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Correio da Manhã

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Telemóvel rebenta no quarto

Para Sandro Costa, de 29 anos, o telemóvel sempre foi um dispositivo seguro. Mas tudo mudou a 15 de Março quando o aparelho rebentou, deixando marcas no chão e no rodapé da parede. Só por acaso não ficou ferido. “Se me tivesse caído em cima, não estava agora a contar a história.”
23 de Março de 2006 às 00:00
Sandro Costa diz ter tido sorte, porque a bateria a ferver não lhe caiu em cima, depois do seu telemóvel rebentar
Sandro Costa diz ter tido sorte, porque a bateria a ferver não lhe caiu em cima, depois do seu telemóvel rebentar FOTO: Vítor Mota
Pouco passava das cinco da manhã quando Sandro foi acordado pelo que descreve como “um grande estoiro”. A sua casa, em Queijas (Oeiras) ficou cheia de fumo e só os restos do aparelho, espalhados pelo quarto, indiciavam o que se tinha passado.
“O telemóvel estava a carregar na minha mesa-de-cabeceira, comigo deitado na cama ao lado. Quando ouvi o barulho e me cheirou a queimado, acendi a luz e, ainda meio zonzo, vi que a tampa tinha saltado e a bateria estava no chão, a fumegar, derretendo o rodapé da parede. Vi claramente que estava a ferver e foram precisos uns cinco minutos para conseguir pegar-lhe. Mesmo assim, ainda estava morna.”
O telemóvel, um Motorola modelo V535 com quase dois anos, ainda dentro da garantia, nunca tinha dado problemas. “E as peças eram todas de origem”, garante Sandro. Por isso, refeito do susto, pegou no que restava do aparelho e entregou-o na empresa que faz a assistência técnica da marca.
Sete dias após a explosão e depois de ter lido a notícia do rebentamento de um telemóvel no Brasil, ontem, no CM, Sandro decidiu falar ao jornal. Enquanto isso, continua à espera de uma explicação. Conta que, na empresa onde deixou o telemóvel, a surpresa foi grande. “A senhora que o recebeu disse que nunca tinha ouvido falar de um telemóvel cuja bateria tivesse explodido. Ainda duvidou de mim, mas o cheiro a queimado não deixava dúvidas.”
INSTRUÇÕES NADA APONTAM
Uma vez que, no momento da explosão, o aparelho estava a carregar, Sandro procurou confirmar, no manual de instruções, se este procedimento constituía motivo de risco. Mas a informação é clara. “Pode deixar o carregador ligado ao telefone, quando o carregamento estiver concluído. Este procedimento não danifica a bateria.”
Contactado pelo CM, o porta-voz da Motorola informa que o aparelho foi recolhido e será agora “submetido a análise para tentar perceber o que aconteceu e porquê”.
A mesma fonte sublinha que este tipo de casos, levando em conta todos os aparelhos em uso, “são raros”.
MAIS UM CASO EXPLOSIVO NO BRASIL
Um novo caso de acidente com telemóvel foi notícia na Imprensa brasileira de ontem, apenas um dia depois da divulgação da explosão de um outro aparelho, que provocou queimaduras de segundo grau à estudante Carina Zancheta, de 14 anos, do Estado de São Paulo. Ontem, o caso relatado foi o da jornalista Jacqueline Leão, do Rio de Janeiro, cujo telemóvel explodiu enquanto carregava, quase provocando um incêndio no seu apartamento.
Jacqueline contou que ela e o marido estavam na sala quando ouviram um estalo vindo do quarto, onde o telemóvel tinha ficado a carregar, e sentiram um forte cheiro a queimado. Quando entraram no quarto, perceberam que o telemóvel, um Motorola, tal como o de Carina, tinha explodido. Com a explosão, a bateria soltou-se do aparelho. Estava tão quente que derreteu instantaneamente uma carteira sobre a qual caiu e ateou fogo a papéis e a roupas. A Motorola não quis pronunciar-se sobre o assunto enquanto não tivesse mais detalhes.
Há poucas semanas, outro telemóvel, desta feita da Nokia, explodiu e incendiou-se no estado do Espírito Santo, provocando queimaduras no rosto de Rosangela Ferrara, de 46 anos, que só não se feriu mais gravemente porque conseguiu arrancar a bateria e atirá-la para longe.
PRAZO PARA RECLAMAR É DE DEZ ANOS
“Se de facto os telemóveis estão a trabalhar com peças de origem, e se ocorrer um rebentamento, a responsabilidade é do fabricante e não do vendedor”, explica ao CM Luís salvador Pisco, jurista da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco).
De acordo com o especialista, o que está aqui em causa não é um defeito de qualidade, mas de segurança, que pode mesmo pôr em causa a integridade física dos utilizadores. “E cabe a quem fabrica este tipo de aparelhos responder pelo problema. Não é o consumidor que tem de provar que há defeito, mas sim o fabricante que tem de demonstrar que ele não existe.”
O jurista explica ainda que “sempre que há um defeito de segurança, o regime que se aplica não é o da garantia, ou seja, o utilizador não tem dois anos, mas sim dez para fazer a reclamação. E isto aplica-se a qualquer tipo de aparelho”.
FACTOS E NÚMEROS
NOKIA INFORMA
A Nokia Portugal informa que “leva as questões de segurança muito a sério e tem desenvolvido, na questão das baterias, programas que permitem ao utilizador identificar a autenticidade da sua bateria Nokia”. Para mais informações, basta consultar o ‘site’ da empresa.
CASOS NO MUNDO
Em todo o Mundo já foram registados cerca de uma centena de casos de rebentamento de telemóveis, responsáveis por queimaduras na face, pescoço, pernas e ancas.
UTILIZADORES MÓVEIS
Em Portugal, no último trimestre de 2005 foram contabilizados 11,4 milhões de assinantes do serviço telefónico móvel. Só chamadas, na mesma altura, foram feitas 1,6 mil milhões.
PERIGO PARA A SAÚDE
Há vários estudos que dão conta dos efeitos nocivos das radiações emitidas pelos telemóveis. O principal afectado é o cérebro, mas coração, ouvidos e olhos não escapam.
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