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Correio da Manhã

Portugal

Silves contra alta tensão

A alteração do traçado da linha de muito alta tensão entre Portimão e Tunes, no Algarve, anunciada pela empresa Rede Eléctrica Nacional (REN) para salvaguardar vestígios arqueológicos existentes na localidade de Vale Fuzeiros, não convenceu os moradores de Silves, que iniciaram ontem, ao início da tarde, uma vigília e greve de fome junto ao Palácio de São Bento, em Lisboa.
24 de Outubro de 2007 às 00:00
Nove pessoas, cinco das quais estrangeiras, chegaram ontem a São Bento. Protesto é para continuar 'até haver uma solução'
Nove pessoas, cinco das quais estrangeiras, chegaram ontem a São Bento. Protesto é para continuar 'até haver uma solução' FOTO: Mariline Alves
Sérgio Santos, representante da Associação de Moradores de Vale Fuzeiros, garante que “o traçado fica igual e o desvio é só local, de cerca de três quilómetros, pelo que não interessa”, considerando que “esta é uma tentativa de desmobilização que não vai ao encontro dos nossos interesses, porque beneficia Vale Fuzeiros mas não o resto da população”.
O representante dos moradores defende que a situação é “aberrante”, uma vez que diz haver “uma extensão por onde a linha podia passar sem destruir as potencialidades turísticas e económicas da zona, nem afectar a população, mas como não tem acessos fáceis fica mais cara à REN”, enquanto um traçado mais a sul representa menores gastos.
No protesto, que vai durar “até haver uma solução”, estão envolvidas nove pessoas, incluindo cinco estrangeiros, “que investiram na zona”, disse ao CM o porta-voz, acrescentando que “esta medida vai afectar toda a actividade de uma região que vive do turismo, estando até aprovado um projecto para construção de um aldeamento turístico no local por onde passa a rede”.
Sérgio Soares lamenta ainda que a população só tenha sido contactada depois de a decisão de instalação da linha já ter sido aprovada. “Estamos fartos de ser enganados e tudo o que sabemos é através da Comunicação Social”, desabafa.
Autarca teve uma surpresa “Surpreendida”: foi assim que a presidente da Câmara de Silves ficou ao tomar conhecimento das declarações do ministro do Ambiente sobre a alteração do traçado da linha de muito alta tensão entre Tunes e Portimão. “Desde sexta-feira que andamos a tentar ser recebidos pelo ministro e ainda não tivemos qualquer resposta”, explicou a autarca ao CM. “No entanto, o ministro tem tempo para fazer declarações aos jornalistas.”
Isabel Soares ressalva que tem “uma boa impressão e o maior respeito” por Nunes Correia, mas lamenta só ter tido conhecimento da decisão “pela imprensa”.
A autarca, de resto, nem tem conhecimento de qual será o traçado que vai ser adoptado. “Existem dois, inicialmente propostos pela REN, um através de Vale Fuzeiros e outro mais a norte, mas nenhum era bom”, disse ao nosso jornal.
Insatisfeita com as duas alternativas, a autarquia propôs uma terceira, ainda mais a norte, e a própria REN apresentou uma quarta mas “que nem foi a estudo de impacte ambiental”, garante Isabel Soares. A presidente da Câmara de Silves vai ficar à espera da informação oficial sobre o traçado escolhido.
O porta-voz da Associação de Moradores de Vale Fuzeiros não duvida que qualquer opção “vai afectar seriamente a população” e que os habitantes não vão desistir. “Só queremos salvar o nosso património. A REN é uma empresa com poder e por isso recorremos ao Governo para nos ajudar a resolver o problema”. É esse o objectivo do protesto, ao qual se juntam hoje cerca de 200 pessoas.
LINCE IBÉRICO EM PERIGO
As preocupações da população de Silves em relação à instalação da linha de muito alta tensão entre Portimão e Tunes parecem ser partilhadas pelo ministro do Ambiente. Nunes Correia garante que foi feita uma avaliação de impacte ambiental e propôs à REN que reconsidere o traçado, tendo em vista o bem-estar das populações. O traçado da linha será desviado para norte de Vale Fuzeiros, zona considerada essencial para duas espécies em vias de extinção: a águia bonelli e o lince ibérico. O repovoamento do lince ibérico em Portugal foi uma das promessas do Governo português para que Bruxelas encerrasse a suspensão do financiamento à barragem de Odelouca, mas Nunes Correia diz que prefere “as pessoas ao lince”. O Ministério do Ambiente fará uma alteração à declaração de impacte ambiental em relação ao desvio do traçado da linha de alta tensão.
SAIBA MAIS
- 300 é o número de propriedades que serão afectadas pela instalação das linhas de muito alta tensão. Ao todo, a Comissão de Moradores prevê que a instalação das linhas prejudique cerca de mil habitantes.
- 99 por cento dos alojamentos em Portugal continental tinham electricidade em 2000, de acordo com indicadores de conforto do INE.
HISTÓRIA
A primeira experiência de electricidade realizada em Portugal ocorreu em Lisboa, no Chiado, em 1878, numa iniciativa da Câmara Municipal para comemorar o aniversário do rei D. Luís.
AVES
Um estudo pioneiro em Portugal analisou o impacto das linhas de alta tensão na mortalidade das aves, comprovando que morrem uma média de 14 aves por quiló-metro por ano, só por colisão.
CANCRO
Um estudo britânico indicou que pessoas a viver num raio de cem metros de uma linha de alta tensão têm mais probabilidades de contrair cancro.
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