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Correio da Manhã

Portugal
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Testemunhas fartas de estar à espera

Bruno, 21 anos, trabalhador da construção civil, não vê a hora do pai regressar a casa. A polícia deitou-lhe a mão em Janeiro de 2004, no âmbito do processo da rede de pedofilia em S. Miguel e, desde aí, está em prisão preventiva na cadeia de Ponta Delgada, com três dos 18 arguidos.
16 de Março de 2005 às 00:00
“Pede tabaco e dinheiro para o café. Nunca falamos sobre o caso. Diz que está a ser bem tratado, sem razão de queixa.”
Bruno ainda não decorou a idade do chefe da família – o João Manuel, pescador de lulas e chicharros em barco de boca aberta. “Acho que tem 51 ou 52”, atira, enquanto aguarda a vez de ser chamado pelo juiz Araújo Barros, presidente do colectivo que julga o ‘caso Farfalha’.
Há dois dias que Bruno sobe e desce as escadarias do Tribunal. Não para ver o pai, mas porque é testemunha abonatória de outro arguido – o construtor para quem trabalha. Talvez por isso seja das poucas testemunhas a quem o tempo não faz falta. Muitas outras começam a estar cansadas de andar há dois dias no tribunal sem deporem. Mas não é possível andar mais depressa – são quase 200 testemunhas e o julgamento ainda vai no terceiro dia. “A lei diz que temos autorização para vir responder, mas há muitos patrões que não pagam estas horas. E quem ganha ao dia não recebe”, conta quem sabe.
SEM PAI NEM ORDENADO
Bruno é diferente. Dá a cara. O pai está preso, “faz falta lá em casa”, mas a vida continua. “A princípio foi um choque, sobretudo para a minha mãe, mas agora está tudo normal”, garante. “Além de termos ficado sem pai, foi menos um ordenado lá em casa. Somos seis irmãos, cinco rapazes e uma rapariga. A minha mãe é doméstica, mas de resto tudo trabalha. Até o meu irmão mais novo, que tem 15 anos e acabou o nono, vai começar a trabalhar.”
Para o regresso à normalidade da família Silva, em muito contribuiu a atitude das gentes de Santa Cruz, Lagoa. “Nunca ouvimos um comentário, uma crítica. Foram todos solidários, sobretudo os vizinhos. Tratam--nos como se nada se tivesse passado”.
Sobre o caso, pouco ou nada sabe. “O advogado foi nomeado pelo tribunal e só fala com ele, nunca contactou a família para nada ou sobre o andamento do processo.”
Às 14, é hora da chamada. De notificação na mão, Bruno sobe as escadas. Talvez seja desta.
JUSTIÇA CÉLERE NOS AÇORES
O futuro dos 18 arguidos do processo da alegada rede de pedofilia em S. Miguel deverá ser conhecido na primeira ou segunda semana de Abril, apurou o CM. A primeira fase do processo (audição dos arguidos e testemunhas) ficará concluída esta semana. Em virtude das férias judiciais (21 a 28 de Março), as alegações finais transitam para os últimos dias de Março, princípio de Abril. É que, apesar de haver presos preventivos, não se trata de um caso urgente, pelo que, durante as férias, não haverá sessões. Após as alegações finais, o colectivo dos juízes reúne com os jurados (quatro). Da decisão tomada em conjunto sairá o acórdão, tudo apontando para que a leitura do mesmo se faça antes do dia 15 de Abril. Depois de, na segunda-feira, terem sido ouvidos os arguidos, coube ontem a vez de serem chamadas a depor as testemunhas de acusação (o que aconteceu durante a manhã e o início da tarde) e as testemunhas de defesa de alguns dos arguidos (à tarde). O julgamento prossegue hoje com a audiência das testemunhas abonatórias.
MÃE DE 'FARFALHA' ANTI-SIC
Deolinda Maria Gouveia, a mãe de ‘Farfalha’, tentou ontem agredir um operador de câmara da SIC à porta do Tribunal. Culpando as televisões por tudo o que aconteceu ao filho e à família, Deolinda já na segunda-feira tinha ameaçado os repórteres de imagem. Ontem passou aos actos, metendo a mão em frente da objectiva que lhe estava mais próxima e gritando um palavrão de fazer corar. Os irmãos do principal arguido do processo também não vêem com bom olhos a presença das televisões – com os outros jornalistas mantêm uma relação normal – e, ontem, garantiram que, a continuar assim, ainda haveria “câmaras a voar”. Um dado curioso neste julgamento é a presença de dois polícias entre as mais de 160 testemunha abonatórias. Entram, cumprimentam os seus colegas e aguardam na fila a sua vez para serem revistados, como os outros. Mesmo que apareçam fardados.
CRONOLOGIA
CASO CASA PIA
25 de Novembro de 2002
é detido o primeiro e principal arguido do processo Casa Pia, Carlos Silvino ‘Bibi’.
1 de Fevereiro de 2003
Carlos Cruz, o mais mediático dos arguidos, é preso.
21 de Maio de 2003
Paulo Pedroso é detido na Assembleia da República.
1 de Setembro de 2003
São suspensas as inquirições para memória futura das 32 vítimas.
29 de Dezembro de 2003
é deduzida acusação contra 10 pessoas.
31 de Maio de 2004
são pronunciados sete arguidos.
25 de Novembro de 2004
Carlos Cruz, Carlos Silvino, Jorge Ritto, Ferreira Diniz, Hugo Marçal, Manuel Abrantes e Gertrudes Nunes começam a ser julgados pelo colectivo de juízes presidido por Ana Peres.
CASO FARFALHA
13 de Novembro de 2003
A Polícia Judiciária prende o primeiro dos 18 arguidos do caso dos Açores, José Augusto Pavão ‘Farfalha’, tido como o pivô de uma rede de pedofilia.
8 de Janeiro de 2004
São detidos mais 12 suspeitos, entre os quais o médico Luís Arruda que fica em prisão preventiva.
19 de Janeiro de 2004
As 20 vítimas começam a ser ouvidas em inquirição para memória futura, diligência que dura três dias.
11 de Março de 2004
É deduzida acusação contra 18 arguidos, acusados de diversos crimes de natureza sexual.
14 de Março de 2005
Início do julgamento em Tribunal de Júri.
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