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Correio da Manhã

Portugal
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Telemóveis perigosos

O presidente da Comissão Nacional de Protecção Radiológica do Reino Unido, William Stewart, deixou o alerta: “Crianças com menos de oito anos não devem usar telemóveis”. E os efeitos do aviso foram imediatos. Nos operadores choveram chamadas pedindo que os aparelhos tragam avisos sobre riscos para a saúde. Uma marca britânica retirou do mercado um modelo especialmente destinado a crianças entre os quatro e os oito anos e uma escola de New Waltham proibiu o seu uso pelos alunos.
13 de Janeiro de 2005 às 00:00
William Stewart não apresentou um estudo novo e conclusivo sobre os riscos do uso de telemóveis, mas veio lembrar que, nos últimos cinco anos, foram reveladas investigações preocupantes e que a relação entre o uso destes aparelhos e a ocorrência de tumores cerebrais e dos ouvidos é cada vez mais evidente. Neste âmbito, deixou um alerta especial para as crianças, que têm o crânio mais pequeno e estão menos protegidas.
OPERADORAS SÓ VENDEM
Por cá, o aviso deste especialista britânico não terá, com certeza, qualquer efeito imediato. O telemóvel tornou-se moda entre os jovens portugueses e há já produtos estrategicamente orientados para este segmento do mercado. No entanto, as operadoras de telemóveis limitam-se a dizer que estão atentas aos desenvolvimentos científicos sobre a matéria.
Contactadas pelo CM, TMN, Vodafone e Optimus foram unânimes em lembrar que não existem estudos com resultados conclusivos sobre os efeitos para a saúde das radiações emitidas pelos aparelhos. Garantiram ainda que fazem medições regulares das radiações das suas antenas. Mesmo sem os “estudos conclusivos”, a Direcção-Geral de Saúde recomendou, na semana passada, o uso de sistemas mãos livres a todos os utilizadores de telemóveis e deixou um alerta especial sobre as crianças, lembrando que os pais devem ponderar os potenciais riscos.
RELATÓRIO EM CURSO
Perante as incertezas, aguarda-se com alguma expectativa a divulgação de um relatório internacional da Organização Mundial de Saúde, que está a ser preparado com base nas centenas de estudos realizados nas últimas décadas em todo o mundo.
Espera-se agora que os resultados permitam retirar conclusões mais definitivas, que possibilitem a tomada de medidas concretas ou saber de uma vez por todas se os telemóveis são realmente inofensivos.
"BEM NÃO PODEM FAZER"
O neuropsicólogo Nelson Lima garante que não precisa de estudos para afirmar que “bem, os telemóveis não podem fazer”. E avança com uma explicação simples: “O nosso cérebro funciona com baixas correntes eléctricas. E todos sabemos que os sistemas eléctricos interferem uns com os outros quando não estão isolados”. No caso humano, a única protecção é o crânio, “que protege alguma coisa, mas deixa passar interferências”.
Para este médico, “toda e qualquer energia com valores elevados não faz bem ao cérebro” e a situação agrava-se com as crianças, “pois estão menos protegidas”. “É evidente que essas radiações provocam anomalias pequenas e disfunções cognitivas. Só isso já é suficiente para se proibir o uso destes aparelhos a qualquer criança.”
Nelson Lima deixa um alerta especial para as pessoas que usam óculos com aros metálicos. “Este material transmite as radiações ao longo do rosto chegando ao outro lado do crânio. Já não é só o lado a que se encosta o telemóvel que fica exposto às radiações.”
“De facto não existem estudos conclusivos”, admite, “por isso recomendo o uso moderado, ou, se for possível, que não usem telemóvel, sobretudo as crianças”.
ESTUDOS
William Stewart lembrou quatro estudos que levantaram sérias preocupações nos últimos anos. Uma experiência sueca provou que os utilizadores de telemóveis têm maior propensão para tumores não malignos nos ouvidos e no cérebro. Um outro estudo holandês revelou mudanças nas funções cognitivas.
O especialista britânico citou igualmente um estudo alemão que revelou o aumento da incidência de cancro junto a estações emissoras e, finalmente, uma experiência da União Europeia que prova destruição de células sujeitas a radiações.
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