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Correio da Manhã

Portugal
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'SÓ TIRAM AOS POBRES'

"Só cortam aos pobres. O país está em crise, mas aos grandes têm medo de tocar". É o comentário de Maria José Graçoeiro, beneficiária do projecto de luta contra a pobreza no concelho da Ponte da Barca, estrutura que corre o risco de acabar por força do fim das parcerias instituídas nesta área entre municípios e Segurança Social.
22 de Setembro de 2003 às 00:00
A extinção dos comissariados regionais contra a pobreza e do financiamento aos projectos contra a pobreza está prevista no programa deste Governo, mas os autarcas ainda esperam que o Ministério da Segurança Social prolongue "mais algum tempo" este tipo de apoios.
Culminando um processo que se iniciou no final do ano passado, cerca de 300 equipas de trabalho social deverão acabar por ser desmanteladas já em Dezembro. “São projectos que ao longo dos últimos anos acompanharam processos de recuperação de alguns milhares das mais pobres famílias de Portugal”, realça o presidente da Câmara de Vila Verde, José Manuel Fernandes.
Um técnico da Segurança Social passará a assumir todo o trabalho. Como explica Maria de Jesus Pereira, coordenadora do projecto de Ponte da Barca 'Olhar Social', “por mais qualidades profissionais que o técnico possua”, a burocracia e a falta de meios humanos e materiais fazem perspectivar grandes problemas de eficácia, quando a crise económica agrava naturalmente a crise social.
"E, agora, que vai ser de nós? Vamos ficar aqui abandonados?", questiona Maria Graçoeiro, com vários problemas de saúde (duas hérnias na coluna e bicos de papagaio), cinco filhos com idades compreendidas entre os 13 e os três anos e um marido problemático que frequenta um curso de inserção de emprego.
Além de limpar valetas e espaços públicos, o marido, António José Fonseca, tem ainda a incumbência de aplicar os materiais de construção que o 'Olhar Social' fornece para a sua casa. "Se ele fosse mais aplicado, isto podia estar melhor", observa uma técnica do 'Olhar Social'. Mas Maria José, com os filhos à sua volta, deixa logo o reparo: "É verdade, mas sabe que ele trabalha à semana, e ao fim-de-semana precisa de descansar. Mas realmente tem atrasado isto um bocado. Sabe que ele também sofre da coluna e de vez em quando dá-lhe uns ataques".
A casa de Maria José Graçoeiro dispunha de apenas dois quartos e cozinha. Agora já tem mais um quarto (que permite pôr as raparigas separados dos rapazes) e uma casa de banho. Ainda falta encher paredes e revestir telhados.
Noutra família, Maria Glória Gomes conseguiu um terreno de acentuado declive, cedido pela Junta para a construção de uma casa, cujo interior se encontra ainda em tijolo. Os baldes espalhados vão procurando recolher a água quando chove, porque a colocação de telhado exige andaimes e o marido – com problemas de alcoolismo – não tem capacidade para assumir o trabalho, pelo que terá de ser uma empresa, com os custos a serem assumidos pelo 'Olhar Social'. "O Governo não sabe a miséria que vai por este mundo fora", desabafou Glória Gomes.
LUTAR POR UMA VIDA MELHOR
Em Ponte da Barca, um concelho rural e com diversas pequenas aldeias encravadas nos vales de mata e floresta, os membros da equipa do 'Olhar Social' desdobram-se muitas vezes em funções de amigos, conselheiros e também gestores das famílias, mantendo uma grande proximidade sobre o campo de intervenção. "Mais do que dar roupa e comida (como leite e pão), as pessoas preferem muitas vezes ter um tempo para conversar com alguém", refere a coordenadora do projecto. Maria de Jesus Pereira sublinha o trabalho desenvolvido pelo 'Olhar Social' ao longo dos anos, "lutando para que as pessoas reencontrem um projecto de vida, porque é importante que as pessoas tenham consciência que isto não vai ser um subsídio vitalício, mas que se destina apenas a ajudar a relançar a vida das pessoas".
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