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Correio da Manhã

Portugal
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Temi pela vida dos meus filhos

A brasileira Cecília Fraga – de uma das quatro famílias integradas no projecto de repovoamento de Vila de Rei – acusou ontem a Câmara local de “tratar mal não só os brasileiros, mas também portugueses, que vivem num clima de medo”.
11 de Novembro de 2006 às 00:00
A imigrante afirma que não foi cumprida a promessa de que “cada um teria um trabalho e um salário de acordo com as suas habilitações e capacidades”– daí terem chegado do Brasil uma jornalista (ela própria), um professor, um informático e uma psicóloga. Em Maringá foi-lhes dito, pela mulher do prefeito (presidente da câmara) local, Luiza Pupin, que “eram precisos desde médicos a pedreiros, pelo que toda a gente se podia inscrever”.
Cecília Fraga, contratada como prestadora de serviços para “tratamento de informação” da Câmara de Vila de Rei, acusa a presidente da autarquia, Irene Barata, de a ter despedido após ter dado uma entrevista em Outubro: “A ordem que havia era ‘não falem’. A primeira vez que falei do projecto à Comunicação Social, a minha cabeça rolou”.
“Temia por mim e pela vida dos meus filhos. Nunca imaginei que existisse uma situação assim em Vila de Rei. Tudo gira em torno de poucas pessoas, existe uma pressão muito grande”, acusa a jornalista, que também já abandonou o projecto de repovoamento do concelho, iniciado em Maio, com a participação de quatro famílias – 15 pessoas no total. Já só resta uma. A brasileira mostrou-se ainda “arrepiada” com a possibilidade de o projecto ser retomado nos moldes actuais e pediu às autoridades portuguesas e brasileiras envolvidas “para terem muita atenção ao sucedido: Até me arrepio. O projecto não vai continuar assim, porque eu não vou deixar!”
A imigrante queixou-se ainda de outras situações e boatos, como o de que andaria a prostituir-se no Entroncamento e de que a sua vida estaria a ser investigada no Brasil, alegadamente a mando da Câmara de Vila de Rei, para os seus ‘podres’ serem cá usados. Agora à procura de trabalho na região de Setúbal, está a ser acompanhada pelo departamento jurídico da Associação Brasileira de Portugal (ABP). A hipótese do caso ser comunicado às autoridades não está posta de parte.
O presidente da ABP, Ricardo Amaral, também diz que estranhou, “havendo 90 mil brasileiros legalizados e 50 mil à espera, com vontade de trabalhar seja onde for. Não foram exploradas as hipóteses a nível interno e foi preciso ir buscar mais brasileiros, ainda mais com crianças”.
PERFIL
Cecília Fraga, jornalista, de 42 anos, é divorciada e tem dois filhos, uma menina de 14 e um rapaz de quatro. Natural de São Paulo, vivia há 10 anos em Maringá. “Tinha tudo”, só lhe faltava segurança para os filhos, daí ter vindo para Portugal. Em Vila de Rei trabalhou numa Albergaria a limpar quartos, num lar, na Câmara Municipal de Vila de Rei e para dois empresários.
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