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Correio da Manhã

Portugal
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Terapias são cancerígenas

Os tratamentos hormonais, que incluem as pílulas contraceptivas e a terapia de substituição para a menopausa, podem provocar cancro no ser humano. Quem o diz é o Centro Internacional de Investigação sobre o Cancro (CIRC), da Organização Mundial de Saúde, depois de uma reavaliação dos estudos feitos sobre esta matéria nos últimos anos, realizada por um painel de 21 cientistas de oito países. Apesar do alerta, há especialistas que não vêm razões para alarme.
1 de Agosto de 2005 às 00:00
A avaliação revelou riscos acrescidos de cancro para as mulheres que tomam a pílula
A avaliação revelou riscos acrescidos de cancro para as mulheres que tomam a pílula FOTO: Gonçalo Oliveira
De “potencialmente cancerígenos”, os tratamentos combinados – compostos por estrogéneo e progestativo – passam agora a ter uma nova classificação e a fazer parte da lista de substâncias consideradas cancerígenas. No que diz respeito à terapia hormonal de substituição, tomada por cerca de 20 milhões de mulheres no Mundo, o CIRC refere um “ligeiro” aumento no risco de cancro da mama e do endométrio (mucosa do útero).
Quanto à contracepção hormonal, tomada por cerca de dez por cento de todas as mulheres em idade reprodutiva – cerca de cem milhões em todo o Mundo – concluiu ainda que, para além do risco de cancro do fígado, já conhecido, acresce agora o risco, ainda que considerado pequeno, de desenvolvimento de outros tipos de cancro – mama e cervical –, isto apesar de proteger do cancro do endométrio e ovário.
“É um cenário complicado”, referiu Vicente Cogliano, do CIRC. “Mas isto não significa que as mulheres devam deixar de fazer os tratamentos. Há outras razões para isso. Cada mulher tem que discutir a situação com o seu médico e pesar os riscos e benefícios”, acrescentou.
CONTROLAR AS SITUAÇÕES
Para Daniel Pereira da Silva, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, trata-se de uma “posição de sensatez”, apesar de, na opinião do médico, pouco mais ser do que o “reavivar de uma questão já conhecida”.
O especialista diz até que não há razões para alarme. “Não creio que haja motivos para fazer uma revisão substancial das prescrições feitas. Há aqui a afirmação de um risco, mas com um determinado impacto, uma vez que os dados conhecidos não são esmagadores”, refere ao CM. Há que controlar as situações, acrescenta, algo que já é feito, “uma vez que as mulheres que fazem estes tratamentos são sujeitas a um controlo mais apertado”.
VOZES CONTRA AVALIAÇÃO
Neves-e-Castro, fundador e presidente honorário da Sociedade Portuguesa de Menopausa, não esconde críticas ao Centro Internacional de Investigação sobre o Cancro. “De entre os nomes envolvidos na reavaliação não há nenhum da Sociedade Europeia da Menopausa, da internacional ou da Americana, que são os especialistas nesta matéria. Não foram convidados e resta saber porquê”, questiona. Para o médico, as terapias hormonais de substituição são a única forma de devolver a qualidade de vida a muitas mulheres, ao mesmo tempo que permitem prevenir problemas cardiovasculares, osteoporose ou alzheimer.
“O que é necessário é fazer o perfil das mulheres e se não houver contra-indicações, não há motivos para não fazer o tratamento. O risco de uma mulher que faz estas terapias ter cancro da mama é, de acordo com todos os estudos, inferior ao risco das que tiveram a mestruação antes dos 12 anos ou das que optam por ter filhos mais tarde na vida. É um risco mínimo”, refere.
MÉTODOS E DADOS
MENOPAUSA
A terapia hormonal de substituição é usada como forma de alívio dos sintomas da menopausa, tais como os afrontamentos, sudação, cefaleias, irritabilidade e dores ósseas.
PÍLULA
A pílula existe desde 1955 e trata-se de um comprimido com hormonas sintéticas semelhantes às que são produzidas pelos ovários das mulheres: o estrogéneo e a progesterona.
NÚMEROS
Em todo o Mundo, cerca de dez por cento das mulheres – cem milhões – toma a pílula combinada, enquanto cerca de vinte milhões recorre à terapia hormonal de substituição.
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