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Correio da Manhã

Portugal
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SITE MAL DIMENSIONADO

O Ministério da Educação (ME) acrescentou pelo menos dois servidores ao sistema informático utilizado no concurso de afectação de professores a quadro de zona pedagógica, na passada sexta-feira. Depois dos bloqueios no acesso ao ‘site’ da Direcção-Geral dos Recursos Humanos da Educação (DGRHE), os serviços de informática do ME decidiram aumentar a capacidade de resposta do sistema.
7 de Setembro de 2004 às 00:00
Mas as anomalias encontradas só são normais “quando os sistemas estão mal dimensionados”, explica Bruno Rodrigues, engenheiro informático.
O habitual em situações semelhantes, em que se espera o acesso simultâneo de milhares de utilizadores – o ME referiu que o pico chegou a atingir os dois mil acessos – “é fazer um dimensionamento por cima, o que poderá implicar mais máquinas e custos mais elevados”.
Para um concurso em que eram aguardadas mais de 30 mil candidaturas, o equipamento empregue pelo ME não teria a capacidade de resposta adequada, pelo que se fez “um ‘espelhamento’, que distribui a capacidade de resposta por mais servidores, aliviando a carga”, explica Pedro Moita, coordenador da licenciatura de Engenharia Informática da Universidade Moderna. Outra das soluções poderia ser “o alargamento da banda”, de modo a permitir conexões mais estáveis e maior tráfego de dados.
Segundo fonte do ME, o sistema até tinha uma “capacidade muito forte”, mas o elevado número de acessos simultâneos não permitia “responder de imediato a todas as solicitações”. Por isso, “aumentou-se a capacidade” e, até ao meio dia de ontem, os serviços da DGRHE tinham recebido 31 427 candidaturas. O ME estima em 33 848 o número de candidatos a quadro de zona pedagógica, cujo prazo de candidatura termina hoje. Segue-se a apreciação dos recursos hierárquicos dos excluídos. As aulas devem começar no dia 16.
CONCURSOS INTERMINÁVEIS
NORMALIDADE
Augusto Pascoal, da Fenprof, referiu que o acesso ao ‘site’ da DGRHE durante o dia de ontem “foi bastante fácil”, até porque “durante o fim-de-semana houve muitas candidaturas enviadas”, facilitando os acessos dos últimos dias.
AUDITORIA
É com expectativa que os sindicatos de professores aguardam a auditoria da Inspecção-Geral de Finanças ao concurso de professores. “Tem de haver apuramento de responsabilidades até ao fim”, diz João Dias da Silva, da FNE.
RECURSOS
Até sexta-feira, os candidatos excluídos podem apresentar recurso hierárquico. “Milhares de recursos já entraram no ME e exigimos uma solução o mais rápido possível”, salienta João Dias da Silva, de modo a que “dia 16 haja professores nas escolas”.
QUEIXA AO PROVEDOR DE JUSTIÇA
A nove dias do início das aulas, há mais de 30 mil professores que ainda não sabem onde é que vão trabalhar. “Durante o fim-de-semana chegámos a abrir sedes até à meia-noite, para que os professores pudessem enviar a candidatura a tempo”, explica Carlos Chagas, presidente da Federação Nacional do Ensino e Investigação (FENEI), organização sindical que apresentou uma queixa ao provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues. “Queremos que os recursos hierárquicos sejam resolvidos em tempo útil, de forma a integrar os professores nas escolas, dando-lhes as indemnizações a que têm direito”, referiu Carlos Chagas.
O dirigente da FENEI, que solicitou uma reunião de urgência com Nascimento Rodrigues, quer que sejam apuradas “responsabilidades e a autoria material das anomalias, para que se descubra se houve ou não intenção de prejudicar os professores”. Carlos Chagas pretende ainda que o provedor de Justiça acompanhe o processo de auditorias ou inquéritos, além de apreciar as correcções dos erros ocorridos em todo o processo.
"MINISTÉRIO REGRESSOU A 1978/79"
Entrevista a Augusto Santos Silva, ex-ministro da Educação (PS)
Correio da Manhã – Acredita que os professores estarão todos colocados no início das aulas, dia 16?
Augusto Santos Silva – Não, é tecnicamente impossível, a não ser que a distribuição seja feita à sorte. No dia 16 haverá alguns milhares de professores em falta.
Quais as consequências que podem surgir da colocação tardia de docentes?
Há consequências para os estudantes, pois muitos alunos vão ter três, quatro semanas com muitos furos, sem aulas e professores. Os pais também não saberão gerir os horários dos filhos. Há uma consequência fortíssima para os docentes, a quem falta a motivação, segurança e tranquilidade das pessoas que não sabem onde vão trabalhar.
A mudança no sistema de concursos foi boa?
Este Governo só pode fazer uma mudança de 180 graus em relação à política educativa do anterior executivo, que deixou o ME num caos. Se prosseguir com a mesma sobranceria espalha-se na próxima esquina. Pela primeira vez em 20 anos falhou claramente a colocação de professores. É a machadada no crédito do ME, que fez um regresso a 1978/79.
Onde é que se falhou?
Durante anos grande parte da actividade do ME era servida para que as coisas funcionassem bem. Entre 2002 e 2004 desvalorizaram isso, pensaram que era só mudar tudo que ia correr bem à mesma. Mas não correu.
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