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Correio da Manhã

Portugal
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Surfistas são heróis no Guincho

Como os heróis de banda desenhada salvam pessoas em perigo e têm um fato característico, mas não precisam de capa nem de poderes especiais para salvar todos os anos dezenas de banhistas aflitos: são os surfistas da praia do Guincho. Com seis salvamentos realizados este ano e quatro em 2005, Francisco Lourenço, de 35 anos, advogado e jornalista, é um destes heróis acidentais do Guincho.
16 de Agosto de 2006 às 00:00
Aos 12 anos começou a fazer surf, numa altura em que as poucas pranchas que existiam no mercado eram muito caras e às vezes era preciso pedir boleia para chegar à praia “com as melhores ondas do País”.
Conhece bem o mar do Guincho e explica que quase todos os acidentes com banhistas se verificam no chamado agueiro, uma zona de entrada na água aparentemente mais calma mas que esconde correntes muito fortes. Outra das características dos salvamentos no Guincho é que frequentemente envolvem mais do que um banhista a pedir socorro.
Francisco recorda uma situação em que teve de salvar um homem porque o nadador salvador, seguindo as prioridades estabelecidas no seu código de conduta, estava ocupado a resgatar uma criança.
Os nadadores salvadores, também praticantes de surf e body- board, olham para os surfistas como fazendo parte da equipa.
“Às vezes são cinco pessoas em perigo ao mesmo tempo. Mesmo quando não podemos lá ir, gerimos a situação com a ajuda dos surfistas”, disse o nadador salvador Pedro Pedro, de 29 anos. Também por este motivo, os surfistas não são abrangidos pela nova lei que permite a aplicação de multas a quem entre no mar com bandeira vermelha.
Pedro explica que os dois nadadores de serviço, apesar de só estarem responsáveis por 120 metros de mar, a distância da concessão, sentem-se “moralmente” responsáveis por 500 metros de costa, já que acodem a toda a extensão da praia.
Francisco Lourenço até já salvou aprendizes de surfista. Um deles “tinha perdido a prancha, tinha o fato aberto a entrar água, estava completamente em pânico”.
Para Pedro, “no Verão as pessoas transformam-se, vêm para a praia e despem tudo, até o sentido de segurança”. “A nossa política passa também por fazer com que as pessoas que não nos respeitam passem um pouco pela experiência e percebam por que é que não estamos a brincar”, disse.
Ao contrário dos super-heróis dos quadradinhos, os surfistas nem sempre recebem o devido apreço. “Lembro-me de um homem que estava aflito, subiu para a prancha sem dizer nada e quando o deixei na praia nem obrigado me disse”, contou um surfista.
Já Francisco, à semelhança dos heróis sempre solitários das histórias, depois de um salvamento só fica junto do banhista o tempo suficiente para se assegurar que está bem. “Continuo logo na minha, volto a surfar”, remata.
AGUEIROS PERIGOSOS
O nadador salvador Pedro Pedro deixa alguns conselhos para todos os que frequentam a praia do Guincho: “Antes de mais, olhar para a bandeira, que pode mudar ao longo do dia consoante o nível de perigo do mar. Nos agueiros normalmente há poucas ondas. As pessoas não vêem ondas e pensam que é a melhor zona para tomar banho. Mas não é assim. O melhor é verem onde estão os surfistas e tomarem banho aí”, revela Pedro Pedro.
Segundo o nadador salvador, outro erro dos banhistas é tentarem nadar para terra quando são apanhados pelas correntes dos agueiros. “Devem deixar-se ir na corrente e nadar para o lado, para depois sair da água.”. “Os surfistas sem experiência não devem tentar fazer salvamentos pois, em geral, significa que o nadador salvador tem mais um pessoa para tirar da água.” Esta época balnear os nadadores salvadores do Guincho já registaram 146 salvamentos.
SLAVAMENTOS DIARIAMENTE
João Torres, um bodyboarder de 17 anos, disse ao CM que na praia do Guincho assiste a salvamentos de banhistas “praticamente todos os dias”. “Há poucos dias estava a surfar e dois italianos, que andavam a nadar com bóias na zona do agueiro, estavam a ser puxados e não conseguiam sair.
O nadador salvador foi ter com um deles e eu pus o outro em cima da minha prancha, deitei-me em cima dele e bati os pés (com barbatanas). Não foi fácil mas conseguimos sair da água. Ele era muito pesado”, recorda o jovem. “As zonas perigosas estão assinaladas, mas as pessoas não respeitam os sinais”,
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