norte-americano para Oncologia Gastroentestinal, faz as primeiras apresentações e começa por explicar que “prevenir o cancro e tão importante como tratar a doença. E a prevenção pode ter várias formas: o rastreio, evitar o tabaco, mudar os estilos de vida ou a medicação, que permite alterar o risco”. O tema esta lançado. Não foi o primeiro do dia e nem será o último.
Falta pouco para o final dos trabalhos. Os autocarros que transportam os médicos para os hotéis estão a postos. Quem sabe talvez ainda haja tempo para uma visita a um dos famosos parques temáticos de Orlando, como a Disney World.
"OS SENHORES DOUTORES GOSTAM QUE LHES TIREM A FOTO
Desde canetas, livros, blocos de apontamentos, software ou cobertores, passando pelo café, bolachas ou gelados, o espaço de exposições do Centro de Congressos Orange County, em Orlando, na Florida, onde decorre a reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), tem de tudo um pouco. Lado a lado, associações de doentes, sociedades médicas e laboratórios farmacêuticos partilham o mesmo espaço, mas são os ‘stands’ da indústria dos medicamentos que conquistam mais adeptos.
De saco ao ombro, os especialistas correm os espaços em busca dos melhores brindes. As canetas gravadas com o nome dos participantes seduzem e a fila conta já com mais de dez pessoas que aguardam pela sua vez.
Mais à frente, a oferta é de um cartão com fotografia, tirada na hora, para pendurar na mala. De máquina em punho, Leandra, brasileira do Rio de Janeiro, arma um sorriso e dispara o flash. “Temos tido muita gente”, conta ao CM. “Os senhores doutores gostam que lhes tirem a foto.”
A prová-lo está a agitação um pouco mais à frente, no balcão de informações da ASCO. Heather, uma das funcionárias de serviço, não tem mãos a medir. A organização do congresso disponibiliza uma fotografia dos participantes, para mais tarde recordar. Ninguém quer deixar de eternizar o momento. Clic!
O FECHAR O DIA
ESTATINAS COMBATEM
As estatinas, substâncias conhecidas pelas suas propriedades no tratamento dos problemas de colesterol, podem reduzir o risco de cancro da mama. Um estudo realizado no Centro Médico de Louisiana, nos EUA, e apresentado ontem na reunião da ASCO, revelou que, depois de controlados o consumo de álcool, tabaco e os problemas de diabetes, o risco de desenvolver a doença baixava para os 51 por cento entre as mulheres que usaram as estatinas. São, no entanto, necessários mais estudos para comprovar os benefícios destas substâncias na prevenção do cancro. “Se estes resultados forem confirmados, as estatinas podem ter um papel importante na prevenção”, diz Vikas Khurana, um dos autores do estudo.
FUMAR NEM NA RUA
“Os médicos devem dar o exemplo.” Esta é a opinião de David Johnson, oncologista e presidente da ASCO, quando o tema é o tabaco. Por isso, é proibido fumar em todas as salas, corredores e até mesmo na rua, nas imediações do centro onde decorre a reunião, o que vai ao encontro do lema da ASCO: “Melhorar o tratamento e prevenção do cancro.”
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