page view
Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

TERRAS EMBARAÇOSAS

Viver na Campa do Preto, morar em Picha, namorar em Amor ou trabalhar no Coiro da Burra pode acontecer a qualquer um, mas há quem não se conforme com a toponímia que lhe calhou em sorte.

23 de junho de 2003 às 00:00

"Isto não tem jeiteira nenhuma, mas olhe, é o nome que sempre tivemos e assim vamos morrer, a viver na Picha", desabafa à Lusa Maria Ondina, 62 anos, residente numa das mais famosas e estranhas localidades de Portugal.

No concelho de Pedrógão Grande, na zona Centro do País, Picha está habituada a receber os forasteiros, sejam turistas ou jornalistas, curiosos com o nome da terra. "É um rodopio, estamos fartos de sair no jornal", brinca Paulo Santos, 36 anos, sem esconder uma ponta de orgulho.

Colocados no mapa, os habitantes de Picha já encolhem os ombros com os sorrisos maliciosos em redor do nome, mas Paulo assume que "de vez em quando ainda causa algum embaraço explicar o local de residência".

Embaraço é, aliás, a palavra certa para descrever a sensação de quem mora na Rua da Punhete, em Valongo, Porto. "Tínhamos uma munícipe que sempre que ia à Junta tratar de qualquer assunto baixava a voz quando dizia que morava em Punhete", recorda Jorge Ribeiro, funcionário da Junta de Freguesia de Alfena, uma das cinco do concelho.

Antigo lugar, Punhete não passa hoje de uma rua, que se estende ao longo de um campo lavrado, que é atravessado por uma ponte e um riacho, depois de ter sido, absorvido pelo Lugar do Barreiro.

Na toponímia portuguesa, são vários os casos de terras cujos nomes não passam de memória.

Em Ponte de Lima, Minho, o lugar do Cabrão, vá-se lá saber porquê, passou para Castanheira, enquanto, mais abaixo, no concelho de Penacova, Sampaio de Farinha Podre deu lugar a Sampaio do Mondego.

Sem mudarem o nome à terra, mas sem o assumir, os habitantes de Porca, na estrada que liga Ponte de Lima a Barcelos, pintaram a placa que dá nome ao lugar, onde não existe mais de meia dúzia de residências.

Mais expansivos são os habitantes de Campa do Preto, uma pequena localidade da freguesia de Gemunde, na Maia, arredores do Porto.

Na Campa do Preto não se esconde o orgulho pela lenda, glorificada todos os anos com uma festa pagã, que conta que um escravo preto não cumpriu a ordem do fidalgo patrão e protegeu a fuga de uma donzela.

Enraivecido pela desobediência, o nobre atou o escravo ao cavalo e partiu, a galope, desfiladeiro fora, com o preto de rojo.

"Conta a história que o preto foi deixando os seus restos mortais pela estrada e a cabeça ficou por aqui. Foi por isso que o povo juntou os pedaços do corpo do preto e fez-lhe a sepultura", contou Albina Moreira da Silva, 63 anos, responsável pelo café na sede da Associação Beneficente Campa do Preto.

Quem passa na estrada que liga Castêlo da Maia a Matosinhos encontra o monumento, "que é visitado por muitos crentes, que acendem as suas velas ao preto", revela Manuela Pinto, uma das proprietárias do café com o nome da localidade.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Bom Dia

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8