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Correio da Manhã

Portugal
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SOZINHOS NA SALA DE AULA

São poucos, muito poucos. “Nem sequer são um grupo. São uma parelha e vão estar os próximos dois anos completamente sozinhos”. É a mãe do “Rafa” que assim fala. O “Rafa”, é um puto de cinco anos, quase a fazer os seis, que este ano vai para a escola pela primeira vez. Ele e o João serão os únicos alunos da Escola Básica de Figueiredo se esta se mantiver aberta no próximo ano lectivo.
5 de Julho de 2002 às 00:02
Este é um processo que tem atormentado toda a aldeia lá para os lados de Torres Vedras. A própria mãe do Rafael está dividida. Deixar o seu “Rafa” numa escola em boas condições e onde ela também já estudou, mesmo sabendo que não é saudável estarem as duas crianças sozinhas. Ou, em alternativa, transferi-lo para outro estabelecimento. As incertezas são muitas. “Qual? A que distância? Como vai? Onde come?”

O que o Rafa prefere mesmo é a escola de Torres. E está bom de ver porquê: “Tem um campo de futebol, tem baloiços e até lá está o primo”. O amigo Ricardo não quer ouvir mais disparates, acha que ele “não está bom da cabeça” e diz-lhe directamente: “Aqui é que é bom porque a ‘stora’ até é uma excelente guarda--redes”.

O Rafael, fica na dúvida sobre as qualidades de tal professora, encolhe os ombros e continua. Diz que já conhece a escola e que às vezes dá lá um saltinho para visitar a Tânia.

PARCEIRAS ATÉ NO RECREIO

Ora, a Tânia tem apenas 10 anos, mas já é uma senhora. Ainda agora acabou o 4º ano do primeiro ciclo e já vai estudar para Torres Vedras que fica a oito quilómetros da sua aldeia. No ano lectivo que agora terminou, a Tânia esteve sozinha naquela escola. Ela e a professora, claro. Duas pessoas que não chegaram para encher uma escola tão pequenina.

Lá dentro, as mesas estão agrupadas em ‘u’. O quadro está ao fundo da sala, estando ao lado um computador e uma impressora que permanecem mudos desde o primeiro dia. A mesa da professora é grande. Tem um canto que faz de cozinha, duas casas de banho e uma mini-dispensa.

As aulas começam às 9h30 e são interrompidas às 12 horas. Recomeçam uma hora depois para acabarem definitivamente às 15 horas. Assim era o dia-a-dia da Tânia.

Pelo meio estudava e brincava de uma forma diferente daquela a que estamos habituados. A sua parceira era a professora Cândida. No estudo e no recreio. “Era uma professora fixe”. Pudera.

Para já o nome da Escola Básica de Figueiredo não consta da lista de escolas cuja actividade vai ser suspensa.

No distrito de Lisboa são poucas as escolas atacadas pela desertificação. Infelizmente, logo ali ao lado também a escola de Louriceira está a passar pela mesma indecisão.

Figueiredo não tem mais do que uma centena de habitantes e miúdos devem ser uns 20. Alguns já subiram a ladeira até à escola que fica lá no alto.
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