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Correio da Manhã

Portugal
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TABACO LEVOU-LHE A VOZ

Mónica foi avisada vezes sem conta sobre os perigos do tabaco, mas não parecia disposta a desistir. Começou a fumar aos 14 anos e só parou aos 30, quando soube que tinha um tumor maligno na laringe que acabou por lhe levar a voz e grande parte da alegria de viver. Agora com 32 anos, é a mãe que fala por ela e lembra alarmada: “A Mónica sempre fumou SG Ventil”. Precisamente uma das marcas em que foi detectado um agente químico potencialmente cancerígeno.
4 de Dezembro de 2004 às 00:00
Lídia Carvalho, de Campo Maior, recorda que quando leu nos jornais a notícia sobre a presença de dieldrina, um químico proibido em Portugal há já 30 anos, em lotes de tabaco SG Filtro e SG Ventil não associou de imediato ao problema da filha. “Confesso que não juntei dois e dois”, contou ao CM, “foi uma familiar que me lembrou que a Mónica sempre fumou SG Ventil e aí é que eu percebi”. Agora, a família está pronta a juntar-se a outras vítimas do tabaco que estejam dispostas a processar a Tabaqueira.
VOZ MAIS ROUCA FOI SINAL
O drama de Mónica começou aos 30 anos, depois de uma segunda gravidez. “Ela começou por emagrecer muito e não tinha apetite”, recorda a mãe, “ainda pensámos que era uma depressão pós-parto”. Puro engano. Mónica sempre teve uma voz rouca, mas uma ex-professora, também médica no centro de saúde de Campo Maior, estranhou qualquer coisa. “A doutora disse-lhe que não estava a gostar do tom de voz, que alguma coisa não estava bem e aconselhou-a a ir a um especialista em Badajoz. Foi aí que descobrimos que a Mónica tinha um tumor na laringe”.
Segundo Lídia Carvalho, esse mesmo médico espanhol disse que o problema estava, sem dúvida, associado ao tabaco. “Quando saiu do consultório deu o maço de tabaco ao marido e garantiu que nunca mais fumava”. A Mónica cumpriu a promessa, mas já era tarde demais. De regresso a Portugal, foi operada no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde lhe foi retirada a laringe e as cordas vocais. “Ela foi muito bem tratada, mas não havia mais nada a fazer”, lamenta a mãe.
Actualmente com 32 anos, Mónica está bem de saúde, mas não fala. Trabalha na churrasqueira dos pais, com as dificuldades que são fáceis de imaginar, para quem não consegue comunicar com os clientes. “E ainda bem que temos este negócio de família, porque ela não iria arranjar emprego em lado nenhum. Com dois filhos para criar, não é uma situação fácil”.
Mais difíceis de superar têm sido os traumas psicológicos que a situação tem provocado. Lídia Carvalho conta que a filha nunca mais deixou de usar lenços ou cachecóis que lhe tapem as marcas da operação. Também já experimentou o aparelho que, encostado à garganta, lhe permite falar, mas não gostou de se ouvir. “Ela tem resistido à terapia da fala”, explica a mãe, “não gostou de se ouvir com aquela voz meio metálica”. A Mónica e a família estão agora dispostas a avançar com uma acção judicial contra a Tabaqueira. “Se houver outras pessoas dispostas a isso e algum advogado que nos queira representar, nós também avançamos”, conclui Lídia.
DGS AGUARDA RESULTADOS DAS ANÁLISES
A dieldrina, um agente químico proibido em Portugal há 30 anos, por ser potencialmente cancerígeno, foi detectada em lotes de SG Ventil e SG Filtro num estudo elaborado pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, noticiado pelo CM dia 18 de Novembro. Na sequência deste alerta o Governo enviou para o Reino Unido algumas amostras de cigarros em que foi detectado o químico, para a realização de uma contra-análise. A Direcção-Geral de Saúde (DGS) tinha prometido divulgar os resultados esta semana, mas tal ainda não aconteceu. Espera-se agora que na próxima semana sejam conhecidos. Perante a incerteza dos resultados, a DGS pondera obrigar fabricantes e importadores de outras marcas de tabaco a realizarem mais análises do que as previstas para despistar a possível existência de outras substâncias proibidas. A medida foi noticiada, mas ainda não é conhecida a forma como será aplicada.
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