SôZé assusta vizinhos

Alegar atentados em aviões não é a única especialidade de José Esteves, o homem que garante ter fabricado a bomba que matou Sá Carneiro. Só no último mês está acusado de ter feito em chamas dois carros dos vizinhos e de incendiar a sua própria ervanária, em Lisboa. A PSP já foi chamada por ter amarrado a namorada nua à cama – e, na noite em que o apanharam na rua com três facas e uma catana, insultou a polícia e avisou conhecer gente importante. Já foi detido e internado. Mas hoje continua à solta.
16.04.07
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SôZé assusta vizinhos
Quando a PSP chegou à porta do número 13 da rua João Penha, Lisboa, pouco passava das 16h30 de 20 de Março, já um Mercedes estava tomado pelas chamas. Valeu o esforço dos Sapadores, “com a ajuda dos populares e de extintores”, para que se conseguisse extinguir o incêndio, apurou o CM junto de fonte policial.
E “refugiado em casa”, no prédio ao lado, continuava José Esteves, 53 anos, conhecido da polícia – e que, “no instante em que foi dado o alarme na rua, passou a correr junto ao carro com um objecto amarelo e gritou ao dono do mesmo que andava por aí a Mossad. Para ter cuidado...”.
No dia anterior “foi incendiada outra viatura na rua e com o mesmo ‘modus operandi’”, pelo que José Esteves, mais conhecido do grande público como o vidente ‘SôZé’, das suas passagens pela televisão, foi no mesmo dia detido pela PSP e entregue à Polícia Judiciária. Voltou à rua, acabou internado compulsivamente no Hospital Curry Cabral, já no último dia 3 – mas saiu e, de cajado em punho, “como é seu hábito, andava a passear pela rua na última semana”.
Entre comerciantes e vizinhos da rua “o silêncio é de ouro”, mas nem só ali se fazem sentir os estragos de José Esteves. E na madrugada de 14 de Março, uma semana antes de incendiar os automóveis, foi a vez de a sua ervanária ser tomada pela fúria das chamas.
‘SôZé’ foi contactado pela PSP, respondeu não estar “preocupado com isso” – e na origem do incêndio esteve “um balde com combustível no interior, ervas e várias velas à volta”, o que indicia os seus “rituais de culto”.
Ainda este ano, em 18 de Janeiro, Esteves partiu para uma discussão com a mãe da namorada, no Centro Comercial das Amoreiras, passando para os “gestos obscenos e insultos” e pelas ameaças de “espetar uma faca de ponta e mola, que exibiu”. Só foi parado “pela força dos seguranças” e ainda “atirou a faca para um caixote”, de onde a PSP a recuperou.
Mas já em 2005 a relação de José Esteves com a namorada não seria a mais saudável e, em Junho, a polícia e a tripulação de uma ambulância foram chamados à rua João Penha. A namorada, hoje com 43 anos, estava esticada na cama, “completamente nua e com os pulsos amarrados por uma corda”.
Tinha várias escoriações, nódoas negras e estava bastante sonolenta, pelo que “foi accionada uma ambulância do INEM”. Mas era afinal uma medida “preventiva”, segundo terá dito o ‘SôZé’, porque ela se tornara “bastante agressiva” depois de uma noite com ele. E daí amarrá-la.
José Esteves contabiliza ainda um cheque sem provisão a uma funcionária sua, em 2005, facto menor comparado com “ameaças” e a tinta que atirou à porta e com que conseguiu fechar um conhecido bar em Lisboa, em Outubro do ano passado.
MALA CHEIA DE FACAS E CATANA
Os gritos de José Esteves faziam eco entre as ruas da Bombarda e das Olarias, Lisboa. Os moradores descreveram um homem de t-shirt às riscas e na posse de armas. Era madrugada de 29 de Junho do ano passado e a PSP foi encontrar um Mercedes de mala aberta. Justificou que estava ali “para os matar a todos [leia-se traficantes]”.
Esteves ameaçou a PSP e, logo depois de o algemarem, os agentes contabilizaram o arsenal. Uma faca de arremesso com 23 centímetros; uma faca com 27; outra faca, tipo canivete, com 19; uma catana com 13 centímetros de cabo e 38 de lâmina; uma arma de ar comprimido e mira telescópica; dois sacos de pólvora negra; chumbos – e, só para enfeitar, um isqueiro a imitar na perfeição uma granada.
PORMENORES
GUERRILHEIRO
José António dos Santos Esteves foi guerrilheiro em Angola e em Portugal passou a operacional dos Comandos de Defesa do Continente (CODECO), a rede bombista de direita nos anos de brasa a seguir ao 25 de Abril. Foi guarda-costas de Freitas do Amaral nas presidenciais em 198, e arguido no processo da morte de Sá Carneiro, em Camarate, na noite de 4 de Dezembro de 1980. Chegou a ser ouvido numa comissão de inquérito na Assembleia da República, numa altura em que era ainda detective privado.
PRESO PELA PJ
No último mês de Novembro, depois te ter confessado a autoria da bomba que matou Sá Carneiro, Esteves foi detido e interrogado pela Direcção Central de Combate ao Banditismo da Polícia Judiciária e presente ao Tribunal de Instrução Criminal. Mas foi ouvido e saiu em liberdade.
MULTIFACETADO
Primeiro José Esteves, depois vidente, usava o nome de ‘SôZé’, participando nas ‘Noites Marcianas’ e noutro programa, na SIC, com Herman José. Foi segurança na Universidade Moderna. Passou a ganhar a vida como bruxo e, mais recentemente, converteu-se ao islamismo. Gosta de se vestir à professor Karamba e já ganhou a vida a treinar papagaios. Uma vez, vestido de árabe, anunciou fazer explodir a Procuradoria.
INIMPUTÁVEL
Contactada pelo CM, fonte judicial adiantou que há uma grande possibilidade de José Esteves ser “inimputável” (não responsável pelos seus actos devido a doença mental), razão pela qual está em liberdade.

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