Alguns sobrinhos da Irmã Lúcia estão indignados com a forma como foram tratados nas cerimónias de trasladação. “Fomos discriminados e não pudemos assistir à tumulação da tia”, disse ontem José Maria Vieira, porta-voz do grupo.
Os familiares directos da vidente de Fátima foram convidados a participar nas celebrações, mas quando chegou à parte final, da descida da urna à terra, os serviços do Santuário mantiveram-nos à distância.
“Quando fomos chamados e colocados no meio da Basílica, por um servita com muito mau modo, já a tumulação estava terminada. Ali ficámos dois a três minutos, ‘admirando’ um grupo de pessoas de alvinitente (branco) vestidas e outras que fechavam em bloco compacto a zona do túmulo. Nada nos foi permitido ver”, queixa-se José Maria Vieira.
Dos nove primeiros sobrinhos que compareceram na trasladação da Irmã Lúcia, José Vieira foi um dos que mais sofreu, pois mantinha uma relação de amizade muito forte com a vidente de Fátima. “Nós éramos a parte da família que restava. Fomos lá fazer o quê, figura de palhaços?”, interroga. Segundo o porta-voz dos familiares descontentes, “a pedra tumular já estava colocada” na altura que os chamaram à Basílica. Depois, mandaram-nos sair “rapidamente” e “deixaram-nos atrás do altar do recinto, à chuva”.
Por tudo isto, “sentimo-nos indignados e revoltados com a maneira humilhante e discriminatória como fomos tratados pelo Santuário e, ou, pelos servitas”, acrescenta José Maria Vieira. O agastamento do sobrinho da vidente é ainda maior por os familiares terem sido mantidos à distância do túmulo, ao contrário dos convidados importantes (VIP).
SANTUÁRIO EM SILÊNCIO
Após a cerimónia de tumulação, José Vieira manifestou a sua insatisfação pela forma como estava a ser tratado e abandonou o Santuário. Até hoje, esperou por uma justificação da reitoria que nunca chegou. “Já teria ficado bem aos responsáveis pelo Santuário um pedido de desculpas à família”, afirma.
José Vieira transportava a vidente sempre que saía do Carmelo de Coimbra para votar, ou para participar nas peregrinações, como a que trouxe o Papa João Paulo II à Cova da Iria pela última vez. A reitoria do Santuário escusou-se ontem a comentar o descontentamento dos familiares da Irmã Lúcia, alegando não ter recebido qualquer queixa.
CEM MIL
A trasladação da Irmã Lúcia levou 100 mil fiéis ao Santuário de Fátima, muitos dos quais estrangeiros. Em casa, as celebrações foram seguidas por milhões de crentes, através da televisão.
BASÍLICA
Os restos mortais da vidente ficaram na Basílica do Santuário, ao lado do túmulo de Jacinta Marto, sua prima. Os três pastorinhos ficaram juntos de novo, 89 anos após as Aparições.
CLAUSURA
Lúcia de Jesus Rosa dos Santos nasceu a 28 de Março de 1907. Aos dez anos disse ter visto a Nossa Senhora pela primeira vez. Em 1921 entrou no Colégio das Irmãs Doroteias, para não mais abandonar a vida de clausura.
MAUSOLÉU
Os túmulos dos três videntes deverão ser retirados da Basílica e transferidos para um mausoléu. O objectivo é evitar que os visitantes ocasionais dos túmulos interfiram nas celebrações religiosas que decorrem no templo.
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