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Correio da Manhã

Portugal
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SOLITÁRIO ROUBA 29 BANCOS

O presumível autor de 29 assaltos praticados desde 1998 em agências bancárias localizadas em quase todo o País foi identificado pela Polícia Judiciária de Coimbra e detido esta semana em França, ao abrigo de um mandado de captura internacional, foi ontem revelado.
17 de Setembro de 2002 às 23:01
O assaltante actuava sempre sozinho, o que lhe valeu o epíteto de "Solitário" nos meios policiais, tem 53 anos de idade, é empresário de profissão, nasceu no concelho de Ourém e tem dupla nacionalidade, estando casado com uma cidadã francesa e a residir em Nice.

Os assaltos que lhe são atribuídos, no total de 29, o primeiro dos quais em 1998, registaram-se em quase todo o País, desde Miranda do Douro a Borba. As localidades de Anadia, Pombal, Carregal do Sal, Oliveira do Hospital, S. Pedro do Sul, Mealhada, Arganil, Soure, Moimenta da Beira, Golegã, Viseu, Castelo Branco, Penafiel, Aguiar da Beira, Marco de Canaveses, Trancoso e Reguengos de Monsaraz estão entre aquelas em que ocorreram os crimes.

Em 90 por cento dos casos, os alvos escolhidos pelo "Solitário" eram dependências bancárias da Caixa de Crédito Agrícola situadas em localidades de menor dimensão e distantes dos postos da GNR.

No conjunto de assaltos, o "Solitário" terá roubado mais de meio milhão de euros (102 mil contos), sendo que o maior assalto lhe rendeu 100 mil euros.

Segundo apurou o nosso jornal, o perfil do presumível assaltante, que a determinada altura das investigações começou a ser traçado pela Polícia Judiciária, não encaixava naquilo que é considerado o padrão normal. Agia sozinho, quando os assaltos a dependências bancárias costumam ser perpetrados por grupos, em que cada elemento tem uma função específica. Além disso, é mais velho que a maioria dos assaltantes que cometem crimes desta natureza.

E revelava-se também extremamente cuidadoso, até na viatura escolhida, uma vez que as suas opções iam para simples carro utilitário e por isso muito discreto, confundindo-se com o tráfego normal, até porque viajava sozinho.

"Ele ia assaltar como quem vai tomar um café", disse um investigador, o que significa que não usava qualquer disfarce nem agia com pressa, pois não era o dinheiro que estava nas caixas que queria, mas sim o que estava guardado no cofre.

Como os cofres das instituições bancárias dispõem de um sistema de abertura retardada, o assaltante aguardava e forçava os funcionários a colaborar, sob ameaça de uma arma de fogo.

Nos primeiros assaltos, o presumível assaltante levava consigo um 'cocktail molotof' e ameaçava que o faria rebentar, mas depois começou a usar uma arma de fogo.

"Ele vinha a Portugal, fazia os assaltos e refugiava-se de seguida em França, onde residia com a família", explicou um investigador.

A detenção ocorreu em Nice, ao abrigo de um mandado de captura internacional que prevê a sua extradição para Portugal, mas como tem dupla nacionalidade poderá ser julgado em França.

A Polícia Judiciária aguarda uma decisão das autoridades francesas e assegura que "será sempre feita justiça", pois se o 'Solitário' não for extraditado para ser julgado em Portugal, o mesmo julgamento será realizado em França.

Operava em todo o país

O 'Solitário', como passou a ser conhecido nos meios policiais, praticava os assaltos com uma determinada regularidade que a Polícia Judiciária conseguiu apurar, mas o mais difícil era antecipar o local, visto que os crimes ocorriam da forma mais dispersa que se possa imaginar.

Os investigadores encarregues do caso conseguiram chegar a um juízo de previsibilidade dos assaltos, conjugando a forma como actuava e as descrições das várias testemunhas.

Do cruzamento das informações apuradas na investigação era possível adivinhar a data do próximo assalto, tendo em conta a quantia roubada no anterior. Se o assalto 'rendia' muito, mais tempo passava até ao assalto seguinte.

O mais difícil era antecipar o local, devido à dispersão geográfica, pois podia ser numa qualquer pequena agência das regiões Norte, Centro ou Alentejo.

Nalguns casos, o assaltante chegou a ser perseguido por militares da GNR, mas nunca conseguiram capturá-lo, tarefa que era dificultada pelo facto de se ausentar do País após consumar os crimes.

De salientar também que, embora usasse uma arma para ameaçar os funcionários e os forçar a colaborar, chegava a entabular conversa com eles, enquanto esperava que o cofre abrisse.
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