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Correio da Manhã

Portugal
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Solários perigosos para a pele

Apesar do Verão já ter passado, a busca pelo bronzeado perfeito vai continuar graças aos solários. É para quem arrisca a pele em nome daquilo que os dermatologistas dizem estar fora de moda – o bronzeado –, que Perry Robins, presidente da norte-americana Skin Cancer Foundation e um dos grandes especialistas mundiais em dermatologia, deixa a mensagem. “Os solários são tão perigosos para a pele como o tabaco é para os pulmões.”
22 de Outubro de 2006 às 00:00
No Norte da Europa, dez por cento da população recorre aos serviços de bronzeamento artifical. Por cá, não há estudos feitos sobre o número de adeptos desta prática, mas há pelo menos cerca de uma centena de espaços, de Norte a Sul do País, que prometem o bronze perfeito.
A lei que os regulamenta está em vigor há quase um ano, mas continuam a ser muitos os que, quando o sol brilha com menor intensidade, procuram os raios articiais para ter o tom de pele desejado.
De acordo com Perry Robins, professor na Escola de Medicina da Universidade de Nova Iorque, de visita a Portugal, “não há dúvidas que os solários são perigosos”, mesmo quando a eles se recorre de forma ocasional. E a prová-lo estão os cancros de pele que, cada vez mais, são diagnosticados em quem procura os raios artificiais para ter uma cor mais escura.
Fernando Ribas, especialista do Instituto Português de Oncologia do Porto, partilha a certeza. “O risco de cancro de pele duplica ou triplica para quem faz sessões nos solários, porque se trata de radiação pura, agressiva.” E quanto à ideia de segurança que, durante algum tempo, esteve associada ao uso deste tipo de radiação, considera-a “perfeitamente falsa. É publicidade enganosa”.
Com a chegada dos dias mais frios, a protecção da pele é relegada para segundo plano. Uma ideia errada, esclarece Perry Robins.
“É muito importante que as pessoas se protejam quando vão estar ao sol, independentemente da estação do ano e mais ainda se tiverem a pele clara.” Por isso, recomenda o uso do protector solar, chapéu e óculos de sol que, acrescenta, “conferem à pele a protecção que precisa”.
FORA DE MODA
Defensor de que o bronzeado já passou de moda, Robins é adepto dos autobronzeadores, considerando-os “uma boa alternativa ao sol”. E para quem apregoa os benefícios do astro rei, responsável por permitir que o organismo produza uma vitamina importante, a D, o médico americano tem resposta à altura. “Trabalho nesta área há 40 anos e nunca vi ninguém com deficiência de vitamina D. Isto porque há muitos alimentos que a fornecem, para além dos suplementos vitamínicos.”
Apesar dos avisos constantes, conselhos e informação disponível sobre os cuidados a ter com o sol, o número de vítimas de cancro de pele continua a aumentar no Mundo – em Portugal, todos os anos há dez mil novos casos.
PROTECÇÃO É NECESSÁRIA MESMO PARA FÉRIAS NA NEVE
Não é só o sol de Verão que queima e põe em risco a pele. O astro rei pode ser prejudicial à saúde da pele mesmo no Inverno e sobretudo em locais onde é maior a altitude, como as montanhas ou serras que muitos escolhem para destino das férias na época mais fria. “Quanto maior a altitude, mais fácil vai ser ter uma escaldão e mais forte será a queimadura”, alerta Perry Robins. “Se pensarmos que nos locais onde se vai esquiar há menos poluição, os raios solares têm ainda mais intensidade”, acrescenta o especialista. O protector solar deve, pois, ter lugar reservado na mala de viagem.
E os cuidados não se ficam por aqui, estendendo-se também aos momentos em que as nuvens tapam o sol. “Num dia nublado, os raios são mais curtos e reflectem no cimento, em metais, na neve e até mesmo na água. Por isso, nem quando as pessoas estão dentro dela, só com a cabeça de fora, estão protegidas.”
DICAS E CONSELHOS
ORDEM NO SECTOR
Depois dos alertas da Organização Mundial de Saúde sobre o risco dos solários, entrou em vigor, em Dezembro, uma nova legislação nacional que proíbe a frequência destes espaços a menores de 18 anos, grávidas e pessoas com sinais de insolação.
