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Correio da Manhã

Portugal
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Suicídios alarmam MAI

O ministro da Administração Interna, António Costa, está preocupado e assinou um despacho que deu origem à criação de um grupo de trabalho destinado ao estudo do crescente número de suicídios entre os elementos das forças de segurança.
28 de Maio de 2006 às 00:00
A formação de técnicos de apoio na GNR e PSP deve ser reforçada. Solidão é a pior inimiga
A formação de técnicos de apoio na GNR e PSP deve ser reforçada. Solidão é a pior inimiga FOTO: Jorge Godinho
O documento, rubricado em Março, conseguiu para já ‘fabricar’ uma conjugação de esforços. Oficiais da PSP e da GNR aliaram-se a técnicos da Associação Portuguesa de Suicidologia, com um claro objectivo. “Avaliar os motivos da ocorrência, desde 2001, de perto de mais de uma dezena de suicídios na PSP e na GNR”, disse ao CM uma fonte policial. Só no ano passado ocorreram oito casos naquelas duas forças de segurança.
À experiência dos técnicos do Gabinete de Apoio Psicológico da Direcção Nacional da PSP, e do Núcleo de Apoio do Comando-Geral da GNR, o Governo quer agora juntar acções de carácter prático.
Dentro de cerca de um mês devem, ao que apurou o CM, existir soluções concretas para tentar fazer diminuir os suicídios nas forças de segurança. “Para já é difícil dizer quais poderão ser as conclusões. Mas tudo terá necessariamente de passar por um reforço da formação de técnicos de apoio”, acrescentou o informador.
Para já, e no que à PSP diz respeito, continua em vigor o programa de formação de gestão de incidentes críticos. Esta acção, da responsabilidade do Departamento de Formação da Direcção Nacional da Polícia, entrou em vigor no período que antecedeu o Euro’2004. Destinada preferencialmente aos oficiais da PSP, em especial os comandantes de esquadra, a iniciativa tem procurado dotar os responsáveis com conhecimentos que permitam detectar sinais de risco nos agentes da patrulha.
“Depressões, comportamentos diferentes. Tudo pode configurar patologias encaminháveis para apoio. Não só nos agentes, mas também nas famílias”, explicou um técnico ligado ao programa.
Até ao final deste ano, está prevista a realização de 60 acções de formação, em esquadras e sedes de divisão da PSP, em todo o País.
ISOLAMENTO LEVA AO DESESPERO
A maior parte dos suicídios de elementos da PSP deve-se ao isolamento. O facto de os polícias, naturais do Interior do País, serem colocados em esquadras nos grandes centros urbanos leva-os a sentirem-se sós e, muitos deles, acabam mesmo por se tornar dependentes de bebidas alcoólicas. A conclusão é de um estudo feito por um sub-chefe da Esquadra de Investigação Criminal da PSP da Amadora.
Pedro Magrinho analisou os suicídios na PSP entre 1990 e 2004. Concluiu que os polícias que se suicidaram neste período tinham cerca de 30 anos, eram maioritariamente do sexo masculino e utilizaram a arma de serviço para pôr termo à vida.
Segundo o autor do estudo, a maior parte dos polícias que se suicidam são oriundos do Interior do País e, colocados nos grandes centros urbanos, perdem os laços familiares e os valores morais aos quais estavam ligados.
Orientado pela psicóloga Sandra Coelho, que acompanha os polícias inscritos no Sindicato dos Profissionais de Polícia, o estudo revela ainda que estes polícias, antes de cometerem suicídio, começaram a frequentar casas de alterne e acabaram por se tornar dependentes do álcool.
A maioria dos casos aconteceu nos comandos da PSP de Lisboa e dos Açores. No ano passado, suicidaram-se seis elementos da PSP e dois da GNR.
DUAS ZONAS MAIS DIFÍCEIS
Os comandos da PSP de Lisboa e Setúbal têm merecido especial preocupação da cúpula directiva da Polícia, devido à taxa de suicídios de agentes da autoridade que apresentam. Por isso, o departamento de formação da Direcção Nacional apostou na formação de formadores, direccionados especialmente para estas duas zonas. O objectivo é dotar os oficiais de ambos os comandos de “ferramentas eficazes na detecção de comportamentos de risco”.
Ao que o CM apurou, o plano de formação no Comando de Lisboa já está terminado, enquanto o de Setúbal começou recentemente. Tratam-se das duas zonas do País onde os agentes são mais sujeitos à pressão, e onde há mais casos de elementos que estão longe de casa.
CASOS RECENTES
BENFICA
Eduardo Pestana, agente da esquadra da PSP do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, suicidou-se, no último dia 10, com um tiro na cabeça disparado com a arma de serviço.
GUARDA
A 29 de Março, um soldado da GNR da Guarda foi encontrado morto a tiro numa garagem do quartel. A mulher de Luís Manuel Gonçalves, 48 anos, natural do Sabugal, avisou os colegas da sua ausência.
LAMEGO
O comandante da PSP de Lamego, Aurélio da Silva, suicidou-se, em Setembro do ano passado, num dos quartos destinados a oficiais. O comissário, de 51 anos, estaria a ser investigado por alegado peculato.
VILA BOIM
O cabo Carlos Dias, comandante da GNR de Vila Boim, suicidou-se em Agosto do ano passado, após uma discussão familiar na sua casa, em Elvas.
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