Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
5

Solitário preso de novo

O ‘Solitário’, o maior assaltante de bancos português, voltou a ser preso. Manuel Marques Simões, de 56 anos, andava fugido desde Março, depois de uma evasão insólita da prisão. Refugiou-se em França, na Polónia e até em Portugal, mas a fuga acabou ontem, em Viseu, onde foi detido por uma equipa da Polícia Judiciária (PJ) de Coimbra.
13 de Setembro de 2005 às 00:00
Cadeia de Coimbra
Cadeia de Coimbra FOTO: Carlos Jorge Monteiro
A PJ trazia-o ‘debaixo de olho’ há perto de um mês. Ontem, numa operação discreta, interceptou-o numa rua pouco movimentada de Viseu. O ‘Solitário’, alcunha por que ficou conhecido por ter assaltado 27 instituições bancárias sozinho, deslocou-se a Portugal para arrendar uma casa, mas desta vez os seus movimentos estavam a ser controlados pela polícia. Quando foi interceptado, seguia numa viatura, acompanhado de uma mulher de nacionalidade francesa, que se suspeita ser a sua nova companheira. Não esboçou qualquer tentativa de resistência.
Manuel Marques Simões evadiu-se do Estabelecimento Prisional de Coimbra no último dia 7 de Março. Ao contrário do que sempre fizera no seu percurso criminal, para esta fuga traçou um plano minucioso, que incluiu a preciosa ajuda de dois cúmplices.
Segundo apurámos junto de elementos da PJ, os dois indivíduos encontravam-se detidos no mesmo estabelecimento, pela prática de crimes de roubo e tráfico de droga. Como estavam ambos para sair em precária, o ‘Solitário’ convenceu-os a ajudarem-no, mediante o pagamento de uma quantia generosa.
Há seis meses, num dia à tarde, quando Manuel Simões foi ao exterior da cadeia despejar o lixo, os dois reclusos em liberdade provisória apontaram uma arma ao guarda prisional e fugiram com o companheiro de reclusão.
O plano incluiu o transporte do ‘Solitário’ para França, onde este fez parte da sua vida.
De França, o recordista de assaltos a bancos passou para a Polónia, onde vivera com uma mulher. As autoridades internacionais tinham na sua posse um mandado de captura, mas isso não impediu que ‘o assaltante romântico’ português se passeasse pela Europa sem ser capturado.
Porém, há dois meses, a PJ recapturou os dois cúmplices que o ajudaram na fuga. E as informações sobre o paradeiro de um dos assaltantes mais mediáticos do País começaram a ganhar consistência.
Manuel Simões, além de mais magro, tinha pintado o cabelo e as sobrancelhas. Só que a troca de informações entre as polícias europeias já estava a dar resultados. E a nova captura aconteceu.
O ‘Solitário’ nunca escondeu que convive mal com a reclusão. Na prisão, chegou a dizer que era “fugir ou morrer”. Optou pela fuga e gozou de seis meses de liberdade aparente. Agora, está de regresso à cadeia, para cumprir o resto dos 15 anos a que foi condenado.
Os próximos dias deverá passá-los a recolher as notícias publicadas sobre a captura, para juntar ao dossiê que guardava na cela com a história da sua vida de ladrão “com classe”.
FUGIU COM DOIS CÚMPLICES AO DESPEJAR O LIXO
A fuga do ‘Solitário’ do Estabelecimento Prisional de Coimbra teve tanto de espectacular como de insólito. Homem de boas maneiras, Manuel Marques Simões cedo conquistou a confiança dos responsáveis pelo estabelecimento. Daí à atribuição de tarefas reservadas a reclusos ‘inofensivos’ foi um passo. Ele era um dos responsáveis por despejar o lixo no exterior da cadeia e soube aproveitar-se disso. A troco de dinheiro, convenceu dois companheiros de reclusão a traçarem um plano de fuga. O esquema foi delineado com rigor e posto em prática a 7 de Março, apanhando todos de surpresa.
Durante a tarde, há hora habitual para o despejo dos resíduos da cadeia, Manuel Marques Simões veio ao exterior, acompanhado de um guarda prisional. Mas ao contrário do habitual, cá fora esperavam-no os dois cúmplices. Um estava armado com uma caçadeira, que apontou ao guarda. Sem capacidade de reacção, porque não estava armado, o guarda limitou-se a ver o carro a arrancar em grande velocidade, com o ‘Solitário’ no banco de trás.
Os dois cúmplices estavam detidos no mesmo estabelecimento e aproveitaram uma saída precária para consumar a fuga. Detidos quatro meses mais tarde, foram devolvidos à cadeia e terão de responder pelo crime de ‘tirada de presos’, cuja moldura penal configura uma pena de prisão até cinco anos de prisão. Quanto a Manuel Simões, chegou a enviar uma carta para a cadeia a pedir desculpas pela fuga, talvez imaginando que não voltaria a ver o sol através das grades. É que o maior assaltante de bancos português é também um ‘cavalheiro’ e uma das suas características era pedir desculpa às vítimas.
PERCURSO
27 ASSALTOS
Manuel Marques Simões assaltou 27 agências bancárias situadas na região Centro do País, entre Junho de 1998 e Agosto de 2000. Actuou sempre sozinho e escolhia pequenas dependências isoladas.
525 MIL EUROS
Os assaltos executados pelo ‘Solitário’ renderam-lhe perto de 525 mil euros, de acordo com as contas da Polícia Judiciária. Foi o investigador responsável pelo caso, Nídio Martins, que lhe deu a alcunha.
CONDENAÇÃO
O Tribunal de Anadia condenou-o a 21 anos de cadeia, por 27 assaltos à mão armada, posse e uso ilegal de armas de fogo. O Supremo reduziu-lhe a pena para 15 anos.
FAMÍLIA
O ‘Solitário’ é natural de Carvalhal do Meio, onde casou e teve uma filha. Depois, emigrou para França, onde viveu com outra mulher e teve um filho.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)