RESPONSABILIDADE
A lei determina ainda a responsabilização dos proprietários pelos danos que resultarem do uso dos aparelhos bronzeadores. Para além das coimas, há possibilidade de interdição do exercício da actividade ou mesmo encerramento do estabelecimento por um período de dois anos.
MALEFÍCIOS DO SOL
O cancro de pele é o tipo de cancro mais frequente entre as pessoas de raça branca e a exposição excessiva ao sol é considerada a causa mais comum da doença – responsável por cerca de 90 por cento dos casos. No entanto, quando diagnosticado e tratado nas fases iniciais, tem elevadas taxas de cura.
BRONZEADO FATAL
O melanoma é o cancro de pele mais perigoso e um dos tumores malignos mais agressivos, originando-se a partir das células responsáveis pelo fabrico do pigmento que dá a cor bronzeada à pele.
ATENÇÃO AOS SINAIS
Modificação de um sinal existente, alteração da forma, cor, aparecimento de comichão, inflamação, ferida ou hemorragia são sinais de alarme, que devem motivar uma ida a um especialista.
FACTORES DE RISCO
Os factores de risco para desenvolver cancro de pele são a pele clara, cabelo loiro ou ruivo, olhos claros, queimaduras solares fáceis, muitos sinais espalhados pelo corpo e antecedentes de melanoma na família.
SATÉLITES AJUDAM NO BRONZE
A exposição excessiva aos raios ultravioleta é responsável, todos os anos, por mais de 60 mil mortes no Mundo. O alerta é dado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que avisa ainda que estas vítimas podiam ser evitadas de uma forma simples. Bastava para isso cumprir algumas regras básicas, como procurar a sombra nos dias em que o sol brilha com maior intensidade ou usar protector solar para poupar a pele aos perigos de uma exposição intensa.
Para dar resposta a este problema nasceu o Happy Sun (Sol Feliz), um serviço inovador que permite receber, via mensagem no telemóvel ou através da internet, informação sobre o índice dos raios ultravioleta que se fazem sentir em cada dia, serviço possível graças aos satélites da Agência Espacial Europeia (ESA).
No Verão ou no Inverno, na praia, campo ou na cidade, o sistema, que acabou de concluir dois anos de testes com sucesso, é descrito por Franco Marsili, director da Clínica de Dermatologia do Hospital Versili, em Itália, como “uma ferramenta importante de prevenção primária do cancro de pele”.
O sistema permite ao utilizador, através do recurso aos satélites Envisat e Meteosat-8, receber informação personalizada. Para tal, basta apenas completar um questionário ‘on-line’ sobre o tipo de pele e a sensibilidade aos raios UV, o que vai dar origem a uma mensagem que, para além da indicação dos níveis de radiação solar, informa ainda sobre a melhor forma de proteger a pele. A estes dados junta-se outro: a temperatura da água do mar, para quem pretende dar uns mergulhos.
O serviço está, por enquanto, apenas disponível em algumas regiões de Itália. Mas os bons resultados levam a equipa que o desenvolveu a acreditar que, em breve, poderá ser generalizado a outras zonas da Europa. O mesmo desejo tem a ESA que, juntamente com a Comissão Europeia, pensa mesmo adicionar o Happy Sun à lista de serviços disponibilizados para os países membros.
ALERTAS PARA TODO O ANO
Por ano, há dez mil novos casos de cancro de pele em Portugal. Destes, cerca de 800 são melanomas, a forma mais perigosa, fatal em 20 por cento dos casos, e que constitui sete por cento de todos os cancros de pele. Segue-se o carcinoma baso-celular, com origem nas células da camada basal da epiderme, que atinge cerca de 65 por cento, e o carcinoma espino-celular, que se origina nas células das camadas intermédias da epiderme e que se situa nos 25 por cento. No Verão, o perigo é maior, mas nem nos meses mais frios os riscos devem ser esquecidos. “Depois da época balnear, com a chegada do frio, as pessoas começam a planear as viagens para países onde há mais calor, como o Brasil ou as Caraíbas”, afirma Fernando Ribas, do IPO do Porto. Por isso, garante, “nunca é de mais falar das consequências do excesso de sol”.
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