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Correio da Manhã

Portugal

Só queremos justiça

'Vando’ – alcunha pela qual o jovem assassinado em Rio de Mouro, Osvaldo Biagi, era tratado no seio da família – foi ontem velado por dezenas de amigos e familiares na igreja de Rio de Mouro. O ambiente, de visível consternação pela forma como o jovem de 20 anos perdeu a vida, transpirava revolta e tristeza.
2 de Fevereiro de 2008 às 00:30
“Nós só queremos que se faça justiça. Quem matou o meu sobrinho tem de ir para a cadeia cumprir uma pena pesada. Ainda por cima já nos disseram que ele está a mentir e que tem mais do que 16 anos.” As palavras de dor e revolta são de Raúl Biagi, um dos tios da vítima, que afirma que a rixa do passado dia 27 foi uma espécie de ajuste de contas por causa de uma miúda: a namorada do também assassinado Francisco Silva com quem Osvaldo terá dançado numa festa há uns meses.
Os amigos de Osvaldo, diz Raúl ao CM, “não querem prestar declarações à polícia nem aos jornais por temerem represálias. Já foram ameaçados”. Raúl revelou estar “chocado com algumas calúnias” que lhe chegaram aos ouvidos. “Os outros dizem que quem matou o outro rapaz foi o Osvaldo. Como é que isso é possível? Ele foi morto à traição, quando virou costas por causa de uma discussão sobre um chapéu, e com um tiro na nuca”, desabafa Raúl, incrédulo.
No velório de Francisco, 18 anos, reinava a hostilidade. Havia uma espécie de pacto de silêncio entre os elementos do gang ao qual Edgar F., o homicida, e a vítima pertenciam. “Acabou a conversa. Não falo. Não digas nada. Desapareçam”, foram apenas alguns comentários proferidos pelos jovens presentes no velório na Igreja do Cacém de Cima. Só Adão, o padrasto da vítima, conseguiu acalmar os ânimos, pedindo respeito aos rapazes.
Hoje, pelas 10h00, amigos e familiares despedem-se de Francisco Silva no cemitério do Cacém. Às 14h00 é a Osvaldo Biagi que a família e os amigos dizem adeus no cemitério de Rio de Mouro.
As cerimónias fúnebres vão, segundo fonte policial, contar com um reforço policial e o patrulhamento à civil já está a ser feito. “Os elementos dos grupos que se envolveram nos desacatos que terminaram nos homicídios têm sido vigiados por agentes à civil. E no funeral dos dois rapazes a polícia estará presente, será notada e haverá muitos agentes à civil”, revelou a mesma fonte.
As áreas mais problemáticas de Sintra foram identificadas pela GNR e “vão ser agora avaliadas pela PSP”, adiantou a comissária Anabela Alferes.
DIVISÃO DA PSP NO POSTO QUE ERA DA GNR
Sintra, o segundo maior concelho do País, tem desde ontem uma Divisão da PSP com 499 agentes distribuídos por oito esquadras (Queluz, São Marcos, Algueirão, Mem-Martins, Mira Sintra, Casal de Cambra, Massamá e Rio de Mouro) e pelas três com competências específicas: investigação criminal, trânsito e intervenção e fiscalização.
A cerimónia de inauguração da nova divisão foi presidida pelo ministro da Administração Interna, Rui Pereira, e decorreu no ex-posto da GNR de Rio de Mouro, agora sede da Divisão de Sintra da PSP. Rui Pereira, referindo-se aos homicídios ocorridos há uma semana, frisou que “a primeira função do Estado” é dar segurança aos cidadãos – “porque sem segurança não há liberdade”. E considerou que “nada é mais preocupante do que a criminalidade violenta e grave”.
Depois de inaugurar a Divisão de Sintra, Rui Pereira deslocou-se à Costa de Caparica, que transitou da PSP para a GNR, e anunciou que, ainda este ano, vai ser lançado o concurso para a construção de um novo posto da GNR na freguesia, que estará concluído em 2009.
Já durante a tarde o ministro deslocou-se ao Norte do País tendo estado presente nas esquadras – antigos postos da GNR – do Canidelo, em Vila Nova de Gaia, e em Custóias, Matosinhos. Com estas deslocações, Rui Pereira quis assinalar a transferência de responsabilidades em 37 freguesias.
À CIVIL NAS ZONAS MAIS PROBLEMÁTICAS
A população de Rio de Mouro – moradores e comerciantes – mostra-se receosa com a mudança, alegando que o carácter militar da Guarda transmite alguma segurança. “Eles enfrentavam-nos. A polícia não sei...”, alega ao CM um homem que reside na freguesia desde 1974.
António considera, no entanto, positivo que a esquadra conte com 42 agentes, mais sete homens do que os que tinha a GNR. “Mas continuam a ser insuficientes para uma freguesia que tem 60 mil moradores”, diz.
Este morador de Rio de Mouro mostra-se agradado com o facto de a PSP prometer que vai apostar num policiamento de proximidade e à civil.
A promessa foi feita ontem: “É necessário um policiamento de proximidade e será um dos procedimentos em que eu terei um maior empenho”, adiantou a comissária Anabela Alferes, acrescentando que a acção policial integrará agentes à civil, o que é “uma mais-valia da PSP”, considerou a comandante da nova Divisão da PSP ao CM.
COMANDANTE COM LARGA EXPERIÊNCIA
Anabela Alferes é a comissária que vai comandar a Divisão de Sintra. Tem 47 anos – “27 dos quais dedicados à PSP” –, dois filhos e uma grande experiência de comando, pois já dirigiu a 3.ª Divisão da PSP (a maior de Lisboa, que vai de Benfica à Alta de Lisboa).
Anabela Alferes foi responsável pela segurança de um jogo Benfica-Sporting realizado em 2005 que destacou 600 agentes. Residente no Seixal, Anabela Alferes trabalhará com Luís Santos – ex-comandante da esquadra do Cacém e da Investigação Criminal de Oeiras –, que irá comandar a esquadra de Investigação Criminal de Sintra, sediada no Cacém.
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